Umumbigo


um umbigo, dois “doisbigos”
Julho 20, 2009, 6:34 pm
Filed under: apresentação | Etiquetas: , ,

O sol queima e os umbigos procuram o mar. Gosto de observá-los e avaliá-los, um a um, despidos e morenos. Longe da perfeição. Vivem em barrigas lisas adeptas de abdominais e dietas saudáveis. Ou saem de barrigas proeminentes, redondos e indiscretos. Naturais ou com piercings coloridos. Longe da perfeição, sempre únicos e irrepetíveis. Sem ou com pêlos, redondos ou tortos, hoje não são mais do que uma cicatriz que representa a ligação primordial. Registam a evolução de culturas e mentalidades e, se antes eram um tabu, hoje passeiam expostos.

Sempre gostei de umbigos mas a palavra tende a soar-me estranha. Categorizo palavras em: bonitas, feias e estranhas. Mariposa e violeta são palavras bonitas, não gosto de escafandro ou  rúcula e umbigo, assim como bidé, safa ou aguça, soa-me a algo muito estranho. Em pequena, chamava-lhes “bigos”. E se um “bigo” era, na verdade, um umbigo, para mim dois “bigos” seriam, logicamente, dois “doisbigos”. Pensava  no quão desnecessário seria embrenharmo-nos neste exercício quase matemático e, imaginado a quantidade de “bigos” que se passeiam neste mundo, declarava existirem mais de mil e quinhentos “milequinhentosbigos”. Já que, para mim, mil e quinhentos era o número infinito, a imensidão no seu limite, o inalcançável e quase o último número imaginável. “A China tem mais de mil e quinhentas pessoas?”, perguntava estupefacta. Um “umbigo”, três “trêsbigos”. Construía mentalmente a identidade caprichosa que tinha inventado esta palavra adaptável ao número. Tinha a sua piada, mas continuava a ser estranha. É um facto que parte da minha ingenuidade de criança voou quando aprendi não existirem cinco “cincobigos”, que era ridícula a minha associação. E, contrariada e de mau humor, mentalizei-me que mil destas cicatrizes serão sempre mil umbigos, quando já gostava dos meus mil “milbigos”.

Hoje, de barriga para o ar e debaixo do sol, decidi criar um espaço com este nome. Uma ode, um tributo a todos os umbigos que se movimentam por aí. Umbigos bonitos ou feios, sempre especiais. No Inverno o frio gela-os, no Verão a areia invade-os. E eles sempre aqui no centro do corpo, quase um ponto de equilíbrio. Vivem entre o ying e o yang. Há quem só pense no seu umbigo, egocêntricos e narcisistas. Há quem deseje um outro. E criticamos tantas vezes o trabalho dos médicos: não podiam ter cortado o cordão de maneira a termos um umbigo mais perfeito? Podiam, mas a piada do umbigo está na diferença e unicidade. Quando todos forem perfeitos e iguais, não volto a observá-los.

Anúncios

7 comentários so far
Deixe um comentário

Enquanto dizias “bigo” não dizias “imbigo”, pelo que já eras uma criança muito perspicaz. Eu cá dizia “borro” em vez de “gorro”, e quando descobri a verdade senti-me muito ridícula.
O meu umbigo dá para encher de areia quando estou na praia, pelo que o considero um umbigo bonito e redondo. Não é que passe o tempo a olhar para ele, mas sempre gostei do meu umbigo.
Espero que passem mil mil bigos pelo teu espaço, todos com bigos e ideias diferentes : )

Comentar por Ana

Gostei muito de ler o teu texto, muito bem escrito, e que me encheu de vaidade, uma vez que fui a progenitora destes dois “umbigos”. Já agora vou confidenciar que o meu umbigo sofreu alteração(saiu para fora, durante o período da terceira gravidez), nada que não esteja já resolvido.

Comentar por Rosa

Que texto fantástico! Tão perspicaz, tão cheio de humor!!!…O teu umbigo é, de certeza, muito bonito, como só podia ser!!!!

Comentar por IM

Adorei o teu texto sobre o umbigo. Na verdade, e(apenas um áparte), lá para o Norte, os populares, não dizem umbigo mas bigo assim, como belha e não abelha. Ao trazeres para a ordem do dia o umbigo, deste-lhe uma projecção que ele certamente merece. Eu própria não o reconhecia como importante, nem como uma parte relevante do nosso corpo ( mas é) já que ele me deu dores de cabeça, passo a revelar: o meu filho Jorge, quando nasceu, tinha um umbigo feio e já não era moda a colocação das faixas… Ele chorava tanto que o umbigo vinha para fora.. eu nem queria ver!!!Os antigos diziam que era preciso a tal faixa e mais, uma moeda. Mas eu fã da modernidade, não poderia ser conivente com isso. No entanto, ficava receosa. Receosa que o rapaz ficasse com aquela parte menos bonita. Tudo passou, mas o umbigo deu-me que fazer. Depois, deixei de pensar nele, até que o teu texto o fez saltar de novo ( salvo seja), lembrando histórias. E quantas histórias mais não haverá sobre ele?
Arcelina

Comentar por Arcelina Santiago

Que excelente modo de começar um blogue. Que delicioso texto! Imagino-te a olhar para o cursor a piscar, evolução da folha em branco que pede o primeiro parágrafo. Como começar? Qual a primeira frase? É sempre uma responsabilidade. E não só o título do teu blogue é ele próprio uma excelente metáfora ao início como o teu primeiro texto concretiza-o tocando docemente nos vários campos que se abrem quando começas este teu espaço.

O tom intimista, as reminiscências da infância,a descoberta das palavras. Ah! As palavras. A sua aparição, classificação, conquista… Logo no primeiro texto mostras claramente que um blogue são palavras, palavras de que se gosta e que se procura, palavras dantes e de agora, palavras que evoluíram, que nos conquistaram, que nos surpreenderam. E, no entanto, “As palavras são pedras, Carolino; o que nelas vive é o espírito que por elas passa.” (Aparição, Vergílio Ferreira). E no teu bigo, doisbigos e milbigos havia espírito, havia lógica, havia uma explicação. Que melhor função para as palavras?

E o teu texto toca também na noção de infinito. O confronto infantil com o infinito foi uma das grandes batalhas de todos nós. Mas embora possa ter sido resolvido na altura, há medida que os anos se somaram, começar um blogue é exactamente querer novamente esse confronto com o infinito, é desafiá-lo e trazê-lo para o nosso interior. Não há limite de páginas, de caracteres, de assuntos, de divagações. Não há obrigações, padronizações, regras. Há a vontade de se estender o eu, de libertá-lo de alguma forma, uma sua vertente ou uma sua livre forma.

E isso leva-te ao terceiro ponto onde também não falhas em tocar: a unicidade.

Como não há dois umbigos iguais no mundo, também o estilo de um blogue é único, pessoal, intimista mas, felizmente, transmissível. Este espaço será inconfundível teu. Não é fácil manter um blogue individual mas com mais ou menos actualizações, com mais ou menos transformações, espero que o possas deixar-te acompanhar há medida que o tempo percorre o seu caminho.

Comentar por Ricardo Pais de Oliveira

:) Olho para a frente e tenho uma
menina doce de olhos azuis da qual muito pouco sei…

Meto conversa, faço umas brincadeiras, retribui-me um sorriso sincero.

Enigmática esta menina, gostava de a conhecer melhor já que vamos passar tanto tempo juntas, já que mesmo sem querer tantos olhares, corridas (:)), cafés, almoços, reuniões … Vamos trocar.

Por um acaso convido-a para a seguir no instagram e deparo-me com este blog delicioso, melhor o meu maior trauma… O meu Umbigo (sim também o odiei como Bigo durante muitos anos), aquele semi buraco com que cismo, que detesto ver ao espelho e que quase me impede de usar bikini. É este agora que dá o nome a um novo blog a seguir.

Obrigada Marta, gostei muito :).

Comentar por Ana Lobo

:) Vamos ter muito para conversar. E algo me diz que numa das corridas (já nos imagino verdadeiras atletas) vais de umbigo ao vento. Como podia algo que conta uma história nossa e irrepetível ser mais bonito?

Comentar por umumbigo




Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s



%d bloggers like this: