Umumbigo


ó gentes
Julho 28, 2009, 10:36 am
Filed under: férias

“Gasta-se mais dinheiro do que nos outros dias (diz o meu pai), cansamo-nos mais do que a trabalhar (diz a minha mãe), deixamos a casa fechada e sozinha o que é um perigo (diz a minha avó), não vou dormir na minha caminha e com a minha almofada (diz a minha irmã), zangamo-nos todos à partida, à chegada, e quando não se encontra lugar para arrumar o carro (digo eu), mas não há nada melhor neste mundo, ó gentes!”

Alice Vieira, Chocolate à Chuva


Pois é, então até daqui a uns dias.

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diálogos do nada
Julho 25, 2009, 2:15 pm
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” — Não. Nunca fui senhor dessa confiança e não sou tão novo como tu. Anda daí. Acaba lá com essas tolices e fecha a porta, anda. Eu sou daqueles que gostam de ficar até tarde no café — disse o criado mais velho. — Com todos aqueles que não têm vontade de ir para a cama. Com todos aqueles que precisam de luz à noite.

— Pois eu quero ir para casa deitar-me.

— Somos de raças diferentes, nós. — tornou o outro, que já trocara a farda pelo fato vulgar. — Não é só uma questão de mocidade e de confiança, embora essas duas coisas sejam preciosas. Todas as noites me custa fechar porque pode haver alguém que precise deste café.”

— Hombre, há para aí tabernas abertas toda a noite.

(…)

Fechando a luz eléctrica, continuou a falar consigo próprio. «É a luz, claro, mas também é preciso que o lugar seja limpo e agradável. Música não se quer. Claro que não se quer música. Nem se pode estar a um bar com dignidade, embora seja o mais indicado para certas horas. De que teria ele medo? Não, não era medo, nem pavor. Era qualquer coisa que ele conhecia muito bem. Era o nada e o facto de homem ser igualmente nada. Era só isso. E tudo quanto ele necessitava era de luz e de uma certa limpeza e arrumação. Alguns viviam num meio semelhante e nunca davam por isso, mas ele sabia que tudo se reduzia a nada y pues nada y nada y pues nada. Nada nosso, que estais no nada, nada seja o vosso nome, venha a nós o vosso nada seja feito o vosso nada assim no nada como no nada. O nada de cada dia nos dai hoje e perdoai-nos o nosso nada, assim como nós perdoamos os nadas, não nos deixais nada do nada, mas livrai-nos do nada; pues, nada. Salve nada cheia de nada, nada está convosco.» Sorriu-se e entrou num bar, onde se postou diante de uma reluzente máquina de café.

— Que há-de ser? — perguntou o homem do bar.

— Nada.

Otro loco más — disse o homem do bar, afastando-se.”

Ernest Hemingway, As neves de Kilimanjaro



8h04
Julho 23, 2009, 12:49 am
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Vitor Dauster, Flickr

Vitor Dauster, Flickr

Os primeiros dois semestres universitários estão concluídos. E penso hoje no comboio que apanhei meses seguidos. Quantos viagens terei feito? Duas por dia, geralmente cinco dias por semana. Multipliquem-no por muitos meses. De sol, de chuva, de frio cortante e guarda-chuvas velhos e pretos, de sandálias no pé e sorrisos primaveris. O comboio preferencial era o das 8h04. Ou o das 8h11, quando corro a descer as escadas da estação mas ele parte antes, ou, no prisma correcto, eu é que cheguei depois. Conheço tantas caras do comboio das 8h04. Ensonadas, visivelmente arrancadas dos sonhos por um despertador persistente e ditador. Reconheço as caras, não as pessoas. Mas tento imaginar vidas e corresponder feições a existências. Havia sempre o engravatado de fato e de phones nos ouvidos. Não leva pasta, vejo-o agora mesmo de mãos nos bolsos e de pé diante da porta, mesmo que haja lugar. Entra antes da estação de Espinho (onde?) e sai em Campanhã. É curioso porque me parece que, quando tira o fato, é um surfista nos seus cinquenta anos. Alto, de pele morena, cabelo branco muito curto, ar formal mas postura de jovem. E sorriso discreto quando passamos pelas praias e pelo passadiço cheio de vento, areia e liberdade. Depois há a rapariga que parece que não lava o sono dos olhos. Imagino-a como uma estagiária que se adapta a uma nova vida, findos os anos de estudante despreocupada, findas as liberdades e noites de tequilla à semana. É, talvez, uma visão pessimista, mas ela não andava com cara de feliz. E as duas peixeiras que entram comigo em Espinho, varinas de mãos na anca e cesta na cabeça. Saias por cima de saias e lenços por cima de lenços, chinelos desgastados e o bom humor matinal que lhes invejo, adeus e bom dia que elas vão já sair na Granja. Divirto-me com outra jovem, esta que deve ser estudante, e que se enrola de uma maneira absolutamente desconcertante enquanto dorme. Questiono como é que alguém poderá adormecer assim, enrolado em si mesmo, estômago colado no nariz, olhos quase na anca, depois volta à posição natural, sentada nestes bancos vermelhos e amarelos em que me sento agora mesmo, olha lá, já te enrolaste outra vez. E o rapaz de cabelo certinho, aposto que usas pantufas e as alinhas debaixo da cama todas as noites. Ainda há lábios vermelhos e àquela hora tudo me parece excessivo, principalmente o perfume desta mulher que usa ouro com prata, verde com vermelho e carteiras Gucci falsificadas. Lê revistas, retoca a maquilhagem, mas ouve, não te pavoneies tanto que ainda é tão cedo. Gosto desta outra mulher de óculos redondos e cabelo loiro deslavado, sempre de casaco de ganga e com uma mochila invadida por pequenos porta-chaves com a forma de dálmatas.

Este comboio tem outras caras, muitos mais egos que se arrastam para algum lado (para onde?), outros já com toda a energia e garra, esses ansiosos pela vida. Entretanto chega o pica, metódico e de fato cinzento. Ele aproxima-se e as carteiras são abertas, bilhetes mostrados, desculpas de máquinas avariadas e, se tens sorte, tu aí que estás a fugir para o fim do comboio porque entraste à rebelia e sem dinheiro ainda consegues sair na próxima estação e não apanhas uma multa. Sais e respiras, mãos nos bolsos meios rotos, cadeado e gel no cabelo. Puxa do cigarro e ruma onde quer que vás. O pica continua o seu trabalho, há mais rostos para eu avaliar, conversas para ouvir e gestos a desvendar. “Bom dia, tic, obrigado.” A paisagem que corre lá fora. E entretanto já misturei o presente com o passado e vejo-me claramente neste comboio que já está em Gaia e daqui a nada chega a General Torres, uma estação que não prima pela beleza.

“A CP agradece a sua preferência e espera contar consigo numa próxima oportunidade”. Chegámos a S.Bento, onde as pombas voam e os turistas fotografam o célebre tecto e os azulejos. Lá fora vendem guarda-chuvas: “É cinco euros p’rá chuva!”. Ou, se faz calor, temos as vendedoras com uma banca ao sol de torrões e outras doçarias. E algumas dos rostos que me acompanharam saem comigo, dispersam-se na multidão, seguem os seus destinos, então até amanhã pela mesma hora.



Ochrasy
Julho 21, 2009, 9:22 pm
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Ouvir Ochrasy ao vivo foi extasiante e especial. Ochrasy é uma palavra que não existe na realidade e foi inventada pelo guitarrista e cantor Björn Dixgård dos Mando Diao. Remete para o tempo entre o fim de um concerto e o novo nascer do sol. Tudo é surreal, a visão do mundo que se torna incerta na noite tardia, todo um mundo de bares que se apresentam cheios de personagens peculiares.

“And I’m dreaming ‘bout times, times that are gone
Times when I lived alone in my own land called ochrasy
That place was everything to me
The word I made it up you see
It’s all there in my fantasy
And I believe it”

Para ouvir e sentir.



um umbigo, dois “doisbigos”
Julho 20, 2009, 6:34 pm
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O sol queima e os umbigos procuram o mar. Gosto de observá-los e avaliá-los, um a um, despidos e morenos. Longe da perfeição. Vivem em barrigas lisas adeptas de abdominais e dietas saudáveis. Ou saem de barrigas proeminentes, redondos e indiscretos. Naturais ou com piercings coloridos. Longe da perfeição, sempre únicos e irrepetíveis. Sem ou com pêlos, redondos ou tortos, hoje não são mais do que uma cicatriz que representa a ligação primordial. Registam a evolução de culturas e mentalidades e, se antes eram um tabu, hoje passeiam expostos.

Sempre gostei de umbigos mas a palavra tende a soar-me estranha. Categorizo palavras em: bonitas, feias e estranhas. Mariposa e violeta são palavras bonitas, não gosto de escafandro ou  rúcula e umbigo, assim como bidé, safa ou aguça, soa-me a algo muito estranho. Em pequena, chamava-lhes “bigos”. E se um “bigo” era, na verdade, um umbigo, para mim dois “bigos” seriam, logicamente, dois “doisbigos”. Pensava  no quão desnecessário seria embrenharmo-nos neste exercício quase matemático e, imaginado a quantidade de “bigos” que se passeiam neste mundo, declarava existirem mais de mil e quinhentos “milequinhentosbigos”. Já que, para mim, mil e quinhentos era o número infinito, a imensidão no seu limite, o inalcançável e quase o último número imaginável. “A China tem mais de mil e quinhentas pessoas?”, perguntava estupefacta. Um “umbigo”, três “trêsbigos”. Construía mentalmente a identidade caprichosa que tinha inventado esta palavra adaptável ao número. Tinha a sua piada, mas continuava a ser estranha. É um facto que parte da minha ingenuidade de criança voou quando aprendi não existirem cinco “cincobigos”, que era ridícula a minha associação. E, contrariada e de mau humor, mentalizei-me que mil destas cicatrizes serão sempre mil umbigos, quando já gostava dos meus mil “milbigos”.

Hoje, de barriga para o ar e debaixo do sol, decidi criar um espaço com este nome. Uma ode, um tributo a todos os umbigos que se movimentam por aí. Umbigos bonitos ou feios, sempre especiais. No Inverno o frio gela-os, no Verão a areia invade-os. E eles sempre aqui no centro do corpo, quase um ponto de equilíbrio. Vivem entre o ying e o yang. Há quem só pense no seu umbigo, egocêntricos e narcisistas. Há quem deseje um outro. E criticamos tantas vezes o trabalho dos médicos: não podiam ter cortado o cordão de maneira a termos um umbigo mais perfeito? Podiam, mas a piada do umbigo está na diferença e unicidade. Quando todos forem perfeitos e iguais, não volto a observá-los.