“Lugar, porém, não era tudo. Faltava o tempo, já que nos coube viver numa terra imensa, mensurável, no entanto, de ondes e de quandos, tudo devidamente averiguado pelos porquês. E de que paredes? Ao que parece, do anti-espaço e do anti-tempo. O mundo, lá, recua ao nada e, se eu pudesse voar do além para o aquém, jamais veria o princípio do mundo, mas ele todo já sendo. Donde a necessidade de lhe inventar um início, como se fôssemos nós próprios a fazê-lo, com nossos pobres meios: ou nos resignamos a considerá-lo sempre feito ou recorremos, como terroristas, à explosão de um corpo de cujo constituto não temos ideia alguma.”
Caderno de Lembranças, Agostinho da Silva
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I
Maria pés de algodão casou-se com Petrúcio. A filha, Mariana, teve Lucília na igreja. Debaixo do altar. Lucília vestia vestidos azul petróleo e aos dezassete anos foi miss Ílhavo. Ílhavo não é Portugal ou mesmo a Península com ilhas e mares, mas é alguma coisa, pensou Mariana.
Maria olhava pela janela e suspirava de tempos a tempos, enquanto a compota borbulhava ao lume, em açúcar-fogo e alguma serenidade. Viu passar Lucília, que caminhava quando conheceu João Piedade. Falaram de rejeição e também das mães. O mundo pareceu esperar enquanto pisaram as ervas do caminho e João foi queimando com o fósforo o que arrancava metodicamente da berma da estrada, num jeito de mania de criança e de adulto nervoso.
A chama, o verde que fica negro, o fumo que passa de mansinho pela trança de Lucília. Enquanto o céu escurecia, o açúcar na panela endureceu.
“Pensei que você hoje não viesse mais, que estivesse de folga. A outra menina não é má pessoa, mas na pressa sempre derruba meus remédios, além de não tomar nota das coisas que falo. Daí, se amanhã você sair de férias, por favor me previna. Percebo que anda arisca, receio que se canse de tudo e vá embora de novo para sempre. Esteja tranquila porque nunca lhe perguntarei onde você passa as tardes, nem quero saber se vai ao cinema com esses médicos. Quando sair daqui, vou levá-la comigo a toda parte, não terei vergonha de você. Não vou criticar seus vestidos, seus modos, seu linguajar, nem mesmo seus assobios. Com o tempo aprendi que o ciúme é um sentimento para proclamar de peito aberto, no instante mesmo de sua origem. Porque ao nascer, ele é realmente um sentimento cortês, deve ser logo oferecido à mulher como uma rosa. Senão, no instante seguinte ele se fecha em repolho, e dentro dele todo o mal fermenta. O ciúme é então a espécie mais introvertida das invejas, e mordendo-se todo, põe nos outros a culpa da sua feiura. Sabendo-se desprezível, apresenta-se com nomes supostos, e como exemplo cito a minha pobre avó, que conhecia seu ciúme como reumatismo.”
Chico Buarque, Leite Derramado
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“Em 1920, nasceu Hans Reiter. Não parecia um menino, mas sim uma alga. Canetti e creio que Borges também, dois homens tão diferentes, disseram que assim como o mar era o símbolo ou o espelho dos ingleses, a floresta era a metáfora onde viviam os alemães. Hans Reiter ficou fora dessa regra desde o momento em que nasceu. Não gostava da terra e menos ainda das florestas. Também não gostava do mar ou o que o comum dos mortais chama mar e que na realidade só é a superfície do mar, as ondas eriçadas pelo vento que pouco a pouco se foram convertendo na metáfora da derrota e da loucura. Do que ele gostava era do fundo do mar, essa outra terra, cheia de planícies que não eram planícies e vales que não eram vales e precipícios que não eram precipícios.Quando a zarolha lhe dava banho numa selha, o menino Hans Reiter deslizava sempre das suas mãos ensaboadas e descia até ao fundo, com os olhos abertos, e se as mãos da mãe não o voltassem a puxar até à superfície ele teria ficado ali, a contemplar a madeira escura e a água escura onde flutuavam partículas da sua própria sujidade, bocadinhos ínfimos de pele que navegavam como submarinos para algum lado, uma enseada do tamanho de um olho, um ancoradouro escuro e sereno, embora a serenidade não existisse, só existia o movimento que é a máscara de muitas coisas, incluindo a serenidade.Uma vez o coxo, que às vezes observava a forma como a zarolha lhe dava banho, disse-lhe que não o puxasse, para ver o que ele fazia. Do fundo da selha, os olhos cinzentos de Hans Reiter contemplaram o olho celeste da mãe e depois pôs-se de lado e entreteve-se a contemplar, muito quieto, os fragmentos do seu corpo que se afastavam em todas as direcções, como naves sondas lançadas às cegas através do Universo. Quando o ar se acabou deixou de contemplar aquelas partículas ínfimas que se perdiam e começou a segui-las. Ficou vermelho e apercebeu-se de que estava a atravessar uma zona muito parecida com o Inferno. Mas não abriu a boca nem fez o mais pequeno gesto de subir, embora a sua cabeça só estivesse a dez centímetros da superfície e dos mares de oxigénio. Por fim, os braços da mãe levantaram-no no ar e ele pôs-se a chorar. O coxo, embrulhado no seu velho capote militar, olhou para o chão e lançou uma cuspidela para o meio da lareira.(…)Quando Hans Reiter viu pela primeira vez uma floresta de algas emocionou-se tanto que se pôs a chorar debaixo de água.”2666, Roberto Bolaño
“Vejo apenas o umbigo, querida. Um umbigo maravilhoso. Eu respeito muito os umbigos. Na tradição africana, enterra-se o cordão umbilical, logo após o nascimento de uma criança, como forma de assegurar que a mesma permanecerá ligada ao chão dos seus antepassados. Olho para um umbigo, para um umbigo perfeito como o teu, e vejo o princípio do mundo.”
José Eduardo Agualusa, Milagrário Pessoal
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Pois há menos peixinhos a nadar no mar
Do que os beijinhos que eu darei na sua boca
Filed under: Uncategorized | Etiquetas: Because, Elliott Smith, The Beatles
Love is all, love is new
Love is all, love is you
