Umumbigo


shiva
Março 27, 2012, 12:10 am
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om namah shivay



fumo
Março 21, 2012, 11:57 pm
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Ribbons around the fumes, we’ll be sleeping soon
Ribbons around the fumes, we’ll be sleeping soon



luz branca
Março 15, 2012, 11:03 pm
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V

Tudo era luz branca. O céu era  água-vida, líquida como a vontade de ser. Mariana saiu à rua com Lucília pela mão. A criança tropeçava nos passos pequeninos e ria-se das pedras tortas da calçada. Havia pouco movimento, o dia despertava com vagar. Chegaram à porta da casa de João Piedade. Lucília bateu uma vez, esperou, bateu duas vezes. João veio à janela, ainda com restos de sonho nos olhos. Olhou demoradamente os cabelos feitos caracóis pequeninos de Lucília. As gotas de água brilhavam na manhã. Desceu à porta e abriu:

– Não é tua filha.

Mariana disse-o com todas as letras, acentuando sílabas e dissecando as palavras. Enquanto desviava o olhar da barba por fazer e voltava costas à casa de pedra, murmurou uma canção de embalar acima da cabeça de Lucília. Mais adiante, pegou na criança e disse-lhe: és filha das nuvens.

O fundo do poço clareava com a luz que cegava. Lucília ria-se da manhã.



na terra
Março 11, 2012, 1:06 pm
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IV

Por entre a neblina da manhã, Petrúcio voltava a casa. Maria estava já na cozinha, não se olhavam, seguia direto para o quarto. Lucília corria por entre as pernas de Mariana, avô!, abraçava a barriga na cama e ficava a sentir a inspiração, expiração, acima, abaixo, de onde vens?, até o primeiro roncar do homem. Adormecia embalada até Maria a arrancar por uma orelha dos lençóis já quentes.

– Está sol lá fora.

Estava sol lá fora. Lucília sentava-se, quieta e pensativa, enquanto amadurecia ideias na terra quente. Girava sobre si mesma com exatidão e agarrava partículas suspensas, embriagada de luz. Voltou a casa e agarrou numa maçã, tocou na cortina, por entre linhas de costura  perguntou à avó: As cerejas crescem dos cabelos?

O silêncio abatia-se na casa nas manhãs em que Petrúcio dormia. Lucília aceitava e voltava para o ar lá de fora, em que a sombra cheirava a tília, acenando a quem passava para o café da aldeia.

A morte cansa, ouviu uma mulher dizer ao homem de luto.

Correu para dentro de portas e perguntou à mãe de relance: A morte cansa? A avó respondeu: Está sol lá fora, vai correr. Não sujes a saia de terra.

Silêncio.



oh mother of pearl
Março 9, 2012, 10:54 pm
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I wouldn’t change you for the whole world


	
	

e desmaiou
Março 6, 2012, 10:29 pm
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III

E então Mariana soube que estava grávida. Não se lembra se era segunda-feira, quinta, talvez domingo, sabe que era meio-dia, descascava feijões e sentiu um pontapé. Todos viam que estava mais redonda, mas as mulheres inchavam de tempos em tempos, queria acreditar. Andava com enjoos e prometia comer menos figos e uvas. Beber menos vinho. Nesse dia que não sabe qual foi, talvez era terça, seria terça de abril?, com o sol a pino, as janelas fechadas e o vento que atirava poeira nos lençóis estendidos, sentiu um pontapé forte. Pôs a mãos à cabeça e desmaiou.

Ao vê-la estendida no chão, entre cascas e sementes, Maria sentou-se na cadeira do canto. Viu a faca com que Mariana atacava os legumes sobre o peito, com a ponta quase a tocar o pescoço. Sentiu pena e alegria. Chamar-se-ia Lucília.

Lá fora, crianças atiravam ao céu. Riam enquanto corriam, diziam olá pela janela a Maria, debruçada agora sobre o parapeito e com os pés quase a tocar o cabelo loiro de Mariana, uma nuvem de pensamentos. Tiro infantil. A rola caiu torta, aleijada, viva. Dorida. Mariana abriu um olho, viu a mãe lá em cima, fechou-o novamente. Maria pousou os olhos lentamente na barriga, tirou a faca do peito deitado com movimentos leves, lavou-a  com água fria e levou serenamente a cesta de feijões para a soleira da porta, gritando para que as crianças atirassem à rola com olho certeiro. Vinha aí chuva e o sol enfraquecia, coberto por uma manta de retalhos.

Mariana deixou-se estendida no chão frio, calcanhares a tocarem-se, pôs as mãos na barriga e pensou como a iria fazer encolher de novo. Não deveria ser muito difícil, também matava galinhas.



das pedras da calçada
Março 4, 2012, 8:15 pm
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II

Maria ensinou a Lucília a arte da paciência. Não era resignação, não era o encolher de ombros ou mesmo a aceitação do destino já escrito nas estrelas que, lá muito acima das nossas cabeças terrenas, fixam despreocupadamente lágrimas e prazeres. Desde que Lucília agarrou pela primeira vez o dedo indicador esquerdo de Maria, enquanto as cortinas esvoaçavam e havia sol lá fora e um vento invasivo que bateu com a porta de casa, Maria pensou que a ligação estava já escrita no céu lá em cima, muito alto, que tinha um papel importante no que viria a ser Lucília, que a vida nem sempre corria livre e fácil mas que poderia ter rasgos intensos de alegria, que azul-petróleo era uma cor bonita e começaria a coser vestidos para as idades vindouras, que Lucília teria que aprender a ser paciente e, enfim, mover mundos aparentando a serenidade do mar que se vê de longe.

Lucília cresceu serena. Aprendeu a amaciar olhares e interiores revoltos, interiorizou a arte da respiração controlada para limar impaciências, extinguiu vestígios de rubores e tremores com mestria. Lucília amadureceu corpo e pensamento e guardou sempre o ensinamento de Maria: a paciência traz a recompensa do céu.

Lucília desenvolveu então uma atração íntima pelas nuvens, pelo negro noturno, pela claridade da manhã. Maria acenava afirmativamente enquanto a menina quase mulher, de pescoço atirado para trás ou deitada no jardim, questionava o rumo que tudo ia tomando. Era a impaciência que ainda deveria atenuar, pacificando: pensar o azul intenso, branco de neblina, cinzento molhado e cores da terra quente e preto envolvente que vivia acima da sua trança. Conversava com o céu e sabia que possivelmente seria uma Lucília privilegiada, alvo de uma atenção que fugia ao padrão. Gostava da exclusividade de se saber  conhecedora do espaço infinito. Trazia de novo o pescoço inclinado, dava uma volta lenta à cabeça antes de prosseguir e voltava à rotina dos dias confiante.

Pelas pedras da calçada da rua diante do jardim de Lucília, pernas femininas esforçavam-se por manter um andar balanceado, equilibrado e ritmado. As pernas femininas ainda solteiras e sem varizes, aos pares, treinavam movimentos a serem aperfeiçoados defronte do café da aldeia, ao fundo da rua. À porta, homens e jovens bebiam e conversavam, jogavam e queimavam a pele num sol violento. Viam as pernas e as ancas e apreciavam. Viam a serenidade de Lucília e pensavam: pode uma mulher ser segura de si como um homem quando bebe? Rapidamente desviavam olhares e procuravam outras pernas que namoravam as pedras da calçada, excluindo as toscas, excluindo os passos seguros, apostando nos membros esguios e previsíveis.