Umumbigo


eco do ego
Abril 29, 2012, 5:06 pm
Filed under: nostalgias

X

O sonho não se fecha, não se fecha, não se fecha. O teto dormia, as paredes descansavam o que haviam segurado todo o dia, a mobília ressonava e transpirava o calor do silêncio. Maria não adormecia e olhava Petrúcio enrolado sobre si mesmo, apaziguador. Quereria saber dormir assim. Quereria saber acordar de um noite serena.

De olhos fechados, começou a fazer listas mentais. As galinhas estavam fechadas, não tinha nada ao lume, tenho? não tenho, a roupa estava dobrada e dentro das gavetas, as filhas cresciam. Então, propondo-se seguir um índice onomástico, pensou uma a uma.

Violeta era ingénua. Nasceu num parto torto e cresceu, consequentemente, em desvio. Um dia calçou doze meias num pé, chorando e rindo intervaladamente. Com gestos sofrivelmente pacíficos, Maria retirou-lhe onze meias em jeito maternal e disse: És muito bonita. Violeta tinha agora trinta e três anos e vivia com um rapaz chamado Manuel, seis anos mais novo, que estudava Filosofia e dizia que a sua mulher era a fêmea mais sábia que já conhecera. Pareciam viver felizes e cultivavam rosas em vasos que viviam nos parapeitos das janelas.

Bianca era coxas fortes e unhas compridas. Não queria resolver nem charadas nem a vida no geral. Corria os dias com bastante pressa, de que foges tu? Desdenhava a aldeia e procurava a prima Cassandra como quem procura água para beber. Era esse o caminho da modernidade, em que a paixão consumia a vida e os vestidos eram cintados e a música vibrava e os copos brindavam e havia objetos de metal brilhante e as senhoras pintavam os olhos. Bianca dormia em camas diferentes ao longo da semana, sob os seus vinte anos feitos. Visitava os pais mensalmente e era um desgosto para Maria. Não sabia pregar decentemente um botão numa camisa e, talvez por isso, exibia decotes em bico respeitoso. Petrúcio dizia-lhe: Bianca, vê se encarreiras, filha – enquanto lhe acariciava o cabelo negro e liso. Não tens idade para saber o que é o amor.

Mariana aproximava-se dos vinte e dois anos como quem se aproxima de um abismo. Ligeiramente desgovernada, via agora a barriga a crescer a olhos vistos. Ajudava os pais nos afazeres diários e era uma filha dedicada quando não se escondia no seu poço escuro. Aí, só os dias de sol quente sabiam trazer-lhe de novo a cor às maças do rosto e brilho aos caracóis revoltos que cresciam na sua cabeça complexa.

Guida era a mais nova e vivia entre paredes de um colégio de freiras. Era candura e alegria  de catorze anos e a menina de Petrúcio. Vinha a casa quinzenalmente, aos domingos, e trazia biscoitos de mel cozinhados com as irmãs. Auspiciava-se um futuro respeitável. Maria lembrou-se então que, nessa manhã que daqui a pouco raiaria, teria que pedir a Mariana que escrevesse com letra dedicada no papel branco o que pensara já responder à última carta da filha. Haveria de ser um conjunto de palavras bonitas.

E afinal Maria não havia seguido nenhuma ordem alfabética mas não fazia mal. O sono parecia  chegar e acariciava o lençol para que a madrugada fosse apaziguadora como a noite de Petrúcio, então até já. Maria morreu no último segundo possível antes do sol despontar, agarrando a almofada como quem ultimamente abraça o último eco do ego.

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em espiral
Abril 22, 2012, 3:49 pm
Filed under: nostalgias

IX

De barriga para o ar, sonhou  um pesadelo. A bebé nascia com patas traseiras e cauda exuberante de felino. Os olhos eram iguais aos de Petrúcio.

Maria e  Mariana estavam sentadas na soleira da porta. Uma cabra voava no ar azul, viu pêssegos a subiram do chão e a mãe continuava a seu lado, com os pés ao sol, mas sons simultâneos de tachos ouviam-se na cozinha. Os olhos eram exatamente iguais aos de Petrúcio, castanhos e redondos, incompreensíveis. E se Petrúcio caminhava defronte delas, acenando às árvores, então Maria estaria também a cozinhar. As mulheres podiam multiplicar-se em três, quatro, sete, as mulheres eram guerreiras, eram oito, dez, se necessário, os pêssegos continuavam a subir ao céu, está já o jantar pronto, Maria?, atirou Petrúcio, apanhando a fruta que invertia a gravidade.

Cortou a manhã com a exclamação “oh!”. Mariana suava e pôs as mãos na barriga. Em silêncio durante um par de minutos, acalmou a confusão mental que a assaltava. Sentia-se, ainda, a sonhar. O ar cheirava a azeite fervido e caminhou até ao encontro de Maria. Tomates pilados caiam na panela com regozijo. Depois cebola chorosa às rodelas. A cabra continuava serena em voltas no ar, viu pela janela.

Abriu os olhos com força, enfrentando um ar que lhe pareceu demasiado pesado. Os pés frios tocaram o chão de madeira, caminhou enquanto desfazia a tensão muscular do sonho inacabado em vertigem, espreguiçando-se com nervosismo. Olhou para o espelho e viu o passado que o vidro refletia um segundo antes, cinco meses em espiral. A barriga, aí, era lisa e sentiu vaga tristeza. Pensou que já se habituara à presença silenciosa de Lucília no útero, poderia agora eternizá-la?



um estilo literário
Abril 22, 2012, 3:26 pm
Filed under: de ler | Etiquetas:

“O corpo forma com os movimentos uma massa
e essa massa forma um texto. E esse texto é lido
pelos outros e há livros de que se gosta
e outros não.
No fundo, cada vida, no geral, não é mais
do que um estilo literário.”

Gonçalo M. Tavares



a pera
Abril 15, 2012, 12:25 pm
Filed under: de ler, poesia

Como de cera
E por acaso
Fria no vaso
A entardecer

A pêra é um pomo
Em holocausto
À vida, como
Um seio exausto

Entre bananas
Supervenientes
E maçãs lhanas

Rubras, contentes
A pobre pêra:
Quem manda ser a?

Vinícius de Moraes



cintilante
Abril 15, 2012, 12:18 pm
Filed under: música | Etiquetas:

we rise with the sun



(des)equilíbrio
Abril 15, 2012, 12:08 pm
Filed under: de ler | Etiquetas:

“Será o dia um acontecimento coerente,
com cabeça, tronco e membros, como diz o povo,
com um sentido e uma lógica?
Será o dia uma data, um acontecimento
homogéneo que equilibra a luz que vem do sol
com os actos do corpo?”

Gonçalo M. Tavares



o Gato
Abril 14, 2012, 2:55 pm
Filed under: nostalgias

VIII

Do gato pouco se sabia. Entrou, certo dia, pela janela da cozinha. Aninhou-se debaixo da cadeira do canto. Maria gostou dele, Mariana tentou afastá-lo. Grávida de Lucília, queixava-se que a menina nasceria com pelo no nariz. Cassandra advertira-a para os perigos da intimidade entre mulheres prenhas e animais de rua ou de tetos e Mariana temia. Fora com o gato, chegou a hora. Maria sorria, catando-lhe as últimas pulgas e cantarolando ladainhas em círculos dançantes.

O gato chamava-se Gato. Dormia muito e ronronava quando Petrúcio passava a contemplar o ar. Mariana olhava-o demoradamente. Invejava-o de alguma forma informe que não sabia definir. Percorria-lhe o corpo franzino com olhar minucioso. Parava nos olhos fixos, quase incandescentes. Sabia que ele lhe diria algo importante que não poderia ler ou escrever e crescia em perturbação. Invejava-lhe o andar balanceado e despreocupado, os dias abandonado ao sol, a entrega selvagem com que se encontrava com outros gatos lá fora, a terra nas patas, a língua a experimentar flores vermelhas e  os caninos em forma de punhal nos caules verdes.

Então decidiu segui-lo. Da cozinha à porta, da porta ao portão, do portão à rua que descia para o café. Dessa rua virou à esquerda, da esquerda a um atalho emoldurado por copas sibilantes a vento em redemoinho, daí até ao fim do caminho. E aí, vendo o gato saltar um muro esburacado, pôs as mãos na barriga e pensou que, se não sabia ainda compreender um animal silencioso,  não saberia cuidar Lucília.