Umumbigo


de idas e voltas
Agosto 11, 2009, 12:52 pm
Filed under: pessoas, viagens
1895123476_0dcb464e49

Cats fall on their feet, Flickr

Sapatos de salto alto, saia travada e laço na camisa. Trazem o cartão identificativo e um sorriso nos lábios pintados. Eles de gravata às riscas e calças cinzentas. Caminham pelo aeroporto e indicam, recebem, acompanham. Os profissionais das idas e voltas.

Gosto deste espaço amplo, iluminado. O chão devolve-me o reflexo, os tubos metálicos que brilham. Malas e sacos e malas e ares de turista. Trazes o mapa? Os óculos de sol? A insaciadade pelo desconhecido? Há quem leia, há quem ouça música, há quem simplesmente espere. Um espaço amplo e iluminado de horas sentadas, em pé, partidas e encontros felizes. Lá fora o sol rompe os resquícios de nuvens, olá tempo quente, ainda bem que trouxe sandálias – pensa o turista inglês. Mas livra-te dessas meias brancas, sandálias e tecido de algodão no pé nunca irão ser bons parceiros por muito tempo que passe. Mas a verdade é que se toda a gente gostasse do azul, que seria do amarelo?

Os bebés impacientam-se nos carrinhos almofadados. E os abraços de reencontro, passada uma semana de férias ou meses de voltas ao mundo. Agora vejo as indicações de sanitários, depósitos de bagagens (por favor, não te percas pelo caminho), olho as portas de embarque, mais informações e os câmbios. Outra indicação para menores desacompanhados, que chegam assustados ou expectantes, onde está a senhora que ficou de vos esperar? E estas lojinhas, onde tudo é excessivamente caro. Presentes de aeroporto são tentativas frustradas de dar a entender que ninguém foi esquecido. Mas e as bugigangas típicas lá de onde vieste? Um grão de areia do outro lado do oceano. Uma mão de vento de outros céus abertos. Uma gota de chuva tropical? Um floco de neve, uma agulha de pinheiro longínquo… A gente que passa. Tanta. Todos com um destino fixo (terão?), confiantes na sua rota, da sua passada rápida e firme. Para ali, para aqui, sentem-se um bocadinho que ainda faltam duas horas. Sempre podem ir imaginado o que vão encontrar e, se acabaste de chegar, eles já te vêm buscar. Porque é que não chamas um táxi? Há tantos lá fora, onde o sol queimou o último vestígio de nuvem.

Penso se terei que tirar o cinto, se irá apitar. Não, não levo objectos cortantes, droga e todas essas substâncias ilícitas nem planeio nenhuma explosão. Apitou. Mais tempo de espera. Imagino-me a enterrar os pés na areia branca, grãos de açúcar amarelo. O mar azul e laranja de peixes fugidios, os pratos típicos e já sinto os cheiros da terra, das gentes, das tradições. Se este banco fosse menos frio, mais confortável, sentia-me já estendida na toalha e no conforto do sol. O homem que vai além transmite tudo menos conforto. Talvez venha de um safari ou de ambientes selvagens. Muito moreno, chapéu de cowboy e sandálias gastas por trilhos agrestes explorados. Talvez tenha morto ou crocodilo. Um jacaré? Tens ar de aventureiro, gostava de saber o teu próximo destino.

Um miúdo acabou de esborrachar o nariz no vidro dos doces expostos, a tua mãe já te disse que são muito caros. E estas malas que deslizam pelo chão brilhante (por favor, não se percam), quase que dançam valsas. Os balcões de check-in esperam, ou tu é que esperas por eles: 7 e 8. A porta de embarque: 29. E a fila pouca incomoda, há tanto tempo para viver. Os espíritos parecem mais calmos e pacientes, esperem só até que o jet lag vos troque as voltas. Entretanto, depois de alguns desastres recentes, vejo um homem visivelmente ansioso, não roas as unhas que com sorte não é hoje que cais ao mar, faz-te homem e bebe um copinho de vinho do Porto. A espera. Os passos. O burburinho do aeroporto. Toca um telemóvel, viras a página, ouvimos a máquina de café. E perguntas inocentes: já chegámos? Ainda não partimos. Mas já faltou mais para te apertarem o cinto e veres as asas que se elevam. Já chegámos?, pergunta persistentemente a criança com cara de reguila. Já não te disse que está quase?

E entre esta confusão pacífica, entre expectativas e cansaço, vou também juntar-me a eles e esperar, sentada, olhando para tudo, desde as árvores que se movimentam lá fora até esta senhora que, a meu lado, tenta ler furtivamente o que escrevo. Por que é que queres tanto decifrar este caderninho Moleskine? Talvez porque, aqui, a curiosidade ajuda a passar o tempo, horas de suspiros e invasões nas vidas alheias. Espaço de dialectos misturados, de idas e voltas.

Anúncios

2 comentários so far
Deixe um comentário

Penso que fui eu que, de uma maneira muito furtiva, tentei espreitar para o teu caderno, pois fiquei surpreendida com a rapidez da escrita, enquanto esperávamos pelo embarque para as tão merecidas férias. Não gosto especialmente de aeroportos, gosto de chegar confortavelmente ao destino e principalmente regressar a casa pronta para novos desafios.

Comentar por Rosa

É o meu não-lugar favorito.

Comentar por Ana




Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s



%d bloggers like this: