Umumbigo


giestas
Junho 30, 2012, 4:25 pm
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XII

Estão nas  janelas as giestas e os grilos não se calam. As casas e os homens protegidos e Mariana nua, na cama, em posição fetal. Petrúcio entra sem aviso e ouvem-se dois gritos: um agudo e feminino de aversão à invasão, outro cavernoso de lamento e incredulidade perante uma barriga que se vê proeminente.

– O que tens aí? – grita o homem, desamparado.

Mariana desliza para dentro do lençol e pede-lhe, serenamente, que feche a porta.

– A mãe está lá fora.

Petrúcio procura Maria entre as bétulas e larícios do pinhal que cresce atrás de casa.  Maria morta.

É isto sublime? – perguntaria a Lucília se não acordasse do sono pesado. Petrúcio veste-se de  luto e pensa recolher as giestas já escurecidas nas janelas, mas deixará que permaneçam até que o vento as arraste.



Bianca
Junho 17, 2012, 9:14 pm
Filed under: nostalgias

XI

Havia tanta estrada. Bianca conduzia depressa e de vidros abertos até ao fim possível. Não se apercebia que o ruído ensurdecia. Suspeitava que haveria compota fresca de amoras como na última vez que visitara a casa, a mãe, o quintal, o pai e as irmãs.

Chegou a um café muito próximo – não o da rua de sua casa, aí os homens eram mais ruidosos e a água servida da torneira-, onde compraria cigarros. Os olhares eram fugidios.

– Lamento muito.

(É um pântano de tristeza. Viscosa, que pega e não larga.) Deram-lhe um abraço constrangido e  enrolaram-lhe o rosário entre os dedos finos de unhas felinas, cor de âmbar.

– Força, eh?

Sorriu e caminhou discreta, como nunca antes, até ao carro. Consequentemente inconsequente, conduziria até gastar todo o combustível,  num descampado a quilómetros de distância de vida humana. Tinha o rosário e, possivelmente, alguns rebuçados de mentol.