Umumbigo


na terra
Março 11, 2012, 1:06 pm
Filed under: nostalgias

IV

Por entre a neblina da manhã, Petrúcio voltava a casa. Maria estava já na cozinha, não se olhavam, seguia direto para o quarto. Lucília corria por entre as pernas de Mariana, avô!, abraçava a barriga na cama e ficava a sentir a inspiração, expiração, acima, abaixo, de onde vens?, até o primeiro roncar do homem. Adormecia embalada até Maria a arrancar por uma orelha dos lençóis já quentes.

– Está sol lá fora.

Estava sol lá fora. Lucília sentava-se, quieta e pensativa, enquanto amadurecia ideias na terra quente. Girava sobre si mesma com exatidão e agarrava partículas suspensas, embriagada de luz. Voltou a casa e agarrou numa maçã, tocou na cortina, por entre linhas de costura  perguntou à avó: As cerejas crescem dos cabelos?

O silêncio abatia-se na casa nas manhãs em que Petrúcio dormia. Lucília aceitava e voltava para o ar lá de fora, em que a sombra cheirava a tília, acenando a quem passava para o café da aldeia.

A morte cansa, ouviu uma mulher dizer ao homem de luto.

Correu para dentro de portas e perguntou à mãe de relance: A morte cansa? A avó respondeu: Está sol lá fora, vai correr. Não sujes a saia de terra.

Silêncio.

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