Umumbigo


blue train
Setembro 16, 2012, 11:15 pm
Filed under: música
Anúncios


infraleve
Setembro 9, 2012, 11:07 pm
Filed under: de ler | Etiquetas:

“Vílnius e Débora tinham começado a ser uma sociedade que não se dedicava a nada em concreto, talvez porque desejava evitar qualquer possibilidade de fracasso e talvez porque, além disso, fosse uma sociedade que se sentia atraída pelo infraleve, por todas aquelas coisas – pensemos num sabão que escorrega, por exemplo – que são, por um lado, tão indeterminadas e, por outro, tão específicas; são tudo ao mesmo tempo, como a própria vida.

O infraleve era, para eles, o roçar de umas calças ao caminhar, um desenho em vapor de água, um bafo sobre o vidro de uma janela.”

Ar de Dylan, Enrique Vila-Matas



revoluteando
Setembro 9, 2012, 3:25 pm
Filed under: nostalgias

XV

A prima Clarinha era como clara de ovo: transparente e fugidia. Caminhava por entre as entradas de perninhas de caranguejo fritas, croquetes e pão fofo apresentado em toalhas  de linho branco. Também havia bolinhos vários e ela pegou com delicadeza num pequeno folhado de recheio de chila. Clarinha, cuidado que estão quentes, sussurou-lhe a mãe. Clarinha faria trinta anos nesse mês e através do vestido azul viam-se os ossos bicudos e o contorno de roupa interior antiquada. O folhadinho estava quente mas não lhe queimou a língua, enchendo-lhe com satisfação o estômago pequeno: uma delícia, pensou.

Mariana, Guida, Violeta e Bianca ocupavam quatro cadeiras ao fundo da sala, em recatado silêncio em respeito a Maria. Com tenacidade, Lucília manteve-se encostada à parede horas a fio, do lado direito da mãe. Se a força de carácter movesse cimento, tê-la-ia deslocado.

Que porra bonita, dizia Rómulo lá fora, olhando um ninho de melros. No jardim, conversava com Ana Enes, que ruborizava. Petrúcio, ali perto e olhando os botões de rosas, fez um sinal discreto a Rómulo para que desenvolvesse a conversa com mais agilidade e delicadeza. Pelo menos, foi assim que Rómulo interpretou uma mistura de gestos de mãos e franzir de sobrolho, acompanhado do balancear de cabeça do viúvo.

– Desculpa, não devia ter dito porra, pois não? – dirigiu-se o rapaz a Ana, meio gago.

Lá dentro, quando Firmino Banfula entornou vinho na toalha de linho branco bordada pela bisavó-deus-a-tenha, fez-se um silêncio. E então, num histrionismo marcado, Helga apresentou-se de amarelo numa maré de gente vestida de luto. Um lenço vermelho na cabeça gritava aqui me têm, aliado a batôn da mesma cor, maças do rosto da mesma cor, olhos também vermelhos do choro, ai jesus, pensaram tias e primas. A nódoa será difícil de tirar, constatava um enteado aborrecido, enquanto olhares lascivos cresciam entre quatro paredes.

Os melros piaram no ninho onde Rómulo depositava o olhar perdido de quem não sabe conduzir uma  conversa com uma mulher bonita e Clarinha contou pelas vidraças da sala duas pombas revoluteando no céu.



ao lado
Setembro 9, 2012, 2:54 pm
Filed under: citações | Etiquetas:

“Investigar não levava sempre a encontrar o procurado, mas sim a encontrar o que está ao lado do procurado, normalmente também sempre interessante.”

Ar de Dylan, Enrique Vila-Matas