Umumbigo


a vantagem da tromba
Agosto 31, 2009, 2:39 pm
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“Tal como os prestidigitadores, também os elefantes têm os seus segredos. Entre falar e calar, um elefante sempre preferirá o silêncio, por isso é que lhe cresceu tanto a tromba que, além de transportar troncos de árvores e trabalhar de ascensor para o cornaca, tem a vantagem de representar um obstáculo sério para qualquer descontrolada loquacidade.”

A viagem do Elefante, José Saramago

Aí está a solução para algumas (demasiadas) loquacidades mais do que descontroladas, sem pés nem cabeça, quanto mais tronco e substância, absurdamente deitadas apenas da boca para fora: esquecendo o passo fulcral de fazerem uma visita ao cérebro. É que, ocasionalmente, umas trombas no Parlamento não ficavam mal, não.

Vai um exemplo?

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noites Ritual
Agosto 27, 2009, 9:45 pm
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A primeira é já amanhã. A segunda e última no Sábado seguinte.

A música chega mais uma vez aos jardins do Palácio de Cristal, debaixo de um tecto de estrelas e entre grilos e luar de Agosto. Prevê-se temperaturas quentes, “céu limpo, vento moderado.” E o ponto crucial desta iniciativa: celebram-se grupos musicais portugueses. O que é nacional nem sempre é bom, mas o cartaz destas noites supera desconfianças. Há Deolinda, há Dead Combo, há Foge Foge Bandido (Manel Cruz para quem ainda não se inteirou deste novo projecto). E há Pontos Negros, Blind Zero e Mão Morta. E outros que não conheço e podem (devem) surpreender. Há o calor do Verão e o verde nocturno dos jardins e há espíritos ansiosos por música e saltos e folia. Vale a pena. E a entrada é livre.

Aqui fica o cartaz.

E “Quando a alma não é pequena” dos Dead Combo, a ver amanhã a partir das 21h30.



L’auberge espagnole
Agosto 26, 2009, 3:58 pm
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Cresceu a vontade de ir em Erasmus e viver uma experiência intercultural, um caldeirão de tradições e nacionalidades e hábitos e línguas e crenças e problemas e sucessos e vivências partilhadas e misturadas.

L’auberge espagnole está recheada de sons espanhóis, músicas animadas, sempre festivas. Mas há ainda outra, dos Radiohead, que brinda de forma melancólica à ausência de vida.

No alarms and no surprises (get me outta here),
no alarms and no surprises (get me outta here),
no alarms and no surprises, please.




ninguém escreve à Alice
Agosto 25, 2009, 11:54 am
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“Mas o carteiro passou
Nada deixou nada disse
E o recado não chegou
Ninguém escreve à Alice
Ninguém escreve à Alice”
, cantaria Rui Veloso.

A verdade é que hoje ninguém escreve à Alice, à Beatriz, à Carolina, à Diana, à Eva, à Fátima, à Guidinha, à Helena, à Ivone, à Joana. Ou à Kátia com “k”, mas sem Vanessa, se faz favor, à Luísa, à Madalena, à Nádia, à Oriana. O mesmo se passa com a Patrícia, a Quitéria (sim, não foi fácil descobrir um nome começado por “q de quá quá”, um viva aos tempos da primária), a Raquel ou a Sofia. Assim como a Tânia, a Úrsula. E a Violeta, a Wilma, a Xana, a Yolanda e a Zulmira?

Depois de demonstrado que domino amplamente o abecedário, um possível motivo de orgulho nos tempos que correm, pensemos nas antigas cartas de selo e carteiro de bicicleta, de tempos em que ainda havia tempo. Poucas são as que resistem e sobrevivem às garras do e-mail, ao veneno das “short message service”, até ao chilrear do Twitter. E se estes serviços são, efectivamente, curtos e efémeros, eliminadas as frases soltas com um simples “delete”, por que é que abafa a carta longa, palpável, de cores ao gosto do freguês, com uma possível marca de batôn ou uma gota de perfume? Porque hoje é tudo demasiado rápido, demasiado imediato, quase que não há tempo para parar e pensar (o mal de tanta gente), quanto mais para pegar na caneta e no papel, escrever, comprar um selo e ir aos Correios, ora que coisa de quem não tem nada de útil para fazer, não é? Não, não é.

Tenho pena que já não se enviem cartas com a paixão de antigamente (nem de amor, nem entre amigos, nem de frustrações e ameaças, confissões ou felicitações), e eu mesmo incluo-me no grupo dos desenfreados que optam pelos meios ditos “modernos”. Mas nunca terá o mesmo simbolismo. Daí o meu vício irremediável de passar mensagens de telemóvel que de alguma forma me são especiais para papel. Como pequenos parágrafos de cartas que não chegaram. Tenho folhas e folhas de pequenas mensagens, escritas à mão num suporte que amarelece com o tempo. Não as posso eliminar com um clique rápido ou perdê-las porque a memória do bichinho electrónico pifou. Estas pequenas mensagens perduram num caderno de argolas, arrumadas na gaveta das recordações, com data e hora de entrega. Não vieram pela mão do carteiro, é verdade, também lhes falta o selo e a caligrafia do remetente. Mas o destinatário encontrou esta forma de perdurar o que hoje pode ser fugaz. É que o presente alimenta-se também do passado. E, às vezes, sabe bem ler estas “short messages” adaptadas ao formato de carta, quase um retrocesso no tempo. Um retrocesso para parar um pouco, saborear e avançar com um sorriso mais verdadeiro.

Entretanto, vou ao correio ver se chegou algum panfleto irritante publicitário, alguma conta, alguma multa, uma pilha de lixeira ou mais burocracias fastidiosas.



receita de parabéns
Agosto 24, 2009, 1:00 pm
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Uma colher de olhares felizes, uma mão cheia de cumplicidade, outras duas de amor e confiança, regar a gosto com sorrisos e abraços apertados.

Para envolver o “parabéns”, um beijo surpresa.

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A verdade é que “(todas as palavras esdrúxulas,| Como os sentimentos esdrúxulos,| São naturalmente,| Ridículas.)”

Afinal, “só as criaturas que nunca escreveram| Cartas de amor| é que são| Ridículas.Álvaro de Campos



O Outono do Patriarca
Agosto 22, 2009, 7:15 pm
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gabo“…ele perguntava a si próprio confundido no seu esconderijo que aconteceu no mundo que nada se alterava com a patranha da sua morte, como é que o Sol tinha nascido e tinha voltado a nascer sem tropeçar, porquê este ar de domingo, mãe, porquê o mesmo calor sem mim, perguntava a si próprio assombrado, quando soou um tiro de canhão intempestivo na fortaleza do porto e começaram os dobres dos sinos mestres da catedral e subiu até à casa civil o tropel das multidões que se erguiam do marasmo secular com a maior notícia do mundo…”

Segundo Gabriel García Márquez, “uma transgressão total da gramática”. O Outono do Patriarca pareceu-me, nas primeiras folhas de árvore madura, uma leitura demasiado difícil e um esforço de concentração superior ao calor do Verão. Acabou por ser um dos melhores livros que li até hoje, um poema num estilo tão lírico quanto em estado de brutidão, entre a glória e a podridão de um poder solitário e opressivo, um fantoche de vida. Todos os vícios do poder supremo: um ditador sem nome, numa idade inimaginável, tão velho que já não nos lembramos da sua tomada de posse, com cinco mil filhos e uma hérnia no testículo, cigarras nos ouvidos. As vacas que invadem o palácio residencial, as galinhas que põem ovos nas gavetas. E um mar das Caraíbas que lhe fugiu, vendido, agora uma cratera lunar, “que catano”, diria o general. As rosas obedeciam à sua alvorada, trocada a noite pelo dia e até o cometa passou quando foi ordenado.

Sarcástico e incisivo, para o mim o livro é quase angustiante de tanto brilhantismo.

«O mundo do filho bastardo de uma criadora de pássaros, apanhado pela morte numa idade incerta entre os 107 e os 235 anos, atacado pelo “vício solitário do poder”, que descobriu nos seus anos incontáveis que “a mentira é mais cómoda do que a dúvida, mais útil do que o amor, mais perdurável do que a verdade”.»

in Colecção Mil Folhas



samba no pé

Em vez do já esperado Quim Barreiros, a Festa da Cerveja (Espinho) trouxe-nos Daniela Mercury na noite de 16 de Agosto. Nunca fui uma fã incondicional, mas os ritmos quentes e animados nestes tempos de Verão sabem bem. Sons de terrakota e energia para dar e vender vinda do palco, um público não muito efusivo (a gente do mar de marés frias não vibra tanto com os dialectos das terras dos trópicos equatoriais, a humidade do ar é diferente , não bebemos tanto suco de goiaba e não temos papagaios coloridos nos copas das árvores, será?). De qualquer maneira, houve amores de Julieta e Romeu, pérolas negras, nobres vagundos: “quando tempo tem p’ra matar essa saudade?” Fomos presenteados com a batida dos “Contentores” dos Xutos e Pontapés em cantares brasileiros, língua portuguesa, note-se, sem entrarmos em debates sobre algumas ânsias de independência linguística ou outras de acordos que nos tiram o “p” de “Egipto”. O que vale ao Pacheco Pereira é que “diz que” o “p” de “abrupto” não é dessas malditas consoantes mudas e resiste, pronunciemos! Amén.

A noite não estava abafada e os corpos não suavam como se deveria exigir destes batuques e  samba no pé. Não há casos de propagação de gripe A entre este aglomerado que veio viver um ar de Brasil, apenas alguns atropelamentos de menor importância e vozes desafinadas que estavam melhor em cantares interiores. Ah, Daniela, também houve Minas com Bahia. É que amanhã não é domingo, menina, mesmo assim ninguém te acorda.