Umumbigo


manhã
Setembro 23, 2017, 5:28 pm
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Era preciso agradecer às flores

Terem guardado em si,

Límpida e pura,

Aquela promessa antiga

Duma manhã futura.

Sophia de Mello Breyner Andresen

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futuro
Setembro 22, 2017, 10:19 pm
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“Não era tanto o que havia ao fundo da estrada que assustava Ammu, antes a própria natureza da estrada. Sem marcos quilométricos a acompanharem-lhe o curso. Sem árvores a crescerem na berma. Sem sombras sarapintadas a ensombrarem-na. Sem neblinas a passarem nela. Sem pássaros a esvoaçarem sobre ela. Sem desvios, curvas e contracurvas obscurecidas, ainda que momentaneamente, antes uma visão nítida até ao fim. Isto encheu Ammu de um temor imenso, porque ela não era o tipo de mulher que quer saber o futuro de antemão.”

O Deus das Pequenas Coisas, Arundhati Roy



vida real
Agosto 27, 2017, 12:03 pm
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“Horas sombrias se avizinham, tudo parece indicá-lo. Importa não esquecer, porém, que mesmo nas histórias inventadas é sempre possível a reviravolta, um jeitinho, o flique-flaque, uma torcidela no rumo dos acontecimentos. Isto na ficção, que tanto se embaraça com lógicas e verosimilhanças – quanto mais na vida real, menina com outro desprendimento, superior à vontade, permitindo-se surpresas e fantasias, despreocupada do plausível.”

Mário Zambujal, Histórias do Fim da Rua



A filosofia de Proust
Agosto 26, 2017, 4:48 pm
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Uma amiga está a mudar de casa. Ao esvaziar a prateleira, reencontrou um livro e antecipou que talvez eu gostasse de lê-lo. É de Alain De Botton e promete desvendar “Como Proust pode mudar a sua vida”. Tendo a suspeitar de títulos como este, mas neste caso não se anuncia algo em vão. São nove reflexões – olhando para a vida de Proust e partindo da obra Em Busca do Tempo Perdido – aplicadas ao nosso dia-a-dia: como podemos viver vidas melhores?

O último capítulo que li (e que felizmente ainda não é o último do livro) intitula-se: Como sofrer com êxito. Lemos o que Proust escreveu:

“Só a enfermidade nos faz estar atentos e aprender, permitindo-nos também analisar processos sobre os quais, de outra forma, nada saberíamos. Um homem que adormece diretamente na cama todas as noites e deixa de viver até ao momento em que acorda e se levanta, decerto nunca sonhará fazer, não necessariamente grandes descobertas, mas até mesmo pequenas observações sobre o sono. Mal sabe que está a dormir. Uma pequena insónia não deixa de ter o seu valor na medida em que nos faz apreciar o sono derramando um raio de luz sobre essa escuridão. Uma memória infalível não constitui um grande incentivo para o estudo dos fenómenos da memória.”

Esta é uma visão otimista que pode mudar a nossa forma de sofrer. Acreditar que podemos extrair valor mesmo do maior sofrimento é, no momento da dor, quase impensável. Mas é importante não esquecê-lo.

Alain explica: “Apesar de podermos, é claro, usar a nossa mente sem estarmos em sofrimento, o que Proust sugere é que nos tornamos verdadeiramente inquisitivos quando estamos aflitos. Sofremos, logo pensamos, e fazemo-lo porque pensar ajuda-nos a contextualizar a dor, ajuda-nos a compreendera sua origem, a aferir a sua dimensão e reconciliar-nos com a sua presença.”

Sabemos que, entre a teoria e a prática, é preciso dar um salto grande. E muitas vezes o sofrimento tolda o pensamento e não parece ter nenhuma saída libertadora. Mas e quando conseguimos transformar as experiências e memórias negativas em ideias? Podem perder parte do poder de magoar, como defende Proust? E chegar a uma vivência mais profunda e significativa? Tentar é a única resposta e parece muito promissora.



memória
Agosto 13, 2017, 3:48 pm
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“A memória voluntária, a memória do intelecto e dos olhos, (dá-nos) apenas fac-símiles imprecisos do passado não mais parecidos com ele do que os quadros de maus pintores se parecem com a Primavera […]. Assim, não acreditamos que a vida é bela porque não a recordamos, mas se sentirmos um odor há muito esquecido, ficamos subitamente inebriados; de igual modo, julgamos já não amar os mortos porque já não nos lembramos deles, mas se, de repente, nos deparamos com uma velha luva, desfazemo-nos em lágrimas.”

Proust



enfermidade
Agosto 6, 2017, 8:17 pm
Filed under: citações, de ler

“Só a enfermidade nos faz estar atentos e aprender, permitindo-nos também analisar processos sobre os quais, de outra forma, nada saberíamos. Um homem que adormece diretamente na cama todas as noites e deixa de viver até ao momento em que acorda e se levanta, decerto nunca sonhará fazer, não necessariamente grandes descobertas, mas até mesmo pequenas observações sobre o sono. Mal sabe que está a dormir. Uma pequena insónia não deixa de ter o seu valor na medida em que nos faz apreciar o sono derramando um raio de luz sobre essa escuridão. Uma memória infalível não constitui um grande incentivo para o estudo dos fenómenos da memória.”

Proust



epílogo
Agosto 1, 2017, 10:55 pm
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“Como é óbvio, não pode existir epílogo nem ponto final para uma estória que começa por portanto”

A Geração da Utopia, Pepetela