Umumbigo em Moçambique


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Agosto 15, 2016, 9:34 am
Filed under: de ver



dor
Julho 31, 2016, 9:11 pm
Filed under: citações, de ler

“Uma dor é tão intensa quanto o conjunto de todas as dores. Apagar cada dor individual, cada pequena fogueira, é a única forma de apagar a grande dor colectiva, a grande queimada que nos consome a terra e as árvores, os animais grandes e pequenos, os homens.”

As duas sombras do rio, João Paulo Borges Coelho



Somos todos selvagens
Julho 24, 2016, 5:52 pm
Filed under: Moçambique

Dois amigos despediram-se recentemente de Moçambique para abraçar o Atlântico e a proximidade da família e dos amigos, em Portugal. Antes de partirem, disseram-nos que uma das coisas de que teriam mais saudades seria o Kruger. Estiveram lá três vezes e prevêem levar lá os filhos, um dia.

Eu só estive no Kruger uma vez, mas nessa vez cabe um mundo novo. Fiz o safari com eles e conheci a magia de que várias pessoas já me tinham falado.

É curioso pensar que a 120 km de Maputo entramos na vida selvagem. Já em África do Sul e passando os portões do Parque, temos a sorte de poder viver a savana imprevisível. Tudo devemos fazer para não interferir no habitat natural nem assustar os animais. Vamos de portas fechadas e binóculos na mão, abrindo de quando em quando o vidro quando parecemos seguros. Mas há sempre um perigo potencial e é imperativo seguir as regras de segurança. Se assim fizermos, experienciaremos uma viagem inesquecível. E se quem nunca visitou o Kruger me perguntar onde reside afinal tanto encanto, lembrar-me-ei sempre do que me cativou.

Vou contar-lhes sobre a surpresa de vermos um animal de grande porte. Na minha primeira visita, conseguimos ver os designados Big 5: leão, leopardo, rinoceronte, elefante e búfalo.

Vou falar-lhes dos grandes grupos de impalas graciosas ou em fuga, das espécies de plantas infindáveis e do voo de pássaros que nunca antes vi. Vou contar-lhes a semelhança desarmante que encontramos quando olhamos um macaco nos olhos. E falarei das zebras que se posicionam de forma a parecerem um único prolongamento de riscas no meio das ervas altas.

Aquele é, para quem cresceu num ambiente citadino, um lugar muito raro. Explode em cores que não se podem fotografar ou pintar e o cheiro do capim alto não cabe em nenhum frasco. É importante dizer-lhes também que, nesse dia, alguém disse:

– Vou fechar os olhos para ouvir o silêncio.

Mas logo os pássaros rasgaram o ar e os nossos ouvidos em suspensão voltaram a estar alerta. Então vou contar-lhes que vimos um crocodilo irromper da água com um pedaço de impala na boca aberta até ao fim da fome. E que na estrada demos passagem a um javali e quase a uma hiena. Parámos para que passasse uma fila de elefantes que segue uma hierarquia clara: as crias vão protegidas e, no fim, segue o maior de todos. É aterradora a caça ilegal destes animais, a par dos rinocerontes. Então temos que nos lembrar que esta é uma das reservais mais antigas do mundo, nomeada em 1926 depois de um herói de guerra, Paul Kruger, ter alertado para a eminente extinção dos animais devido à caça. Passados 90 anos, mata-se furtivamente em busca de chifres e presas. O que diria hoje Paul Kruger?

Vou dizer-lhes que há um pássaro azul-escuro que se chama estorninho-metálico e entra nas zonas de refeições e descanso. Mesmo quanto nos abrigamos, irrompe a vida selvagem. Sei que voa também acima de todas as fronteiras que já se uniram: hoje o Kruger, o Parque Nacional do Limpopo, em Moçambique, e o Parque Nacional Gonarezhou, no Zimbabwe, formam o Parque Transfronteiriço do Grande Limpopo.

Vou partilhar a sorte que é avistar as chitas na imensidão de quase vinte mil quilómetros quadrados de extensão do Kruger. E lembrar como pensei no papel da sorte deitada na rede para sonhar debaixo do negrume da noite, num lodge com vista para um rio que dorme.

Vou falar-lhes das ossadas na terra que gritam que hoje existe um corpo que amanhã pode ser só um esqueleto. E de como vimos duas impalas a lutar, mas também uma impala a amamentar. Talvez a natureza viva deste contraste: conforto e confronto.

Vou contar-lhes sobre a elegância da girafa cheia de passarinhos à volta do pescoço, enquanto bebia água, e sobre o búfalo sério que a olhava. Também vou voltar ao lago em silêncio quase absoluto. Só se ouviu o disparar de uma câmara fotográfica e o vento fez a água ondular.

Vou lembrar os dois leões que vimos comer um hipopótamo. Na selva matamos ou morremos. Somos todos selvagens, afinal. Mas no meio da brutalidade há momentos de uma doçura absoluta. Tenho que falar-lhes sobre o céu lilás e a lua gigante, muito branca, que se despediu de nós quando passámos as portas do Kruger, num final de tarde morno. Não me posso esquecer de dizer-lhes que têm que lá ir. Nós também prometemos lá voltar.



O que nos faz sorrir
Julho 9, 2016, 7:02 pm
Filed under: Moçambique

Todos os dias encontramos motivos para sermos gratos. Todos os dias nos surpreendemos com o quotidiano de Maputo. Todos os dias sorrimos quando dizemos bom dia e respondem primeiro obrigado com sinceridade, retribuindo depois o bom dia. E abrimos mais os olhos para ver toda a cor das mulheres vestidas de capulana com cestas de fruta à cabeça. Caminham com a maior elegância e dignidade, as costas muito rectas e o olhar determinado. Vamos por aí e partilhamos a alegria dos meninos que brincam na rua entre gritos e correrias. Alguns ainda caminham com passos demasiado pequeninos e agarram-se à mão dos maiores. Continuamos e admiramos as carrinhas cheias até mais não, com corpos metade de fora das janelas. E também as de caixa aberta onde vão pessoas em pé até mais não. Contrastando com a máxima confusão, vemos os mais velhos que jogam às damas com tampas de garrafões de água: azuis de um lado, brancas do outro. Sentam-se debaixo da sombra de árvores de copas frondosas. Aqui há árvores muito grandes a lembrar que não são só os homens que mandam na cidade. Continuamos para ver os sapatos ficarem da cor da terra e não faz mal. As solas desgastam-se rapidamente com os sobressaltos dos passeios e não faz mal. Já estranhamos passeios lisos. Já estranhamos ouvir um não em Moçambique, substituído tantas vezes por “ainda”. Nós ainda dizemos não e sabemos que há coisas que não nos podem fazer sorrir. Mas continuamos sabendo que nos atrai o poço cultural que aqui se move. Perguntamos o que trouxe todas estas pessoas. Que diferença estarão aqui a fazer. Quão diferentes estarão desde que chegaram. E se perguntarem também por que aqui estamos? Olhamos um para o outro e sorrimos. Depois perguntamos “não é?” no fim de cada frase, como vemos todos os dias perguntar. E ainda não dissemos que gostamos do contraste de sair da cidade para zonas rurais onde andamos em estradas longas com apontamentos de vida separados por quilómetros, ou sabendo que em poucas horas podemos entrar no habitat da vida selvagem. Ou numa praia a perder de vista. Ou numa paisagem de cortar a respiração. Sentimo-nos mais em casa quando os portugueses se juntam para torcer por Portugal, ou para comer sardinhas porque na costa do Índico também se pode festejar o S. João e os santos populares. Isso também nos faz sorrir e muito. Assim como os novos sabores que experimentamos. As demonstrações de arte com que nos cruzamos. E os cheiros e as cores e os sons. Abrimos mais os ouvidos quando um taxista diz: “Aqui já estamos habituados a esta pobreza.” E ri-se com tal alegria que ficamos a pensar se louco será ele ou nós. Caminhamos pelas ruas e imaginamos como seriam no tempo de Lourenço Marques. Agora estão velhas e muito gastas mas  isso não nos impede de encontrarmos beleza genuína. Conhecemos novos amigos e expandimos a nossa felicidade. Dançamos efusivamente porque aqui todos os ritmos vêm do princípio do ser. Claro que isso nos faz sorrir. Talvez aqui possamos, todos os dias, tentar voltar ao princípio do ser.

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click
Julho 9, 2016, 5:39 pm
Filed under: Moçambique



emergency use only
Julho 4, 2016, 7:51 pm
Filed under: poesia

vou na saída de emergência

vendo as nuvens rasgadas por nós

quando estico a mão para receber

a informação que diz: se não se sentir

capaz de ser responsável pela evacuação

de emergência, peça outro lugar.

mantenho-me imóvel e olho

a porta ao meu lado

pull, exit

– parece ser fácil

salvar um pouco de

humanidade.



morcegos
Julho 4, 2016, 6:26 pm
Filed under: Uncategorized

“Fui ganhando destreza na arte de capturar os grandes morcegos, esses vorazes comedores de fruta. Nos troncos cimeiros se conservavam de cabeça para baixo, balanceando como pêndulos vivos, alertados mas sem receio aparente. Empoleirada nas alturas, contemplava-os demoradamente antes de lhes lançar a rede. Nem sempre se distinguiam os vivos dos falecidos. As garras prendiam-se aos ramos com tal afinco que, mesmo depois de mortos, permaneciam suspensos e assim secavam até não serem mais que uma engelhada sombra. Alguns de nós, humanos, temos esse mesmo destino: falecidos por dentro, e apenas mantidos pela parecença com os vivos que já fomos.”

mulheres de cinza, Mia Couto




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