Umumbigo


passarinho
Abril 22, 2018, 7:17 pm
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“Segurar passarinho na concha meio fechada da mão é terrível, é como se tivesse os instantes trêmulos na mão. O passarinho espavorido esbate desordenadamente milhares de asas e de repente se tem na mão semicerrada as asas finas debatendo-se e de repente se torna intolerável e abre-se depressa a mão para libertar a presa leve. Ou se entrega-o depressa ao dono para que ele lhe dê a maior liberdade relativa da gaiola. Pássaros – eu os quero nas árvores ou voando longe de minhas mãos. Talvez certo dia venha a ficar íntima deles e a gozar-lhes a levíssima presença de instante. Gozar-lhes a levíssima presença dá-me a sensação de ter escrito frase completa por dizer exatamente o que é: a levitação dos pássaros.”

Clarice Lispector, Água Viva

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eternamente
Abril 22, 2018, 7:07 pm
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“Mas eternamente é palavra muito dura: tem um “t” granítico no meio. Eternidade: pois tudo o que é nunca começou. Minha pequena cabeça tão limitada estala ao pensar em alguma coisa que não começa e não termina – porque assim é o eterno. Felizmente esse sentimento dura pouco porque eu não aguento que demore e se permanecesse levaria ao desvario. Mas a cabeça também estala ao imaginar o contrário: alguma coisa que tivesse começado – pois onde começaria? E que terminasse – mas o que viria depois de terminar?”

Clarice Lispector, Água Viva



pescando
Abril 22, 2018, 7:03 pm
Filed under: citações, de ler

“Então escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra. Quando essa não palavra – a entrelinha – morde a isca, alguma coisa se escreveu. Uma vez que se pescou a entrelinha, poder-se-ia com alívio jogar a palavra fora. Mas aí cessa a analogia: a não palavra, ao morder a isca, incorporou-a.”

Clarice Lispector, Água Viva



instante
Abril 21, 2018, 10:44 pm
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“Eu te digo: estou tentando captar a quarta dimensão do instante-já que de tão fugidio não é mais porque agora tornou-se um novo instante-já que também não é mais. Cada coisa tem um instante em que ela é. Quero apossar-me do é da coisa. Esses instantes que decorrem no ar que respiro: em fogos de artifício eles espocam mudos no espaço.  Quero possuir os átomos do tempo.”

Clarice Lispector, Água Viva



entretanto
Abril 21, 2018, 2:59 pm
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“Entretanto: se você já teve por acaso na vida um acontecimento forte, imprevisto (já teve, naturalmente) recorde-se do tumulto desordenado das muitas ideias que nesse momento lhe tumultaram no cérebro. Essas ideias, reduzidas ao mínimo telegráfico da palavra, não se continuavam, porque não faziam parte de frase alguma, não tinham resposta, solução, continuidade. Vibravam, ressoavam, amontoavam-se, sobrepunham-se. Sem ligação, sem concordância aparente – embora nascidas do mesmo acontecimento – formavam, pela sucessão rapidíssima, verdadeira simultaneidade, verdadeiras harmonias acompanhando a melodia enérgica e larga do acontecimento.”

 

(…)

 

63. E está acabada a escola poética “Desvairismo”.

64. Próximo livro fundarei outra.

65. E não quero discípulos. Em arte: escola = imbecilidade de muitos para vaidade dum só.

66. Poderia ter citado Gorch Fock. Evitava o “Prefácio interessantíssimo”. “Toda canção de liberdade vem do cárcere”.

Mário de Andrade, Pauliceia Desvairada



Carta ao Chico
Abril 21, 2018, 12:10 pm
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Aqui é o tempo das cerejas e isso é certo como algumas certezas felizes de todos os dias

almoços de domingo, sol no jardim, as minhas sobrinhas pequenas dando abraços uns atrás dos outros

a tua música, a tua poesia

e olha, Chico, isto começa porque disse querer conhecer-te e o meu amigo provocou: escreve uma carta

encontro a casa ou entrego à Miúcha

depois vem a vida feita comboio que atropela as ideias e é preciso apanhá-las nos carris uma a uma

ou temos a sorte de vir alguém lembrar o que ficou lá atrás que é uma ideia de carta

e me faz sorrir muito ao pensar que podes estar a ler, és tu o Chico Buarque?

Como é ser o Chico, Chico. É saber que no fim da noite há a melodia, o poema, os olhos que mudam

de cor e fantasia mediante a luz? É entrar na savana sem medo vestindo só curiosidade?

O mar come a praia, guloso, e o tempo satisfaz-se inteiro na pele, nos cabelos, nos dentes

mas sabe que há casos raros em que não atravessa os olhos e ser raro é tão raro.

É de mim ou hoje é dia de escrever ao Chico e se a primavera é pontual porque se atrasam os homens.

Não me atraso, é um foguetão colorido escrever-te sobre o instante enorme

em que tatuei logo tudo o que ouvi e li teu, depois é foguete rebentando no ar

com a alegria de te ter descoberto antes dos vinte

e de poder por isso completar o quotidiano porque urgente e fundamental é abraçar dias cheios

como um ovo mas não assim tão frágeis ou o cuidado não nos deixaria dar um passo em vão

e eu que nunca entendi as mulheres que não borratam o batom nem um pouco só

como nunca entendi quem não morde a beleza ao cantar demasiado alto qualquer coisa do Chico

e que acham desvio nadar de noite ou lamber os dedos e a alma.

Ouvi que somos um sonho dentro de um sonho e de outro, também ouviste?

Uma coisa que me ajuda a lembrar isso é dançar dizendo que a moça está diferente

porque foi num instante que surpreendi-me com tudo, pareceu uma explosão esbanjando vida

mesmo sabendo que a vida não se esbanja, multiplica-se e cresce, então isto é criação

e quantas vidas já criaste, Chico?

O meu amigo disse acelera a carta.

Olha, Chico, tenho vagas de ti como marés cheias ou banhos de lua

e no fim fica qualquer coisa de mansidão feita revolução – talvez a maior de todas seja silenciosa.

Queria fazer perguntas que perguntam como é o fundo do oceano

ou como pode o mundo nascer e morrer tantas vezes torto se tem o Chico e o samba

ou como podem as rosas murchar quando há o Chico capaz do sonho e basta.

No trânsito canto muito alto que cada paralelepípedo da velha cidade essa noite vai se arrepiar

imagino-me mar de pé a aclarar a voz contra uma rocha feita estrondo da cabeça aos pés

logo sei que não há palavra onde caiba mar ou montanha e não há palavra onde caiba Chico

a não ser Chico, isso sim.

E se fosses Chico contabilista, Chico astronauta, Chico jardineiro seguirias sendo poeta e cantor

e em Chico talvez pudesse caber mar, deixo o estudo aos entendidos do tamanho das palavras

e distância intergaláctica a que chegam. Eu sei que chegam muito longe.

Olha que tem que haver espanto e arrepio quanto te vir

eu que quero um dia ouvir Chão de Esmeraldas ao vivo e se não vieres a Portugal irei ao Brasil

que é preciso combater a ferrugem dos olhos numa viagem, acordar o silêncio principal

é preciso ouvir o que ninguém diz, tocar a acústica dos espaços com e sem teto

e o meu amigo acabou de dizer acelera a carta.

Logo agora que ia falar de rir à toa, logo agora que ia falar de favos de mel

do prazer de ter sede e beber água como é a sensação que provoca a tua música nos corpos eufóricos

e com água e poesia (pão também) vamos em frente na estrada com mais claridão

tendo a atenção essencial para reparar nas flores bravas, olha ali uma,

ia falar também sobre a vida ser bela, nós é que damos cabo dela se não ouvimos música nem lemos livros nem temos esperança, se abdicamos do inútil e da beleza

e tu nunca vais abdicar, pois não?

Tanta coragem, obrigada.

Queria ter a ousadia de dizer dá-me aí um poema, como quem pede isqueiro de cigarro na mão

dá-nos a poesia como cerejas que tingem os dedos, Chico, e fica tudo mais fácil.

Diz o meu amigo que hoje é o dia certo para partilhar a carta,

e se for verdade? Quem sabe, então até já.

 

30 de maio de 2015

 



que beleza
Abril 15, 2018, 7:13 pm
Filed under: música