Umumbigo


O Outono do Patriarca
Agosto 22, 2009, 7:15 pm
Filed under: livros | Etiquetas: , ,

gabo“…ele perguntava a si próprio confundido no seu esconderijo que aconteceu no mundo que nada se alterava com a patranha da sua morte, como é que o Sol tinha nascido e tinha voltado a nascer sem tropeçar, porquê este ar de domingo, mãe, porquê o mesmo calor sem mim, perguntava a si próprio assombrado, quando soou um tiro de canhão intempestivo na fortaleza do porto e começaram os dobres dos sinos mestres da catedral e subiu até à casa civil o tropel das multidões que se erguiam do marasmo secular com a maior notícia do mundo…”

Segundo Gabriel García Márquez, “uma transgressão total da gramática”. O Outono do Patriarca pareceu-me, nas primeiras folhas de árvore madura, uma leitura demasiado difícil e um esforço de concentração superior ao calor do Verão. Acabou por ser um dos melhores livros que li até hoje, um poema num estilo tão lírico quanto em estado de brutidão, entre a glória e a podridão de um poder solitário e opressivo, um fantoche de vida. Todos os vícios do poder supremo: um ditador sem nome, numa idade inimaginável, tão velho que já não nos lembramos da sua tomada de posse, com cinco mil filhos e uma hérnia no testículo, cigarras nos ouvidos. As vacas que invadem o palácio residencial, as galinhas que põem ovos nas gavetas. E um mar das Caraíbas que lhe fugiu, vendido, agora uma cratera lunar, “que catano”, diria o general. As rosas obedeciam à sua alvorada, trocada a noite pelo dia e até o cometa passou quando foi ordenado.

Sarcástico e incisivo, para o mim o livro é quase angustiante de tanto brilhantismo.

«O mundo do filho bastardo de uma criadora de pássaros, apanhado pela morte numa idade incerta entre os 107 e os 235 anos, atacado pelo “vício solitário do poder”, que descobriu nos seus anos incontáveis que “a mentira é mais cómoda do que a dúvida, mais útil do que o amor, mais perdurável do que a verdade”.»

in Colecção Mil Folhas

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1 Comentário so far
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Parece que agora partilhamos mais um gosto, desta vez pela escrita de Garcia Márquez. É uma escrita nem sempre ligeira, mas que nos prende, da primeira à última página. Acabei ontem de ler o ” Amor nos tempos de cólera”, por isso agora podemos trocar! :)*

Comentar por Catarina




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