Umumbigo


30-85-GN
Setembro 2, 2009, 8:58 pm
Filed under: nostalgias

Temos um círculo de pessoas próximas que acompanham o nosso crescimento. A nata da nata, as mais chegadas e mais especiais de um universo exclusivo, podem exclamar passadas duas semanas de ausências de contacto: “Estás maior! Que é feito de ti?” “Sou feito de ossos e músculos”, diria o meu primo.

Já aquelas amigas da mãe, conhecidas de conhecidos, entre ocasionais e espaçados encontros, são bem mais efusivas: “Oh Deus! Ainda me lembro de ti bebé! Quem és tu?” Boa pergunta. E há sempre aquela fase lírica da nossa vida em que temos pavor destes comentários, uma enorme vergonha  de que algum dos nossos amigos “fixes” ouça isto vindo de gente “cota”. Esta altura é acompanhada também pela relutância em andar com os pais, não me deixes aqui tão perto que ainda te vêem, vai vai, sou grande e vacinado e ando sempre sem adultos, sou muito à frente. Enfim, há fases estúpidas na vida.

Para além de pessoas, as coisas também acompanham o nosso crescimento. Paredes de casa, a cama de infância, o espelho de sempre que nos vai devolvendo reflexos tão diferentes. Ou um carro. Tendo a associar o BM azul-escuro aos anos que por mim vão passando (e desculpo-me porque isto soa a demasiado velho). Lembro-me da primeira vez em que andei nele, cheira ainda a couro novo. Ia direita, muito bem sentada, pescoço quase hirto, cinto posto. (Isto não é para andar já às cowboyadas, acabou de chegar.)

Estava ainda na primária. Fui uma privilegiada, mimada (podem dizer) e não tinha que apanhar o autocarro apinhado. Levaram-me durante quase todo o meu percurso escolar. Primária, básico, secundário. Sempre no BM azul de céu escuro, 30-85-GN. Ele viu os amuos quando me interrompiam os desenhos animados para me deixarem na natação. Era um pavor, um medo terrível da água, daquele cloro que me atormentava. Viu o nervosismo de passar do 4º ano para o 5º, escola onde há miúdos que já parecem gente adulta e brincadeiras mais avançadas: troca-se as caçadinhas pelo “beijo ou estalo”, mas na boca não. Há muitas mais disciplinas, responsabilidades metidas numa pasta maior do que os corpos franzinos. Pega-se nela, puxa-se para cima e quase que eles caem para trás.

Viu o saco das gomas da lojita da esquina escondido entre a mochila e as cartolinas coloridas. O rubor da primeira paixoneta. As meias rotas depois de correrias e liberdade. Viu o entusiasmo da boa adaptação ao novo espaço, porventura levou um outro amigo lá a casa: “Adeus! Há tpc’s?” Foi presenteado com as migalhas do pão com marmelada comido antes de ir para as aulas de música. Gostava de tocar xilofone, talvez tivesse futuro.

Assistiu à mudança do 6º para o 7º. E se na Escola EB 2-3 Sá Couto já havia gente grande, no “Liceu” olhei para os do 12º ano com um susto estranho. São tão enormes, sou tão pequena. Enfim, num piscar de olhos invertem-se os papéis. E o BM azul sempre a acompanhar-me. Viu a primeira vez em que entrei de risco nos olhos, um gloss tímidos nos lábios. Levou-me a primeira vez a uma festa (de noite, shiu), “como o tempo passa.” Viu-me crescer em maturidade, num processo lento e contínuo de descobertas e aprendizagens. Se não fosse assim, era muito útil pedir-se na mercearia: “São dois quilos de maturidade, se faz favor. Já agora, dê-me também meia dose de responsabilidade.” Recebeu-me ensonada, levou-me em viagens. Acolheu-me por vezes frustrada, desvarios típicos de adolescente. Sentiu o meu nó no estômago em alguns testes ou exames mais complicados. Viu-me correr para ele e abrir a porta cheia de vida e o ar frio vindo lá de fora. Acolheu luvas e cachecóis, estações e anos, toalhas de praia e protectores solares. Percorreu quilómetros debaixo de chuva, foi arranhado pelas unhas impossíveis dos gatos, manteve uma folha caída e trazida pelo vento outonal. Analisou os meus enjoos sensíveis quando teimava em ler em andamento: “Isso faz-te mal!” Passou até pelo novo milénio. Até que me acolheu a mim ao volante. De roupa da Petit Patapon até hoje. Trocadas as condutoras, “como o tempo passa.

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7 comentários so far
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Quem te lê até pensa que estás velha.
Partilho contigo essa relação emocional forte com o GN, nosso amigo. Ainda cá anda. Adoro ouvir o motor dele a passar o portão de casa. Se fores tu a conduzi-lo, já não sei se gosto tanto, há sempre aquele medo de o deixares cair no jardim : )
Gostaria de aproveitar para deixar um pedido público de desculpas aos meus pais por não ter conseguido saltar a linda fase de ter vergonha de passear nas ruas de Espinho com os pais. Porque nas de Sandim, por exemplo, já não fazia mal. Em Espinho é que andava a malta fishe.
Parabéns pelo texto, piga mimada.

Comentar por Ana

É tão bom olhar para trás e recordar o nosso percurso, não é? Por onde já passamos, tudo o que nos aconteceu e como chegamos aqui. O tempo voa, voa. Bom texto Martinha :) *

Comentar por Danny

:)
Que belo texto…dei por mim a olhar para trás…ehehehe…e tanto para trás…também EU agora posso dizer-te:”Bolas, estás tão crescida!!!Conheci-te com aquele olhar tímido na 2ª carteira da 2ª fila a contar da janela…e agora…agora…”.
:)

Comentar por IM

O teu blog é tao fófinhooooo*

Comentar por Elsa

O meu texto favorito, já li, reli e voltei a ler… :)

Starlight*

Comentar por Pedro Rocha

Como é bom dar lugar aos mais novos… não é que me sinta “cota”. Fico feliz quando ouço o barulho do motor, de regresso ao fim de mais um dia… Tem um encanto especial quando a condutora enverga o seu traje, sinal que o tempo corre veloz.

Comentar por Rosa

Que texto tão bom. Um ano depois de o teres começado estou a ler o teu blogue, de fio a pavio, pela primeira vez. Dei-te tempo, talvez. Sabia que seria um blogue bom. E sabia que irias melhorar, a cada texto, porque és capaz do sublime. E cada texto que leio está melhor, mais equilibrado, mais cativante, mais envolvente. Que perspicácia e maturidade na análise. Que qualidade! Parabéns!

Comentar por Ricardo Pais de Oliveira




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