Umumbigo


Negro no garrido
Agosto 12, 2009, 11:18 pm
Filed under: cinema | Etiquetas: , , , ,

Entre tinieblasAcabei de ver Entre Tinieblas (Negros Hábitos), de Pedro Almodóvar. Esperava o humor negro característico, as fraquezas humanas no seu auge, a explosão de cores conjugada com o preto da tragédia. Foi o que encontrei: negro no garrido. Personagens exuberantes, improváveis, que absorvemos tanto mais quanto nos surpreendem. Neste caso, uma cantora de clubes nocturnos toxicodependente. Um vestido vermelho brilhante, drogas leves, pesadas e ácidos. As Humildes Redentoras, uma Ordem que tenta indicar o caminho certo a raparigas que se perdem nos trilhos fáceis do pecado. Freiras que desenvolvem também negros hábitos, numa confusão perturbadora entre terços e livros eróticos e rezas e paixões e vícios mortais.

A estética visual de Almodóvar é marcante. Entre os tons, a luz, os ângulos  exactos de expressões exactas ou as roupas extravagantes e decorações surreais, entramos num mundo que se vai aproximando, cada vez mais palpável, até tocarmos a seda destes cenários garridos.  Perucas, transexuais, unhas postiças, olhos carregados, travestis.  Lábios contornados, musas inspiradoras e arrebatadoras e espíritos desesperados. Anti-vaticano. Dizem que ninguém compreende tão bem as mulheres. Encontramos pequenas (ou grandes) semelhanças nestas personagens errantes. A consciência da precariedade humana. Ou a exaltação do prazer sem um vestígio de remorso.

Citando Saramago:

“O ridículo existe de facto, não é unicamente um ponto de vista. Posto isto, creio não equivocar-me muito imaginando Pedro Almodóvar, referente por excelência da “movida” madrilena, a perguntar à sua pequena alma (as almas são todas pequenas, praticamente invisíveis): “Que faço eu aqui?” A resposta vem dando-a ele nos seus filmes, esses que nos fazem rir ao mesmo tempo que nos põem um nó na garganta, esses que nos insinuam que por trás das imagens há coisas a pedir que as nomeemos. Quando vi “Volver” enviei a Pedro uma mensagem em que lhe dizia: “Tocaste a beleza absoluta”. Talvez (seguramente) por pudor, não me respondeu.”

A beleza no seu auge. Diálogos que acrescentam tanto, entre o sorriso e a lágrima. E momentos musicais que despertam, como este.

( em Hable con ella)

Texto completo de José Saramago, aqui

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