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Madeleine Peyroux, Blue Alert
There’s perfume burning in the air
Bits of beauty everywhere
Primeiro: vexame é uma palavra pouco harmoniosa.
Segundo: “Desenrascanço” é uma palavra que só existe em português. (Ora vejam. Ao estilo de MacGyver, é o #1) E é uma bela qualidade.
“O rádio em direto também não está nunca livre dos vexames. Conta-se que numa peça de radionovela produzida no Brasil aconteceu de um personagem advertir o outro: “você está na mira do meu revólver, prepare-se para morrer”. Neste momento, o responsável pela sonoplastia errou a faixa do disco de efeitos, e em vez do som dos tiros se ouviu o mugido de uma vaca. Depois de uns poucos segundos intermináveis de silêncio, o ator resolveu salvar a cena e disse: “e não adianta se esconder atrás da vaca que eu lhe mato do mesmo jeito”.
Eduardo Meditsch, Sete meias-verdades e um lamentável engano, aqui
O recado das ondas
«Mais nenhuma vida poderia ser vida sem esse cigarro a ver nascer e crescer a praia com mulheres e crianças felizes como tentilhões»
“Ouve, eu não queria começar o texto como um recado. Os recados são para os poetas que não sabem fazer compras e, assim, colocam papéis em todos os lugares à procura de quem lhes dê alimento. Pão, água, álcool, luz e umas palavras para adoçar a boca. Esses poetas são magros, serão sempre magros. Assalta-nos um nome óbvio para exemplificar. Não é preciso dizê-lo, pois não? Isto não é um recado, mas era importante, hoje, que me lesses, nalgum café com rede, nalguma casinhola de nadador-salvador ou pescador com rede, nalguma berma de estrada, à socapa, num alpendre com rede. Este entrelaçado de dias tem nós de sol e os peixes vêm até nós capazes de respirar. Chegámos, finalmente, à canícula, tal qual a escreveu Duras, embora se possa ainda namorar. O calor não faz tantas ondas ainda como, suponho, o mar daí ou os caracóis loiros da menina bebé que dorme, de cabeça tombada nos sonhos, nos braços do pai que embala as tempestades, tal qual as não escreveu Cesário ao chegar à lota das peixeiras pobres de Lisboa, a vê-las encher de filhos as cestas de vime que carregam na cabeça por tuta-e-meia. Hoje há quem viva do mar e ainda passe fome. Basta que passemos pelas aldeias piscatórias. Mas se arregaçam as calças e se deixam molhar pelas águas, se arrastam o barco pelas fendas da areia para mais uma faina, se o sol lhes rebenta o rosto de rugas e de musculadas lágrimas, o sal conserva-lhe todo esse amor no corpo. Não se podem afastar dali, nunca poderão. Mais nenhuma vida poderia ser vida sem esse cigarro a ver nascer e crescer a praia com mulheres e crianças felizes como tentilhões, berbigões, mexilhões num balde acabado de apanhar a bambolear nas mãos. Estarás a ouvir-me? Eu preciso de ouvir o mar pelo búzio deste texto. Estou longe de tudo. Tu, tu tens o mar, eu sei, mas poderias encostar o ouvido aqui, a este recado em ondas contínuas, que escrevi em todos os toldos ondulando nas sombras mais perfeitas do dizer.”
Ana Salomé
in Rascunho.net
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E dia 29 é amanhã.
