Umumbigo


suspicious minds
Fevereiro 10, 2019, 5:55 pm
Filed under: música

Anúncios


se alguém apanha alguém
Janeiro 26, 2019, 2:55 pm
Filed under: citações, de ler

“- Sabes o que gostava de ser? – disse eu. – Sabes o que gostava de ser? Que dizer, se tivesse a merda de uma escolha?

– O que era? E para de dizer palavrões.
– Conheces aquela canção «Se alguém apanha alguém que atravessa o centeio?» O que eu gostava…
– É «Se alguém encontra alguém que atravessa o centeio!» – disse a miúda Phoebe. – É uma poesia. Do Robert Burns.
– Bem ‭sei que é uma poesia do Robert Burns.
Mas ela tinha razão. É mesmo. «Se alguém encontra alguém que atravessa o centeio!» Mas naquele momento eu não o sabia.
– Pensei que era «Se alguém apanha alguém » – disse eu. – Mas enfim, ponho-me a imaginar uma data de miuditos a brincar a um jogo qualquer num grande campo de centeio e tal. Milhares de miuditos, e ninguém por perto, ninguém crescido, quero eu dizer, a não ser eu. E eu fico ali na borda de um abismo lixado. E o que tenho de fazer é ficar à espera no centeio e apanhar todos os que desatarem a correr para o abismo… Quer dizer, se vão a correr e não veem para onde vão eu tenho de saltar de um lado qualquer e de os apanhar. Era só isso que fazia o dia inteiro. Só estar ali à espera, a apanhar os miúdos no centeio e tal. Eu sei que é uma coisa maluca, mas é a única coisa  que eu gostava de ser. Bem sei que é uma coisa maluca.
A miúda Phoebe não disse nada durante bastante tempo. Depois, quando disse alguma coisa, o que ela disse foi:
– O papá vai-te matar. “
À Espera no Centeio, J. D. Salinger


aplausos
Janeiro 20, 2019, 12:50 pm
Filed under: citações, de ler

“Nem sequer havia de querer aplausos. As pessoas aplaudem sempre as coisas erradas.”

À Espera no Centeio, J. D. Salinger



a dream in the night
Janeiro 19, 2019, 1:13 pm
Filed under: música



jurema
Janeiro 3, 2019, 8:41 pm
Filed under: música



isto não faz sentido algum
Dezembro 29, 2018, 2:42 pm
Filed under: Uncategorized

Um prego na parede, um prego na cabeça e o súbito
clarão, algum breve temor da língua cansada, tanto
quanto  sabíamos podíamos inventar um rio sem nome
que não soa muito bem, quer dizer que vi um miúdo a
correr para o autocarro no momento  das luzes acendidas
nos lares domésticos, então desvia-se o olhar de alguém que
procura comida no lixo, vem aí uma desgraça, sinto-a no ar,
quer dizer que estão despojados tendo olhos grandes de
candura mas nada que assuste, afinal, só que de repente
escureceu muito e antes a noite não era tão de noite,
arrefeceu muito e subitamente entendi – não foi assim,
isso gostaria, foi algo sobre a fábula, sobre o corpo orgânico
paralisado com medo de perder alguém tentando
sonhar com segurança, carburando ideias e cigarros
com o troco de ontem a mais e calar, talvez amanhã
diga que foi a mais e me surpreenda com coisas que
disse escrevi fiz e esqueci. Isso é muito bizarro.
Eu fora do corpo vendo-me, vendo o corpo de Apolo,
uma infusão de eudaimonia, treinar bíceps e alongar
compaixão, mexer em coisas de há muito tempo
como caminharmos até ao chinês da avenida
Mao Tse Tung quando era noite em Maputo ou o
aeroporto novo e deserto com espaços para lojas
vazias, dormiam deitados os funcionários nos bancos,
refúgio temporário. Leste realmente Aristóteles e
Platão? Fica só um querer a solidão, querer logo depois
ser o centro da confusão e claro que compreendo a
angústia, eu também já fui triste, depois comi figos
maduros e mudei de divisão  para ouvir melhor o piano
do andar de cima, deus te abençoe desejou-me alguém,
o que estás a escrever agora mesmo – qualquer coisa escatológica,
qualquer palavrão, como é que se diz quando alguém grita
histerismo e já ninguém escreve cartas pois o segredo
é nunca personalizar mas se sou uma pessoa, lavei a louça
e os dentes, talvez possa ser planta contente sabendo
tantos livros que não li para me esquecer de tudo,
recomenda-se prudência onde o piso está molhado
dizia o anúncio a um workshop – como sair do caos
generalizado, caos real foi o tipo que andava de x-acto
a cortar miúdas no Bairro Alto, não sentiam o corte
até ver o sangue escorrer sem contenção
o horror na face e a cicatriz de um segundo
entre copos entornados e lua e um miúdo de x-acto
que adormeceu nessa noite abraçado à almofada e
sonhou com velas e um sussurro arrepiante, assim foi
morro de medo desde silêncio, uma mancha no lençol
a acenar à fantasia maior, se quiseres e puderes vem
morro de medo do silêncio ao pousar o último talher e
contudo foi assim. De um lado o sol, do outro maquilhar
um morto – tanatopraxia – embalsamar um animal –
taxidermia e aquele fôlego muito longo a querer tanto
uma cilada. Mas sim, vem de madrugada e nunca engulas
o gelado de uma vez como foi com o Sr. Barbosa que
parecia um rato, dormiu na cantina, a ré, as camaratas
eram avante e havia petróleo, ouro, diamantes aos brados
foi pena não teres vindo, havia um coração a bater na
barriga e está tão escuro, o que é que as pessoas vão pensar
sobre encandear, encadear, em princípio sim se
aprenderes a por a situação em cima da mesa e responde-me
que dia é hoje, Om namah shivaya ao acordar
500 miligramas contra a doença quando chegam as visitas
então canta uma canção à náusea, embala-a
dorme, dorme, extingue-te, há quem diga bom dia, alegria
não podemos perder a leveza, vê o céu de hoje no telemóvel
azul violeta rosa explosão de encantamento, vi tantas
fotos de pontos diferentes da cidade, o céu inteiro a chamar
o olhar para cima e os olhos abertos até ao fim dos pixéis
e naquele voo para Lisboa disseram que o destino era
Rio de Janeiro e que se deviam desligar os pacemakers
rimos todos, a tristeza muda a fisionomia, a alegria também
assim falou uma flor murcha que contemplámos
vimos corrimentos, secreções, em breve muda a lua
e o miúdo do x-ato anda à solta a cortar raparigas mesmo que
possamos pedir uma música para salvar o mundo
gritaram a vida é hoje, também gritei a vida é hoje
e quis muito espreitar a fissura, ela estava vestida de japonesa
com um olho no meio da testa a lembrar que tudo vê
então anotei aços e ferros fundidos, abraçar uma colmeia
lamber o calcário, estrela de sete pontas e o vizinho
a preferir tocar piano ao domingo de tarde, ouço melhor
junto da banheira que imagino cheia de pétalas e espuma
também nalgumas noites como quarta-feira toca para nós
e um dia ficaram com a minha chave, recuperei-a depois
para comer o dióspiro maduro e ver o mel cristalizar
e pensar num funcionário desempenhando a função
contra a tendência do mundo para a erosão e o cheiro
das galinhas. Tinha corcuma nos dedos e cabelos espantadiços.

Nesse dia, fez todo o sentido aprender que
uma personagem em casa sem problema não tem história.
Isto não faz sentido algum.



nuvem
Dezembro 27, 2018, 5:54 pm
Filed under: Uncategorized

Do bule branco sai uma nuvem de calor

quando reparo na mosca na parede, toco

era só um ponto preto em silêncio absoluto

como a nuvem de calor que sai do bule branco

chá para bebericar e engolir algo depressa

um sonho, por exemplo, polvilhado de açúcar

um ápice muito longo – mastigar o sonho

na poltrona do canto da sala, já sem luz

só a ruína do dia que é a noite a chegar

e da janela vendo alguém acertar o passo com

outro alguém, aqui há sempre chá para quem

procura essa harmonia maior do que a pressa

apesar de tudo, acertar o passo, apesar de tudo

desacelerar as trincas no sonho, prolongá-las

contra o rompante, contra o apagão, enfim

saborear – entalo-me e tusso e ouço a mosca.

Lá fora alguém seguiu noutra direção e dos

meus cabelos parece elevar-se a nuvem que

desaparece no céu para adormecer no bule

cada vez mais escuro, daqui a pouco uma

forma que adivinho estar precisamente

aqui.