Umumbigo


Minuto e meio de sedução
Outubro 31, 2009, 8:46 pm
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Camp Matosinhos 034

Transpiram horas de treino. Transpiram perfeccionismo em frente ao espelho. Há movimento, expressão de emoções e descarga de energias. Juntam o peso de dois corpos num só e sabem que o erro não é admissível. Têm apenas um minuto e meio para provar o que valem. E todos ambicionam o 1º lugar.

POR MARTA OLIVEIRA NA SENHORA DA HORA

Elas vêm penteadas e maquilhadas, de mala de viagem na mão. Eles aproximam-se confiantes, com postura, mesmo que tudo não passe de uma máscara. Ambos partilham a ansiedade de mais uma competição. São 15 horas e lá dentro já se ouve o som de um tango. É o 5º ranking português de Clássicas e Latinas, desta vez no pavilhão desportivo da Senhora da Hora, e os dançarinos federados preparam-se para mais uma maratona de dança. Não ao estilo de Sydney Pollock, não por dinheiro. Aqui dança-se por paixão.

“Entrada no recinto só de sapatilhas.” Lê-se o aviso na entrada para os atletas. “Balneários 3 e 4 para a direita, 1 e 2 para a esquerda.” Há que espreitar os bastidores, explorar a dicotomia privado/público. O que é que está por detrás da actuação que um observador presencia? No mundo das danças de salão, a imagem é um factor determinante. Há uma metamorfose até ao resultado final, perfeito. Porque a dança é, também, teatro.

No balneário 1, os dançarinos criam uma personagem. Vinicius de Moraes, na sua receita de Mulher, retrata bem as exigências desta esfera desportiva: “As muitas feias que me perdoem, mas beleza é fundamental. É preciso que haja qualquer coisa de flor em tudo isso, qualquer coisa de dança, qualquer coisa de haute couture.” Maquilhagem, creme bronzeador, vestidos brilhantes e provocantes e penteados exuberantes. “Quando vi as dançarinas de Open pensei que nunca me vestiria e maquilharia assim, que tudo era um exagero.” Mas Ana, dançarina federada há oito anos e professora da modalidade há cinco, rapidamente adoptou os rituais.

Dificilmente se circula no balneário com as malas de viagem espalhadas pelo chão. A Isabel tem dez anos e abre uma mala do tamanho dela. “É o meu vestido, uns chinelos, a toalha e as pinturas.” Objectos pessoais indispensáveis para a competição. “E as meias de aquecimento.” Mostra mais uns quantos acessórios “E os sapatos da dança!” Maquilhada como uma mulher, abre entusiasmada a caixa das pulseiras e dos brincos. Para já, lamenta não poder ainda usar brilhantes nos vestidos. Para isso tem que passar ao escalão seguinte, Open.

Para Joana, dezanove anos, a liberdade de corte de vestido já era bem-vinda. “Não é um vestido de gola alta e até ao joelho que tenho em mente quando penso em danças de salão.” Competindo no escalão de Iniciados, a apresentação tem que obedecer a regras muito restritas. A lógica é simples: começa-se por uma apresentação elementar e igual para todos. O par só se poderá destacar pela qualidade de dança. Em Intermédios, o escalão da Isabel, já há mais liberdade, mas só em Open é que os dançarinos podem apresentar-se como desejam.

Colam-se unhas e pestanas postiças. Há troncos masculinos depilados e lábios bem vermelhos. Usam pó, não de arroz, mas sim Terrakota. O Ricardo está sentado em cima da mala, enquanto lhe põem uma base especial. “Comprada na Alemanha, no campeonato internacional do German Open. Numa loja italiana chamada Fabulous Cosmetics. É a base do Vescovo e do Di Filippo.”, informa. Nomes conhecidos de todos os que dedicam o corpo e a mente ao mundo da dança desportiva. São os campeões internacionais, dançarinos profissionais que são um modelo a seguir.

Fala-se das ambições deste campeonato. O Tiago tem catorze anos e dança há três. “Os meus amigos fazem algumas piadas mas não tenho problemas em dizer que danço.” Deixou o andebol pelos ritmos latinos e diz, entre sorrisos, que quer o primeiro lugar. A derrota dos outros é a vitória que deseja. E para entrar no espírito, tem os auriculares nos ouvidos a passar um samba.

Para lá dos bastidores, os últimos escalões interpretam as danças clássicas: Valsa vienense, Valsa inglesa, Slow foxtrot, Quickstep e Tango. Rigor e suavidade nos movimentos. Os vestidos são de gala, compridos e esvoaçantes. E, para eles, o fraque. Está um calor abrasador. Lá fora, trinta graus. Cá dentro, possivelmente mais dois. Nas bancadas os familiares, amigos ou meros curiosos abanam leques.

“Obrigado, pares”, ouve-se o apresentador. Passemos às classificações. “4º lugar – par 621.” Na plateia, um amigo critica a classificação e vaia o júri. Entregam-se as medalhas, sorriam para a foto. Há abraços efusivos.

Fora da pista principal, ainda com plumas que se libertaram dos vestidos, os pares começam a treinar as danças latinas. Há todo um jogo de rivalidade e intimidação. Quando um par está a aquecer já deve demonstrar confiança. Ana sabe que “a própria roupa de aquecimento deve ser agressiva, sensual na mulher”. E continua: “É mau se o par discute diante dos seus adversários. É preciso ter em conta que o par está constantemente a ser observado. Têm que parecer cúmplices em todos os momentos, quase apaixonados, nem que sejam irmãos ou primos.” Acrescenta que “nem sempre é fácil articular tempo, ideias e métodos de trabalho com outra pessoa, mas isso exige de nós uma verdadeira capacidade de saber ouvir, respeitar, ceder e intervir na altura certa.”

“A Joana é a seguir!”, grita entusiasmada a Isabel, enquanto come uma bolacha de chocolate. Que, a par de barras energéticas, bananas e Redbull, são as mais eleitas para dar a última energia precisa. Os últimos pormenores são revistos, bebem o último gole de água, respiram fundo e entram de cabeça erguida e ombros direitos. Aumenta a tensão.

Ouvem-se as primeiras batidas da música latina. É um cha cha cha, o mais conhecido do público em geral: El unico fruto del amor es la banana, es la banana… Passamos de um baile veneziano para os ritmos quentes de Cuba ou Cabo Verde. A pista é dividida, já que em latinas há mais pares a competir. “Juventude Iniciados: pista 1”, chama o apresentador. Os pares alinham-se por ordem de números. Elas ajeitam os vestidos, eles os laços. “Pares 303, 304, 308, 310, 312, 319 e 320”. Os pares apresentam-se e são aplaudidos. “Pista 2: Adultos Iniciados. Pares 434, 440, 441, 444, 454, 467 e 468.” O par 444 é o André e a Joana. “Samba!” Todos entram no ritmo, todos tentam libertar energias, trabalho, tensões e ambições. Vê-se uma mancha de cor que se movimenta. Ouvem-se gritos de apoio e é chamado o segundo grupo. Os júris dispõem-se à volta da pista, de grelha de avaliação na mão. E avaliam.

Avaliam o flectir e estender dos joelhos no samba, de modo a criar movimento de anca; a extensão dos tornozelos e o apontar dos dedos do pé que não tem o peso do corpo, de modo a realçar a linha de uma figura. No fundo, avaliam a postura, ritmo, linhas, sincronia, presença, energia, apresentação. Na teoria, pelo menos, deveria ser assim. Isto porque os factores que cada júri valoriza na performance de um par raramente são consensuais e podem variar segundo a influência de diversos factores exteriores. Ana sabe que “os júris muitas vezes juram pessoas, não dançarinos.” Acredita que não se pode andar em competição dependente de classificações. O par, Vasco, explica que há muitos interesses: “Os júris são professores, juram muitas vezes os próprios alunos e favorecem-nos. Juram muito pelo que conhecem dos alunos nas aulas quando a prestação no campeonato pode ser completamente diferente.” Assim, para um par conquistar um lugar numa final ocupada sistematicamente por um outro, não terá que ser apenas melhor do que ele. Terá que ser escandalosamente melhor.

Entretanto, os pares confirmam se passaram ou não à fase seguinte. A Sara e o Manuel, que têm tido lugar marcado na final, ficaram de fora. Enquanto despe o vestido que não usará mais hoje, diz que se sente desiludida e desmotivada. “Custa não passar quando ouvimos que merecemos estar na final.”

Importa questionar: como é que se traduzem horas de treino num minuto e meio de dança? Façamos as contas. Se pensarmos em quinze ou mais pares em simultâneo, como tem acontecido em competições nacionais, e tendo em conta o pouco tempo de cada dança, concluímos que cada júri dispõe de seis segundos para avaliar cada par. Às vezes basta um erro para não voltarem a ser alvo de atenção.

Na rumba, dois pares chocam. Um pára, o outro mantêm-se firme e confiante. “Em pista, é muito importante protegeres o teu espaço e, se conseguires não bater em ninguém, demonstras que és melhor dançarino”, explica Vasco. Há uma constante adaptação face aos imprevistos que vão surgindo.

Os dançarinos saem da pista cansados, relaxados ou frustrados. Corra melhor ou pior, a vontade é sempre de fazer melhor. Neste pavilhão já passaram os ritmos quentes do samba, cha cha cha e rumba. Chegou a vez do paso doble. É uma coreografia agressiva: o homem é o toureiro, a mulher a capa. E acabamos com o último escalão a dançar um jive enérgico, lembrando jitterbug ou o twist da década de cinquenta.

Para além da distinção de nível, os dançarinos dividem-se por idades. Na plateia, alguns familiares comentam curiosos como se consegue pôr “pequeninos tão pequeninos” a dançar assim. São pequeninos mas têm a garra de quem sabe que há uma taça para levar para casa. Alguns demasiado pressionados pelos pais, outros que levam o desporto na descontracção.

Mas agora vão todos descansar. É a hora de jantar. Lá fora há um parque de merendas: sardinhas assadas, entrecosto e caldo verde para quem não tiver o estômago demasiado contorcido pela ansiedade. Alguns preferem não abandonar o pavilhão e as dançarinas trazem espelhos para as bancadas: é preciso dar os últimos retoques na maquilhagem.

A Joana pergunta ao pai se reparou nalgum adversário em especial. Em casa, guarda as sabrinas do ballet. Trocou-o também pela dança. As diferenças são visíveis “No ballet trabalhava por mim e para mim.” Aqui, para o bem e para o mal, dois são um.

“Que se prepare Juventude Open!” As finais, reservadas para a noite, vão começar. Há um jogo de luzes que confere ao pavilhão um ambiente de espectáculo.

O primeiro par benze-se antes de entrar em pista. Outros fazem os últimos aquecimentos, os últimos alongamentos. Voltamos às clássicas. A valsa que poderia ser a de Amélie. Um Slow Fox muito ao estilo de um New York, New York de Frank Sinatra. Assistimos agora ao ritmo alucinante do Quick Step e ninguém se admiraria se na pista entrasse a mítica Máscara Verde, contorcendo todo o seu corpo, deslocando-se a uma velocidade impressionante e dançando como Fred Astaire, Gumby e Baryshnikov. Atrás viria a bela Tina Carlyle num vestido justo e vermelho. Perdemo‑nos na imaginação e já dançam um tango. Europeu, não argentino. É uma melodia trágica de Julio Bocca, uma dança que desperta o fatalismo.

Voltamos aos ritmos latinos e quentes. O vestido comprido é substituído pelas pernas descobertas. António Lobo Antunes defendeu que “a sensualidade é o intervalo entre a luva e o começo da manga.” Por aqui assistem-se a diferentes conceitos de sensualidade, desde a discreta, que estimula a imaginação, até à provocação despida de preconceitos. Na pista há mulheres enigmáticas e homens viris e quase que somos transportados para a época dourada do cinema, a época da magnitude, da exuberância e da irreverência. Por aqui poder-se-ia encontrar uma Sophia Loren ou uma Rita Hayworth. Há cortes de cabelo que imitam a Louise Brooks. Vê-se o sorriso sedutor de um Marcello Mastroianni. O cabelo puxado para trás com gel de um Gary Cooper. Ou a sobrancelha arqueada de Robert Mitchum.

Há glamour e os vestidos cintilam. E quanto custa este brilho? Ana fala‑nos da sua experiência. “Gasto, em média, um pacote de pedras brilhantes Swarovsky por vestido. 1440 brilhantes, 10 grosas. Cada pacote custa 90 euros. Já fiz à volta de 15 vestidos. E cada vestido custa, em média, 500 euros.” Exagero? Nada comparado com as dançarinas que fazem um vestido por competição. “Há muitas mães de miúdas de doze ou treze anos que vão às costureiras de danças de salão e gastam 1500 ou 2000 euros. E os sapatos custam perto de 100 euros. Aulas com professores estrangeiros? Acima dos 75 euros por 45 minutos.” É, efectivamente, um desporto de luxo. Entretanto, os Séniores pisam a pista, dançarinos com mais de trinta e cinco anos que alimentam a jovialidade.

Por aqui também se vendem vestidos usados e tecidos especias: de chita, de leopardo, com magnólias, acetinado. Mas não é hora para se explorar os stands. Carlos Custódio e Elena Plescenco, actuais campeões nacionais no escalão máximo, Adultos Internacionais, preparam-se para entrar em pista. A plateia já canta a música que conhece pelos acordes. Depois deste escalão, entregam-se as taças. E o Tiago vai levar uma para casa, como ambicionou.

Vêm de Espanha, do Algarve, de Lisboa, da Beira Interior ou do Douro Litoral. Por muito longa que seja a viagem, estes atletas federados têm uma certeza: em breve encontramo-nos de novo numa pista de dança.

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2 comentários so far
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Descreves tão bem o ambiente, parece que estou lá a ver :) E nota-se que tens uma grande cultura geral na música e no cinema :D Boa Marta!

Comentar por Danny

É um mundo peculiar, mágico, por vezes estranho. Sem se estar por dentro, não é fácil de entender, mas fácil de apreciar o seu lado exterior e público. Conseguiste um interessante retrato que balança entre o público e o privado, sem ser demasiado invasivo e com o equilíbrio necessário entre o distanciamento e o conhecimento. Que só um boa escritora ex-dançarina poderia conseguir : )

Comentar por Ana




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