Umumbigo


lago
Outubro 7, 2018, 2:32 pm
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Na plataforma a meio do lago verde

o pai ensina o miúdo a atirar-se de cabeça

sentados na madeira quente a ver

de pernas dobradas ou dentro da água

não nos levantamos quando o miúdo se atira e

cai de chapa, a placa ondula e nós também

quero aprender a atirar-me de cabeça, sim

dizem-me que daqui não há perigo algum

a não ser  o medo de experimentar o salto

o movimento que se pode descontrolar

o fundo escuro do lago que não posso ver

como uma paixão, atirar-me de cabeça

o miúdo tem o peito vermelho e sorriso

envergonhado de quem tenta e falha

ouve, não tentar envergonha-me mais

há a plataforma boiando na água serena

tanto calor para nos secar do mergulho

amigos para me puxarem para cima

condições perfeitas para o salto

e mesmo assim esta hesitação

até que agora mesmo o pai deu um

impulso nas costas e na barriga do miúdo

antes agachado com a pontinha dos pés fora

da tábua de salvação, cabeça entre os braços

peito no queixo, uma mão sobre a outra

temo por ti e por mim e por todos os que temem

repito: qual é a pior coisa que pode acontecer?

e a mão do pai nas costas que lhe dá

impulso para a curva no ar,

primeiro mãos, cabeça, perfeito!

Levanto-me e

 

atiro-me de pés.

Ao vir à tona agradeço

ao miúdo por saltar pelos dois

– por enquanto ficarei a boiar.

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manhã
Outubro 6, 2018, 1:16 pm
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Nos olhos senti o estertor de asas.

Rápido e assustado, alastrou-se

feito nervura. “Maravilhoso escândalo:

nasço” – Clarice soube escolher as

palavras inteiras, o que pede

que nos lembremos das pequenas

vitórias, desentupir um ralo

tirar uma nódoa esconder uma olheira

encontrar o  baton que perdeu a tampa dentro

da carteira e pintou de rosa o livro de Bukowski.

Está a maior luz que possas imaginar às 9h53

o feixe de sol dentro de casa traz um vento

de infância, torcer um dente de leite

talvez o alívio de apanhar o cabelo

num dia de calor e o chamamento

das bagas venenosas ao longo do caminho.

Na língua uma flor ou um figo maduro

sais e minerais para crescer de repente

átomos para formar a curva do universo.

Li que se deliciava com os limites dos sonetos

poemas líricos de catorze versos em pentâmetro

com uma rima específica e quero agora dizer

girassóis, caracóis, vegetal, lobo parietal.

Havia algo sobre gado mau não ter desvio,

apesar de tudo algo sobre crer em nós.

Então tive um palpite: dar à luz filhos e canções

olhar a ruga do sonho logo depois de uma tarde a

desenhar catedrais de constelações.

E se tudo correr bem, em princípio

descobrir esse ponto de fuga preciso

entre interstícios e luzes ruidosas.

Quando o nó cerra é preciso paciência

para desatá-lo. Outra verdade é que morreu

Aquiles pelo calcanhar, sabe que assim foi.

Ajudará ligar ao número dos furos e poços

para chegar ao mais fundo da coisa

ou exigir separar o sangue bom do sangue mau

e nunca te contentares com pneus recauchutados

pois estourarão quando menos esperares.

Sobre os búzios sei tudo, molusco gastrópode

marinho com concha em forma de fuso e

imensa diversidade taxonómica, sobre ti

não sei nada. Só tambores calados na noite.



hora de almoço
Outubro 5, 2018, 1:52 pm
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Sentada no sofá branco

alugado analisando as primeiras

fissuras, olhando a janela entreaberta

que deixa ver a coluna cor de terra

vermelha que deixa ver o céu vibrante

que deixa ver o corte de luz, reta

diagonal que mostra o limite da sombra,

recebendo a mensagem: há cavala

para cozer, sentindo então a novidade

o olho do peixe fora de órbita, guelras

mais vermelhas do que a coluna, lembrando

os bichinhos que aparecem dos cantos

húmidos lembrando sardinhas,

peixinhos de prata, ouvindo a meditação

guiada fazendo contagem regressiva, em

breve deverei acordar, lendo a nota

cortar a coluna vertebral da rosa

é como te cortar o pescoço

e também lavar a cara no mar

ombros e peito logo depois

breathe into this place, there is heaven in this flow

vento forte moderado, nevoeiro cerrado

os vidros muito sujos e o perigo de

os limpar do lado de fora, 6º andar

pendurada por uma visão clara

pelo orgulho de janelas transparentes

sofá sem fissuras, equilibrismo contra

o pó contra traças na mão a faca cortando

a cavala saborosa. Calou-se o instrutor

por um um despertar sereno.

 



Cadastro
Outubro 1, 2018, 9:45 pm
Filed under: crónica

Na Livraria Cultura, espaço maravilhoso em São Paulo, reuni três livros. Água Viva, de Clarice Lispector. Meu Quintal é Maior do que o Mundo, de Manoel de Barros. O amor é um cão dos diabos, de Charles Bukowski. Cada um deles é um universo e vale a pena citar pelo menos uma frase marcante em cada um.

Clarice pensou: “Cada coisa tem um instante em que ela é.”

Manoel iluminou: “Sou um apanhador de desperdícios.”

Charles notou: “é o espaço, eu digo,/ todo o espaço entre/ os poemas e os contos é/ intolerável.

Esta crónica seria bastante mais rica se continuasse simplesmente a citar os três grandes, mas quero contar um episódio.

Com os livros ao peito e a alegria de novos começos, dirigi-me à caixa registadora da Livraria Cultura. Então perguntaram:

– Você tem cadastro?

Fiz ar de espanto. Isso influencia a minha escolha de ler? Não precisei de responder para um amigo se rir – cadastro é ficha de cliente, explicou-me.

Também ri e agora penso como é curiosa a significação das palavras. O que aqui tem um peso de registo criminal lá tem a leveza de um histórico de compras.

Lembrei-me deste momento sem grande importância ouvindo Gonçalo M. Tavares relatar este mesmo episódio que lhe aconteceu. E dando outro salto nas palavras. Na Grécia, viu grandes camiões com a palavra: metáfora. Parece belo, mas deve-se apenas ao facto da palavra transporte ter esta tradução. Os camiões poderiam acondicionar imagens de histórias únicas, mas o mais provável seria levarem o mobiliário de alguém em mudanças. Ali vai uma cadeira e um olhar de pedra.

Para além do significado ligado à cultura e contexto, cada pessoa atribui à palavra o seu próprio significado. Gonçalo continuou dizendo que a palavra Paris não tem a mesma dimensão para quem lá partiu o pé ou se apaixonou. Ou algo parecido com esta ideia.

O dicionário Priberam define palavra da seguinte forma: “Unidade linguística com um significado, que pertence a uma classe gramatical, e
corresponde na fala a um som ou conjunto de sons e na escrita a um sinal ou conjunto
de sinais gráficos.” Como sinónimos temos termo ou vocábulo.

Clarice Lispector definiu-a numa frase curta: “A palavra é meu domínio sobre o mundo.” E Charles Bukowski usou-as como escudo: “Essas palavras que escrevo me protegem da completa loucura.”

E talvez mais importante do que esta reflexão é o desafio lançado por Manoel de Barros: “Usar algumas palavras que ainda não tenham idioma.” Tentamos?

in Defesa de Espinho



Experiência social
Outubro 1, 2018, 9:44 pm
Filed under: crónica

A série Mindhunter (Caçador de Mentes), de David Fincher, acompanha dois agentes que exploram um caminho alternativo para prevenir crimes. Em 1979, Holden Ford e Bill Tench começam a entrevistar assassinos para estudar o que despoleta os seus comportamentos desviantes. É então que introduzem o termo “assassino em série”, dando os primeiros passos na psicologia criminal.

A certo momento do enredo, anotei um diálogo entre os dois agentes. Holden diz:

“- Fazíamos uma experiência em psicologia social.

– Qual era?

– Entras num elevador cheio de gente e viras-te para a direção oposta, para a parte de trás do elevador. Todos se passam. Sentem-se desconfortáveis por razões que nem conseguem articular. Se te virares e olhares para a frente, todos ficam tranquilos.”

E depois pergunta:

“- O que nos une?

– O que não nos deixa dormir de noite?”

Tento encontrar vídeos sobre esta experiência. Materializa o conceito de conformismo social de Asch que, em 1951, demonstrou o poder das regras de um grupo.

Vemos, através de uma câmara oculta no elevador, várias pessoas entrarem e acabarem por virar-se de costas para a porta, com ar confuso, seguindo os restantes que já lá se encontram. Quanto maior o grupo, maior parece ser a probabilidade de o fazerem. Ceder à pressão da maioria é o caminho que garantirá a sobrevivência?

Outra experiência curiosa mostra várias pessoas numa sala de espera. Sempre que se ouve um sinal sonoro, toda a gente se levanta. Logo se sentam e, após o mesmo sinal, levantam-se novamente, como um condicionamento de Pavlov. E o que faz a pessoa apanhada no meio deste grupo? Ao fim de um tempo, com ar desconcertado e desconhecendo o motivo, reproduz o comportamento. Os indivíduos tendem a agir em conformidade com as regras e expectativas do grupo que integram.

Holden e Bill, pelo contrário, recusaram seguir as premissas estabelecidas. Representam os agentes especiais do FBI John Douglas e Robert Ressler que lançaram o projeto ousado de estudar as mentes criminosas, em parceria com a Ann Burgess, aplicando o conhecimento para resolver casos em curso. Contra muitas vozes contrárias, iniciaram um caminho difícil e perigoso até encontrarem respostas às suas perguntas, ou apenas cada vez mais perguntas. E isso é corajoso.

Há sempre alguém que vira as costas a todos os que esquecem o poder da individualidade. Há sempre alguém que procura a evolução.

in Defesa de Espinho



girar
Setembro 29, 2018, 9:49 pm
Filed under: música



Olho
Agosto 12, 2018, 6:17 pm
Filed under: Uncategorized

A primeira praça: Sultanahmet foi em noite
de eclipse lunar, era a noite de ouvir a primeira
chamada para a oração no minarete alto,
noite de saber que viria ainda a lua vermelha e
casais de mãos dadas nas pedras em frente ao Bósforo
mansidão azul, luzes cintilantes, este chá de bandeja no
Grande Bazar e olha livros mais antigos do que a língua
e todas as histórias de sultões que guerrearam e amaram.
Diziam as escrituras sagradas algo importante antes
do lenço que caiu diante do Corão e o sinal – cobre-te
o sinal antes dos corridas dos romanos no hipódromo
ainda antes do embalo do rio. Isto é Istambul, carrossel
de civilizações e fragmentos misteriosos como o antigo
Império Otomano, o mar Negro, perguntarei pelo harém,
dormiam aqui as concubinas e esta é a cabeça da medusa
debaixo da terra, se a olhares bem assusta um pouco só
se fechares os olhos sentes os dervixes a rodar, a rodar,
mas por favor não fotografar, é um ritual de ascensão
e ne ariyorsan, o da seni ariyor ou what you seek is seeking you.
Tinha sandálias e senti nos pés o vento das saias brancas e a
lua de sangue tão perto de nós passou agora atrás da Mesquista
Azul, brilhava Vénus mas where exactly is my bag, nem Oriente
nem Ocidente, só o sítio desconhecido e raro colhendo nêsperas
pequeninas muito doces cor de açafrão que cheirámos, Sofia que
obriga a subir os olhos, move o pescoço. Dizia Joyce nos lençóis alvos
“Vê agora. Todo o tempo ali sem ti” e qualquer coisa sobre mundo
sem fim num barco a abanar demasiado que serviu o melhor
pão com peixe frito e cebola, juro, debaixo de reflexos dourados
talvez levar um candeeiro bonito assim ou talvez dançar a
música que soa a lantejoulas vinda da carrinha ou parar finalmente
na parede cor de laranja para te fotografar. Olhaste para mim
e eu agora olho-te a ti. “Quem alguma vez nalgum lugar lera
estas palavras escritas?” – as gaivotas lerem, os homens
pescaram na ponte, um gato no mesmo dia percorreu Europa
e Ásia e olhou a bandeira azul celeste, outro chamamento
para rezar e mais um culto ao músculo, posso tocar
ou ficamos a falar na estrada de mais estrada
ir em frente ou para cima como neste balão de ar quente
e agora lembro-me que o dervixe tinha a cara do
homem que dormiu na rua com mulher e bebé
podem duas pessoas ser a mesma pessoa, pergunto
podemos rasgar esta farrapo de nuvem, podemos ouvir
Where do you come from? Welcome, sou o condutor
que subiu o volume da música eletrónica no meio
da paisagem lunar. Isto é a viagem ao centro da terra.
Há montanhas, pedra e tanto calor que o suor seca
antes de escorrer e as rosas não murcham, as videiras
são verdes, o autocarro é uma discoteca e os
eremitas pintam a pedra fria tão alta, Jesus.
É o último dia de julho para vermos finalmente
os cestos serem levados, às quatro e trinta a oração,
às sete a chama sobre os vales rochosos, voar é suave
imaginei-o assim e depois ainda há o fogo no olhar
no peito de quem sabe que isto também é sonhar
às escuras na cave, comendo húmus e azeitonas e o
telemóvel dentro da vela a fazer luzes no teto de
pachás, visigodos, as vossas barbas parecem de
turcos como o que fumou pachorrentamente
num tapete mágico vermelho amarelo azul
são as cores do amanhecer, brindaremos com
champanhe and I love him encantará no lobby.
“Se fôssemos todos subitamente outra pessoa.”
Quando o sono cobre-nos feito manto quente
esqueço-me das histórias, lembro pequenas imagens
a saia esvoaçaste, havia o olho branco do cão
a menina a pedir colo à mãe e o despontar do sol,
havia a forma do chá. Bebi toda a luz do quarto.
Diz “ainda assim agradas mais em desalinho” e
quero água gelada sem tempo de gelar o copo,
olha que “O que no curso da vida perseguimos é mais
querido que tudo o resto” – a mão dá, a mão recebe, a mão toca
tantas almofadas, fly me to the moon ou para as casas
escavadas na rocha. Gosto desta pedra quente do hamam
e ficarei aqui a ser esfoliada, massajada, lavada e envolta
numa nuvem de espuma que cresceu muito, assim eram
os banhos e agora a máscara verde escura no rosto,
esperar até clarear, nos pés sal, lambi e era sal,
os ombros suaves como iogurte e depois de tudo
ouvimos os risos histéricos, som de água e correrias.
Dormi. Mais tarde veria a roupa de quem nos massajou
a secar no radiador – soutien, cuecas, t-shirt e saia. Então
houve luta de água infantil sem burcas, sem harpas, sem
gritos no coche, 22h20 em letras vermelhas grandes
23 graus cá dentro e sacos nas janelas colados para o vómito
não enjoo há algum tempo, deixei de ler no carro, sei que
agora é preciso parar de tomar estas notas porque é preciso
chegar à névoa de Pamukkale – vê o banho de calcário
e o Império romano que chegou até aqui, também as
árvores conquistaram o céu. Ciprestes?
O miúdo preparou a narguilla, fazia calor na varanda
jantamos no chinês e ao lado a miúda loira com o
carrapito no alto da cabeça disse I want to get wasted pois
começou o chamamento, seriam ciprestes.
Com Deus me deito com Deus me levanto rezando na rádio
eu bebo um drink, eu fico tonto, eu vejo montanhas altas
Maomé, vimos o cajado de Moisés e uma roda gigante
parada chamada Ranger e o que interessa isso se
a paz é turquesa e desconhecida e para nos
ligarmos só precisamos de mímica de um quarto
minguante. Há vento tórrido na estação de serviço.
Parem de lavar os vidros, não podem existir assim
tantos mosquitos. Tanto tempo para orar. A surpresa
queima o corpo, pássaros na floresta e cheiro a
fogueira podem salvar. Buganvílias rosa, isso sim.
Bater com uma pedrinha na outra, a rebentação forte
traz sonolência de início da tarde, somos corpos de barro
quente, somos folhas a flutuar horas e horas
tens que relaxar para aprender como, esquecer tudo
tens mesmo que ver os pára-quedistas lá em cima
imagina se dão aquelas voltas, depois da água o céu
mas antes esta tábua de salvação onde nos deitámos
a apanhar sol. Tenho tanto medo de mergulhar de cabeça
e não sei içar a âncora ou seguir o barulho das correntes
lembrando tesouros trazidos do fundo do mar ou escravos
sírios que fizeram este vestido florido molhado de mar
com a gota a fazer o seu caminho nas costas morenas. Eu
cobri a perna de pedrinhas, escolhi as brancas, tu de todas
as cores, escolheu as castanhas arredondadas como feijões,
escolheu as pretas. “Quão magnânimos estamos esta manhã.”
Queria saber que flor desconhecida era a do perfume doce,
já ninguém conhece as flores. Já ninguém lambe os dedos
do cordeiro, alguém ainda guarda pão nos bolsos.
“Lê o teu próprio obituário, dizem que viverás mais tempo.”
Ainda me sinto no barco. “Dá-te um segundo fôlego.”
Na bola saiu o número 1, devo voltar ao lago verde esmeralda.
“Nova concessão de vida.” 1, 2, 3, Take off!
Não te esqueças do poder de uma varanda debaixo das estrelas.