Umumbigo


Segunda maré
Julho 19, 2010, 5:50 pm
Filed under: concertos e festividades | Etiquetas: , ,

O sol ainda queima e os corpos que por aqui se passeiam são vagarosos e contempladores, transpirando a essência do Verão. São 17h e as portas abrem-se para o segundo dia do festival que promete agitar o Douro. O recinto ainda é um espaço quase deserto, mas esperam-se milhares de espíritos ansiosos pelo ritmo de Placebo, cabeça de cartaz. Para já, celebram-se grupos musicais portugueses. E os primeiros a pisar o palco TMN Moche, já atrasados, são André Indiana e Mónica Ferraz. Dão voz ao projecto The Love Tour e uma tenda ainda a aquecer recebe o rock com influências de blues e funk. André Indiana, designado pelos fãs como o Lenny Kravitz português, despede-se com humor depois de Busted, designando-se como sendo José Sócrates. Já se espera a entrada dos Azeitonas e, se perguntado entre o público qual a música mais ansiada, a resposta é inconfundivelmente coincidente: “Anda Comigo Ver os Aviões.” Então vamos. Porque no palco já se ouve uma espécie de apresentação circence. “E agora, sem mais delongas, vai começar a revolução!” Dança‑se ao som de Salão América, Café Hollywood e salta-se na introdução instrumental do êxito Quem És Tu Miúda, com a batida de Eye of The Tiger e os acordes de Seven Nation Army. A moldura humana vai crescendo para ouvir aqueles que vêm do outro lado do rio. Mas, na outra ponta do recinto, são muitos os que já guardavam antecipadamente o melhor lugar junto às grades. Os Azeitonas dividem atenções com os britânicos A Silent Film, a abrir o palco principal. Trazem o disco de estreia “The City That Sleeps” e, ainda, dois temas novos. O reconhecimento do público é notório. E Robert Stevenson (voz/piano) declara serem uns sortudos por tocarem naquele momento, cativados pelo sol que quase toca o rio. A luz do dia vai sendo, lenta e ociosamente, substituídos por tecto com poucas estrelas. You Will Leave a Mark fecha a actuação.

Enquanto muitos exploram as animações habituais dos festivais e ganham os brindes dos patrocinadores, como os chapéus e lenços do costume, outros relaxam no chão, deitados entre os tons das árvores e abarcando o rio que corre. “Finos” sempre a sair. Cachorros, hambúrgueres ou farturas consoante os gostos, há que recarregar energias antes de David Fonseca. E, assim, ouvem-se os acordes de I Want to Break Free, dos Queen. O público, distraído com o tema, quase não se apercebe da entrada discreta de David. O artista português arranca com “Walk Away When You’re Winning” e a agitação dos fãs explode. Não falta a construção cénica habitual nos concertos de David Fonseca: todo um aparato de ecrãs LED coloridos, uma das típicas cabines telefónicas vermelhas e projecções de ambiente citadino. Do outro lado do rio, também o Porto acolhe a bulia da cidade, luzes de néon e faróis de carros. Mas, aqui, a vida parou, num chão de terra batida, para viver a música. “Boa noite Marés Vivas!”

O repertório de David Fonseca englobou quatro discos, sendo o mais recente “Between Waves”. O músico a confirmar, mais uma vez, o reconhecimento do sólido percurso a solo depois de Silence 4. Dentro da cabine telefónica, David canta a primeira cover: Everybody’s Got to Learn Sometime, dos The Korgis. Seguem-se o hit A Cry 4 Love, Kiss Me Oh Kiss Me e, em Someone That Cannot Love, no público entoa-se a letra bem sabida e os apaixonados unem mãos e corpos. Recordamos, agora, 1998: “The roof is on fire!” Pés que saltam e braços no ar que aguardam Stop 4 a Minute e Superstars. Dedicada a todas as mulheres, David presenteou com Girls Just Wanna Have Fun e um voar de confetis. Trocada a roupa no instrumental Sabotage (Beastie Boys), veste o perfil de “’boxeur”. Não faltou holofote na mão nem fogo de artifício, a fechar com o electro e techno de This Rage Lightning e Silent Void um concerto festivo. E, junto à praia do Cabedelo, a euforia ainda vai a meio.

Os tão aguardados Placebo conseguem uma enchente notável na 8º edição do Festival Marés Vivas e o espaço está praticamente lotado. O novo álbum, Battle for the Sun, está marcadamente presente na actuação dos Placebo. Mas a banda não esquece o sucesso “Nancy Boy”, revendo o passado. Há Breathe Underwater, Meds, Every You Every Me, The Bitter End, Special Needs ou Song To Say Goodbye. Mas ainda não é tempo de despedia. O público está ao rubro e a cover de All Apologies, dos Nirvana, consegue ainda mais assobios, palmas e máquinas fotográficas sempre a disparar e a captar momentos de forte componente visual. Tendo a banda saído do palco, os festivaleiros assobiam e pedem mais. Bryan Molko satisfaz o pedido no encore: Infra-Red e, do álbum Black Market Music, Taste In Men a encerrar um concerto com público heterogéneo, de várias idades, partilhando o gosto por Placebo. Acotovelando-se para sair, são muitos os que se despedem do recinto, não antecipando a surpresa da noite.

Peaches. 1h40 e os próximos momentos são dedicados à irreverente, excêntrica e incendiária artista canadiana, uma referência no electroclash. Caracterizada por explosões de garra e energia, o 2º dia culmina com um concerto que cativou todo o público. Atraindo cada vez mais e dissipando qualquer dúvida, Peaches agarra o público e desenvolve uma interacção muito forte. Como um camaleão, Merrill Beth Niske foi despedindo o fato que a tapava dos pés à cabeça, no início do concerto, a abrir com Mud. Homens com enormes perucas não faltam em palco no Talk to Me que se segue. Imprevisível, Peaches usa uma espada fluorescente, derrama champanhe na plateia, enrola-se numa toalha de banho, fingindo estar nua e, com Show Stopper, lança novos desafios: “Jesus walked on water, Peaches walks on you!”  E assim foi. Peaches caminhou nas mãos do público e avisou que, se caísse, o concerto terminaria. Mas os festivaleiros não desiludem e tudo culmina em crowdsurfing. O público dança, segue a provocação de Peaches e a constante alusão a temas sexuais e agita-se ao som de Billionaire, Take You On, Serpentine, Shake Yer Dix ou Set it Off. Outro desafio: Se aceitarem o pedido, Peaches elegerá o público “muito mais hardcore” do que o do Alive. Com o grito “Shirts off!”, Peaches deixa o palco e centenas de t-shirts continuam o espectáculo, levantadas no ar. Um concerto onda parar não foi permitido.

Na tenda TMN Moche, a animação para os resistentes de uma noite recheada esteve a cargo do Gare e dos DJs Cais 447. Tratou-se, efectivamente, de um dia de enchente. De acordo com números da organização do evento, estiveram no recinto cerca de 24 mil pessoas, depois de 16 mil passarem pelo primeiro dia do festival. Um rio que passa e deixa a brisa no ar e um mar de gente pronto a viver e sentir música, pessoas, sabores e cheiros, Verão.

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1 Comentário so far
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Parece que estive lá… ; )

Comentar por Ana Oliveira




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