Umumbigo


das pedras da calçada
Março 4, 2012, 8:15 pm
Filed under: nostalgias

II

Maria ensinou a Lucília a arte da paciência. Não era resignação, não era o encolher de ombros ou mesmo a aceitação do destino já escrito nas estrelas que, lá muito acima das nossas cabeças terrenas, fixam despreocupadamente lágrimas e prazeres. Desde que Lucília agarrou pela primeira vez o dedo indicador esquerdo de Maria, enquanto as cortinas esvoaçavam e havia sol lá fora e um vento invasivo que bateu com a porta de casa, Maria pensou que a ligação estava já escrita no céu lá em cima, muito alto, que tinha um papel importante no que viria a ser Lucília, que a vida nem sempre corria livre e fácil mas que poderia ter rasgos intensos de alegria, que azul-petróleo era uma cor bonita e começaria a coser vestidos para as idades vindouras, que Lucília teria que aprender a ser paciente e, enfim, mover mundos aparentando a serenidade do mar que se vê de longe.

Lucília cresceu serena. Aprendeu a amaciar olhares e interiores revoltos, interiorizou a arte da respiração controlada para limar impaciências, extinguiu vestígios de rubores e tremores com mestria. Lucília amadureceu corpo e pensamento e guardou sempre o ensinamento de Maria: a paciência traz a recompensa do céu.

Lucília desenvolveu então uma atração íntima pelas nuvens, pelo negro noturno, pela claridade da manhã. Maria acenava afirmativamente enquanto a menina quase mulher, de pescoço atirado para trás ou deitada no jardim, questionava o rumo que tudo ia tomando. Era a impaciência que ainda deveria atenuar, pacificando: pensar o azul intenso, branco de neblina, cinzento molhado e cores da terra quente e preto envolvente que vivia acima da sua trança. Conversava com o céu e sabia que possivelmente seria uma Lucília privilegiada, alvo de uma atenção que fugia ao padrão. Gostava da exclusividade de se saber  conhecedora do espaço infinito. Trazia de novo o pescoço inclinado, dava uma volta lenta à cabeça antes de prosseguir e voltava à rotina dos dias confiante.

Pelas pedras da calçada da rua diante do jardim de Lucília, pernas femininas esforçavam-se por manter um andar balanceado, equilibrado e ritmado. As pernas femininas ainda solteiras e sem varizes, aos pares, treinavam movimentos a serem aperfeiçoados defronte do café da aldeia, ao fundo da rua. À porta, homens e jovens bebiam e conversavam, jogavam e queimavam a pele num sol violento. Viam as pernas e as ancas e apreciavam. Viam a serenidade de Lucília e pensavam: pode uma mulher ser segura de si como um homem quando bebe? Rapidamente desviavam olhares e procuravam outras pernas que namoravam as pedras da calçada, excluindo as toscas, excluindo os passos seguros, apostando nos membros esguios e previsíveis.

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