Umumbigo


8h04
Julho 23, 2009, 12:49 am
Filed under: Uncategorized, viagens | Etiquetas: , , , ,
Vitor Dauster, Flickr

Vitor Dauster, Flickr

Os primeiros dois semestres universitários estão concluídos. E penso hoje no comboio que apanhei meses seguidos. Quantos viagens terei feito? Duas por dia, geralmente cinco dias por semana. Multipliquem-no por muitos meses. De sol, de chuva, de frio cortante e guarda-chuvas velhos e pretos, de sandálias no pé e sorrisos primaveris. O comboio preferencial era o das 8h04. Ou o das 8h11, quando corro a descer as escadas da estação mas ele parte antes, ou, no prisma correcto, eu é que cheguei depois. Conheço tantas caras do comboio das 8h04. Ensonadas, visivelmente arrancadas dos sonhos por um despertador persistente e ditador. Reconheço as caras, não as pessoas. Mas tento imaginar vidas e corresponder feições a existências. Havia sempre o engravatado de fato e de phones nos ouvidos. Não leva pasta, vejo-o agora mesmo de mãos nos bolsos e de pé diante da porta, mesmo que haja lugar. Entra antes da estação de Espinho (onde?) e sai em Campanhã. É curioso porque me parece que, quando tira o fato, é um surfista nos seus cinquenta anos. Alto, de pele morena, cabelo branco muito curto, ar formal mas postura de jovem. E sorriso discreto quando passamos pelas praias e pelo passadiço cheio de vento, areia e liberdade. Depois há a rapariga que parece que não lava o sono dos olhos. Imagino-a como uma estagiária que se adapta a uma nova vida, findos os anos de estudante despreocupada, findas as liberdades e noites de tequilla à semana. É, talvez, uma visão pessimista, mas ela não andava com cara de feliz. E as duas peixeiras que entram comigo em Espinho, varinas de mãos na anca e cesta na cabeça. Saias por cima de saias e lenços por cima de lenços, chinelos desgastados e o bom humor matinal que lhes invejo, adeus e bom dia que elas vão já sair na Granja. Divirto-me com outra jovem, esta que deve ser estudante, e que se enrola de uma maneira absolutamente desconcertante enquanto dorme. Questiono como é que alguém poderá adormecer assim, enrolado em si mesmo, estômago colado no nariz, olhos quase na anca, depois volta à posição natural, sentada nestes bancos vermelhos e amarelos em que me sento agora mesmo, olha lá, já te enrolaste outra vez. E o rapaz de cabelo certinho, aposto que usas pantufas e as alinhas debaixo da cama todas as noites. Ainda há lábios vermelhos e àquela hora tudo me parece excessivo, principalmente o perfume desta mulher que usa ouro com prata, verde com vermelho e carteiras Gucci falsificadas. Lê revistas, retoca a maquilhagem, mas ouve, não te pavoneies tanto que ainda é tão cedo. Gosto desta outra mulher de óculos redondos e cabelo loiro deslavado, sempre de casaco de ganga e com uma mochila invadida por pequenos porta-chaves com a forma de dálmatas.

Este comboio tem outras caras, muitos mais egos que se arrastam para algum lado (para onde?), outros já com toda a energia e garra, esses ansiosos pela vida. Entretanto chega o pica, metódico e de fato cinzento. Ele aproxima-se e as carteiras são abertas, bilhetes mostrados, desculpas de máquinas avariadas e, se tens sorte, tu aí que estás a fugir para o fim do comboio porque entraste à rebelia e sem dinheiro ainda consegues sair na próxima estação e não apanhas uma multa. Sais e respiras, mãos nos bolsos meios rotos, cadeado e gel no cabelo. Puxa do cigarro e ruma onde quer que vás. O pica continua o seu trabalho, há mais rostos para eu avaliar, conversas para ouvir e gestos a desvendar. “Bom dia, tic, obrigado.” A paisagem que corre lá fora. E entretanto já misturei o presente com o passado e vejo-me claramente neste comboio que já está em Gaia e daqui a nada chega a General Torres, uma estação que não prima pela beleza.

“A CP agradece a sua preferência e espera contar consigo numa próxima oportunidade”. Chegámos a S.Bento, onde as pombas voam e os turistas fotografam o célebre tecto e os azulejos. Lá fora vendem guarda-chuvas: “É cinco euros p’rá chuva!”. Ou, se faz calor, temos as vendedoras com uma banca ao sol de torrões e outras doçarias. E algumas dos rostos que me acompanharam saem comigo, dispersam-se na multidão, seguem os seus destinos, então até amanhã pela mesma hora.

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5 comentários so far
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Andar de comboio diariamente é das melhores experiências sociológicas.
Ninguém se conhece mas toda a gente se conhece. E toda a gente faz o que tu fizeste, tentar adivinhar a vida dos outros. As pessoas ficam com tempo a mais para olharem umas para as outras.

Comentar por Ana

Ainda agora começou mas já gosto deste blog : )

Comentar por Tulha

Senti-me a embarcar contigo nesse comboio e durante uns minutos consegui ver todas as tuas personagens… Estou certa que se um dia fizer a mesma viagem as vou identificar….
Continua a partilhar os teus textos… um dia irás publicá-los.

Comentar por MARIA RAMOS

Já sabia que escrevias bem. Mas mesmo assim fiquei muito surpreendido pois nunca tinha visto um texto teu neste formato e fiquei encantado com a leveza, as palavras certas, os adjectivos adequados, as imagens impressivas e pitorescas como uma foto ou um toque colorido de um pintor impressionista. Sinceros parabéns. Continua.

Comentar por Alexandre Ribeiro

Excelente!

Comentar por Ricardo Pais de Oliveira




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