Umumbigo


sublime
Abril 7, 2012, 7:42 pm
Filed under: nostalgias

VI

Lucília gostava de transformar caos em cosmos. Ordenava as maças caídas no chão de poeira num círculo perfeito à volta da árvore. Sacudia toalhas e roupa numa repetição de movimentos perfecionistas e dobrava as peças atentamente, entregue a um rigor geométrico. Lia livros como quem devora framboesas silvestres e relia exatamente três vezes frases que lhe despertavam qualquer tipo de interesse. A primeira vez equivalia ao encontro ocasional que se dava em leituras de manhãs frescas e tardes arrastadas, noites negras, outras  raras iluminadas por uma lua gorda. A segunda representava a curiosidade pela ideia e o reconhecimento de que o excerto valia a pena, enquanto amadurecia as palavras na boca. A terceira vez seria a mais bela. Tentava repetir a frase já de cor, apoiando-se na leitura quando lhe fugia alguma exclamação. Sabia então a frase de cabeça e repetia-a mentalmente durante o resto do dia e, talvez, ainda na manhã seguinte. Como se a tivesse escrito, como se naturalmente a ideia tivesse despontado dos seus caracóis. Como se fosse irrevogavelmente sua.

Numa noite, aprendeu a palavra sublime. Sentiu vento e delicadeza, uma suavidade requintada. Imediatamente abraçou sublime e adotou-o em tudo o que era expressão de desejo, dúvida, melancolia e entusiasmo, constatação da ordem do dia e das coisas. A compota de Maria era sublime. A macieira crescia com ar sublime. Mariana caminhava de forma sublime. Sublimes eram as galinhas e a chuva e o entardecer. O escaravelho que brilha com o orvalho era sublime. Saber escrever o que se pensa teria que ser sublime. Petrúcio tinha um olhar sublime mas algo não fez sentido nos seus ouvidos. Disse a Lucília que as palavras também se gastam, que podiam cansar. Que, mal usadas, eram como bolor que cresce no pão, na fruta, no couro. Também  na madeira. Disse-lhe que lia demasiado e que as páginas falavam de tudo mas pouco de vida. Lucília disse-lhe que as páginas não falavam, ao que ouviu que, um dia, aprenderia como o mundo não é um canto sublime. A criança rabiscava num caderno e pousou o lápis com olhar atento sobre o homem, que concluiu: É, no entanto, uma palavra bonita.

Petrúcio veio até ao quintal. Tocou analiticamente as plantas e voltou até ao interior escuro da casa,  percorrendo o corredor. Rodou a maçaneta da porta com toque de lã e olhou a cama. Mariana dormia.  Pensou que o seu nome se iniciava no toque dos lábios, como Maria. Isto teria que ser sublime.

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