Umumbigo


a lo mejor
Outubro 8, 2010, 2:36 pm
Filed under: Madrid | Etiquetas:

Tudo se tem traduzido a um “a lo mejor”. Quando a ouvi pela primeira vez, quando a escrevi letra a letra no pequeno caderno das “clases de español” com o sempre enérgico José Luís (aqui, os professores tratam-se pelo nome), gostei da expressão. Primeiro, traduzi à letra para algo como: pelo melhor! “A lo mejor” trata-se de uma probabilidade: talvez, maybe, peut-être. E, por aqui, tudo tem sido um talvez. Para os organizados e metódicos, os primeiros tempos Erasmus são um inaudito caos que agita e revira e volta a agitar e revirar. Um delicioso pontapé em tudo o que é certo, seguro, recto. Aqui, chega-se sem casa, sem família e amigos (presenciais), sem língua-mãe. Adaptam-se costumes portugueses, entra-se na la movida madrileña. E fazem-se novas famílias de amigos, daqui, de outro país, do nosso país, do outro canto do mundo, do outro lado do oceano. Fala-se inglês, aperfeiçoa-se dia a dia o espanhol, aprendem-se apresentações noutros dialectos. Tudo alimentado por sorte ou coincidência, tudo determinado pelas escolhas diárias e pelas circunstâncias que se proporcionam. Adepta do livre arbítrio, poderá haver a sensação angustiante quando penso: E se? E se não vivesse  na Calle de Toledo, e se tivesse conhecido outras pessoas, e se não escolhesse esta cadeira, e se tivesse ido a outro bar de tapas, e se tivesse apanhado o metro anterior. “A lo me jor”, “a lo mejor”. Tudo entre uma ténue linha do porque sim, porque não. Mas são todas as inúmeras e incontáveis possibilidades que tornam tudo tão aliciante. Adoptem-se opções. Podia ser outra, ou a outra, mas é esta. E defendo-a com garra e a certeza de tudo estar a contribuir para que cresça, amadureça, viva algo diferente do que experienciei até hoje. Desde folhas e folhas riscadas com dezenas de tentativas de horários (em Portugal, entregam-me um definitivo: já está, será assim.) Aqui, escolho as cadeiras, os professores, embrenho-me em planos de estudo inúteis ou incrivelmente interessantes, assisto a aulas pelo capricho de nunca poder ter no meu plano de estudos português, por exemplo, Empresa Cinematográfica. Vou a asignaturas onde nem os espanhóis conseguem compreender os professores, um eco pastoso de uma língua que me parece absurdamente incompreensível. Noutras, entendo palavra por palavra, qué bien, casi mi siento española (espanhola a 100% só se adoptasse as pulseiras da Sara Carbonero que vivem em todos os pulsos de uma faixa etária de chicas que usam penteados exuberantes, maquilhagem intensa e pernas quase sempre visíveis). No fim, terei que ter os créditos certos e as equivalências correctas, algo que, agora, parece uma cruzada. E encontro a Joana, também portuguesa, embrenhada num papel riscado com mil e uma opções. “Andamos todos aos papéis, não é?” È, e penso que até deste absurdo estado de não ter rigorosamente nada definido terei saudades. Assim como tenho de Portugal, das pessoas essenciais, do mar, de caminhar por São Bento, das janelas brilhantes de luz.

Vou conhecendo outros que também ousaram largar tudo o que é seguro e estável. E rimos, conversamos, divertimo-nos. (Alguns regressaram aos seus países , dizem não se ter adaptado.) Vou cruzando as ruas de Madrid e ouvindo a minha nova compilação de música espanhola (Jarabe de Palo a dominar o top mais ouvidas), vou ao Día e subo com as compras (não antes de olhar uma última vez a imponente igreja que vive defronte do prédio, já a sei de cor), entro na cozinha onde a Sara, a Lizzy e as duas italianas cantam. Ouço uma música comercial em modo repeat vinda do quarto da Amaranta e vejo a namorado do Danny (loira, altíssima e ainda sempre de saltos altos) que passa.  Tudo sempre a voar, frenético, mas o efémero é, também, marcante. Vou agora regressar às aulas, depois dar as boas vindas à Rita (que vai estagiar num museu e viver no nosso prédio), amanhã parto para as míticas Fiestas del Pilar, em Zaragoza. E, por agora, estas são as certezas para um futuro próximo. Outra certeza? Madrid inspira.

p.s –  Foi um feito escrever este texto num teclado espanhol onde tenho que realizar comandos (Alt Gr + 4) para ter o útil til.

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2 comentários so far
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Jornalista e bastaa. Me gusta.

Comentar por Sara

Tem piada… Quando aqui cheguei, as pessoas estavam sempre a fazer piadas a propósito de “maybe?”, e depois explicaram-me que a palavra de erasmus é mesmo essa: maybe. Maybe, a lo mejor, por todo o mundo!

Comentar por Beky




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