Umumbigo


luz branca
Março 15, 2012, 11:03 pm
Filed under: nostalgias

V

Tudo era luz branca. O céu era  água-vida, líquida como a vontade de ser. Mariana saiu à rua com Lucília pela mão. A criança tropeçava nos passos pequeninos e ria-se das pedras tortas da calçada. Havia pouco movimento, o dia despertava com vagar. Chegaram à porta da casa de João Piedade. Lucília bateu uma vez, esperou, bateu duas vezes. João veio à janela, ainda com restos de sonho nos olhos. Olhou demoradamente os cabelos feitos caracóis pequeninos de Lucília. As gotas de água brilhavam na manhã. Desceu à porta e abriu:

– Não é tua filha.

Mariana disse-o com todas as letras, acentuando sílabas e dissecando as palavras. Enquanto desviava o olhar da barba por fazer e voltava costas à casa de pedra, murmurou uma canção de embalar acima da cabeça de Lucília. Mais adiante, pegou na criança e disse-lhe: és filha das nuvens.

O fundo do poço clareava com a luz que cegava. Lucília ria-se da manhã.

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