Umumbigo em Moçambique


do fim do mundo
Setembro 23, 2016, 9:58 am
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Decidir
Setembro 19, 2016, 1:53 pm
Filed under: crónica

Estou em Maputo, a escrevinhar e a ouvir Chico Buarque. Bebo leite de amêndoa porque li algures que é saudável. Sabe a suavidade. Da janela vejo a luz do sol que ilumina o prédio velho perder intensidade. Daqui a pouco cai a noite. Aqui anoitece cedo.

Estou em Maputo porque decidi voar para cá. Decidi que quero escrever mais, decidi ouvir agora o meu músico preferido. Decidi ir buscar uma chávena com leite de amêndoa e colocá-la ao meu lado, na mesa vestida de capulana moçambicana. Em cima da mesa vejo as chaves que abrem a porta da casa onde decidi morar. Ao lado está o livro que decidi começar a ler.

Assalta-me o terror de ter a sorte maior de poder decidir. Todos os dias cruzo-me com quem não o pode. Para eles, a noite cai ao nascer do dia.

A aleatoriedade dos nossos destinos começa no momento em que damos o primeiro grito, após o nascimento. Conhecemos muitos exemplos extraordinários que contrariaram um contexto de crescimento muito duro e vazio de perspectivas de felicidade e realização. Mas sabemos de tantos exemplos que não podem combater um contexto desolador que, desde o primeiro dia, rouba toda e qualquer esperança.

Pergunto como será não ter a palavra decisão na rotina diária que, somada em anos e as décadas, forma uma vida.

Saber apenas escolher qual o melhor caminho para a sobrevivência em determinado momento, procurando garantir comida, água, abrigo. Escolher entre algumas opções fechadas e raras. Está tudo na pirâmide de Maslow. Como pode alguém com fome pensar em soluções criativas e vislumbrar um escape possível?

O terror perante a maior sorte da nossa vida parece desprovido de sentido. Escolho essa palavra para dar importância à enorme responsabilidade que temos. Quando reflicto sobre ela, não nego a dúvida que nasce perante as consequências das minhas acções. Poderei contribuir para alguma coisa que não apenas a minha realização pessoal?

Se podemos decidir, que decidamos alguma coisa em prol de quem não o pode. Se o fizermos uma única vez, talvez a noite já não caia com o nascer do dia para alguns. Talvez esses alguns possam ajudar outros mais. Talvez possam por um momento captar a enorme oportunidade que existe num dia luminoso.

in Defesa de Espinho, 1 de setembro de 2016



escrever
Setembro 19, 2016, 1:40 pm
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“Respondi-te, mas tu fazes de conta que não percebeste. Para escrever é preciso desejar que alguma coisa sobreviva a ti. Mas eu nem sequer tenho vontade de viver, nunca tive uma vontade forte como tu tens. Se eu fosse capaz de me apagar agora, mesmo enquanto estamos a falar, ficava mais do que feliz. Imagina se me ponho a escrever.”

História da Menina Perdida, Elena Ferrante



silêncio
Setembro 19, 2016, 1:38 pm
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“Quando há muito silêncio, disse, vêm-me tantas ideias à cabeça, não faças caso. Só nos romances feios é que as pessoas pensam sempre a coisa certa, dizem sempre a coisa certa, cada efeito tem a sua causa, há os simpáticos e os antipáticos, os bons e os maus, e no fim tudo te consola.”

História da Menina Perdida, Elena Ferrante



Nápoles
Setembro 18, 2016, 7:43 pm
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“Ah, que cidade, dizia a tia Lina à minha filha, que cidade magnifica e importante: aqui falaram-se todas as línguas, Imma, aqui construiu-se de tudo e escangalhou-se de tudo, aqui as pessoas não se fiam em conversas mas são muito conservadoras, aqui existe o Vesúvio, que te recorda todos os dias que o maior empreendimento dos homens poderosos, a obra mais magnífica, o fogo, e o terramoto, e a cinza e o mar em poucos segundos a reduzem a nada.”

História da Menina Perdida, Elena Ferrante



romance
Setembro 11, 2016, 3:01 pm
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“Desatou a rir. Disse que o rosto asqueroso das coisas não bastava para escrever um romance, que sem fantasia nem parecia um verdadeiro rosto, mas sim uma máscara.”

História de Quem Vai e de Quem Fica, Elena Ferrante



noite
Setembro 11, 2016, 12:56 pm
Filed under: poesia

Levantei-me de noite para sonhar

olhos calados, boca cega

havia a janela aberta

o colosso da fragilidade

as constelações

e eu que despistei-me a olhar

para a lua tão branca

explodi em estilhaços

antes de me voltar a deitar

tentando apalpar a palavra

sinuosa: sono.