Umumbigo


tecer, fiar, bordar
Março 13, 2010, 10:54 pm
Filed under: livros, Uncategorized | Etiquetas:

“Gostaríamos de saber, em crianças não temos coragem — em miúda, abria os olhos e os ouvidos, mas nunca perguntei nada —, deixamo-los envelhecer sem nos dizer, esquecer, perder o tino, morrer, e a história deles deixa de ter testemunhas, a sua história de amor deixa de ter historiógrafo, resta apenas bordar, ser  o rapsodo de farrapos e de pedaços, resta apenas fazer como a minha bisavó — era costureira: unir os tecidos, os têxteis, os textos, coser bocados desirmanados de sonhos e de panos, de panos de que são feitos os sonhos. Ignoramos se conseguiriam usá-las, a essas roupas que fabricamos em memória deles fazendo fé em fotografias esmaecidas e relatos soltos. Não se sentiriam um pouco apertados? Já não nos lembramos bem das suas medidas nem do seu tamanho, talvez não tenhamos a medida exacta da sua vida, dos seus amores, mas é assim , só resta tecer, fiar, bordar — claro, claro que não é o texto de origem, não são peças históricas, não estávamos lá, não se consegue reconstituir fielmente a história do amor, é somente uma história de amor, histórias de amor, borda-se, inventa-se, entremeamos as deles e as nossas, não se é fiel — mas que importância é que isso tem? — como dizia a minha bisavó quando lhe fazíamos um relato demasiado longo cujas peripécias se coadunavam mal com a sua própria vivência: isso é romance.”

O amor, romace, Camille Laurens

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