Umumbigo


Maria Magola
Março 19, 2010, 10:01 pm
Filed under: pessoas | Etiquetas:

Maria Magola, a louca. O povo reza que fugiam dela como o Diabo foge da cruz. Não se metam com a mulher doida. Louca, louca. Entrava na Igreja e todos sabiam: “Lá vem a Magola.” Os miúdos encostam-se às pernas altas dos pais, alguns agarram um folho das saias maternas, compridas e engomadas. Ouvem a porta bater com força violenta, os passos rápidos e agressivos dirigidos até ao padre. Tudo num segundo, entre um “ah” de exclamação: “Lá vem a Magola.” Os acólitos não têm tempo de reagir, os fiéis não se irão meter. Magola vai depressa, uma rajada de pó e fúria. O padre lá está, prega(n)do no altar. Absorvido pelo ouro e púrpura e olhares mártires dos santos. E Magola já lá está também: tudo se passou num bocejo ou suspiro: duas estaladas fortes nas faces rosadas do pároco, algum murmúrio e lá vai Magola, já fez o que tinha que ser feito. É louca, que havemos de fazer? A missa continua. Os olhares mártires continuam aqui, ainda não tomámos a hóstia e o miúdo hoje vai tentar que nada se cole ao céu da boca.  Tomai todos e comei. “Pára quietinho com a língua”, diz-lhe a mãe, afinal sempre colou.

Diziam-na uma velha “vulgar” até chegar o ataque de loucura. Seja o que se entenda por vulgaridade, partilhava a casa consigo mesma. Maria Magola que era também Maria sozinha. Tinha alturas em que não era temida, apenas mais uma vizinha e mais dois pés que percorrem os caminhos de ervas daninhas, tempos de tranquilidade. Siga a missa, “o céu está limpo.” Até Magola começar a correr pelas ruas, descalça e desvairada, talvez mais costumeira do que sempre. Vai ela de vassoura, que vais fazer? Ou na bicicleta, com o penico atado ao assento, uma colher de pau para as eventualidades. Quais? E os miúdos já estão a fugir, já correm aos quintais e avisam os pais e avós. “A Magola anda aí.” Sussurros compreendidos entre gerações, lá vai a louca. A correr a aldeia, a distribuir bofetadas. Entrou agora mesmo na mercearia e já não há tempo para fugir ou para pegar numa lata de conserva. Todos recebem a estalada furiosa, é precisa uma força bruta para segurar a mulher. E nem alguns homens apelidados de “valentes” se atrevem. Dois braços não chegam, não chegam. Quatro, talvez seis, quantos mais melhores, anda aqui Alcides, corre que a Magola vem aí.  E se era internada em Coimbra, fugia e voltava pela berma da estrada, percorria quilómetros a pé, sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam.

Maria Magola tinha outra obsessão, esta vida não são só bofetadas. É que ela gostava de um menino. “És bonito como uma estrela, um dia hei-de atirar-te ao poço.” Chegou a conseguir agarrá-lo e correr uns palmos de terra batida com o loiro debaixo do braço. Mas, como sabemos, as estrelas não se afogam nos poços. E ainda havia quem ousasse dominar Magola, a louca doida de loucura.

Magola viveu na aldeia e a aldeia viveu em Magola. Cruzaram vidas, fúria e medo. Ela lá teria os seus motivos, a aldeia nunca acordou para ouvir. Porque na loucura há muita sanidade. E na sanidade há, irremediavelmente, loucura.

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5 comentários so far
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«Porque na loucura há muita sanidade. E na sanidade há, irremediavelmente, loucura.» Linda frase :)

Comentar por Danny

MUITO BOM, ORIGINAL E ILUSTRADO; DARIA UMA BELA PINTURA DE “UMA LOUCA DOIDA DE LOUCURA”………”AS ESTRELAS NÃO SE AFOGAM NO POÇO”
PARABÉNS
ALEX EVAN DOVAS

Comentar por alexevandovas

Tão ténue a linha entre a loucura e a sanidade.
Muitos parabéns, texto muito bom.

Comentar por Ana

Grande texto, Maria Magola pode dar um livro!

Comentar por Pedro

Sem dúvida uma história que merecia ser contada. Sempre me fascinou esta personagem e o que dela contavam. Parece que teve o mesmo efeito em ti quando ouviste o que dela disseram. Maria Magola. Deves ter sido a primeira pessoa a digitalizar o seu nome.

Comentar por Ricardo Pais de Oliveira




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