Umumbigo


obstáculo
Janeiro 13, 2013, 9:32 pm
Filed under: de ler | Etiquetas: ,
 Caminhando por uma floresta em Helsínquia – os obstáculos
 

por Gonçalo M. Tavares



Luís Inverno
Janeiro 13, 2013, 8:02 pm
Filed under: nostalgias

XXI

Fechado o bar onde dançara toda a noite com Helga, vendo o mundo turvo, Luís Inverno sentiu a euforia abater-se e transformar-se em melancolia corrosiva quando entrou em casa. Atirou os sapatos para um canto e, de luzes apagadas, pôs água quente a correr na banheira. Caminhou depois até ao quarto, onde agarrou desapegadamente um conjunto de vários papéis envoltos num elástico. Cantarolou algo pelo caminho e manteve-se a olhar a banheira já quase cheia, iluminada por uma lua branca que acenava da janela. Aí, calou-se e largou o manuscrito na água. Durante minutos, viu as folhas empapadas desfazerem-se  e letras pretas a boiar. Atirou depois mãos, braços e mangas à agua quente para salvar o irremediável, já em soluços. Perdera anos de pensamentos que não se repetiriam, tempo precioso dedicado à escrita que podia marcar a história do mundo e, quem sabe, tocar Helga. Tempo inútil: num abalo de desiquilíbrio, desfizera-se do projeto acarinhado com fervor. Imbecil.

Enfim, a vida pode extinguir-se num momento de profundo desgosto. Deitou-se vestido na banheira e susteve a respiração debaixo de água pelo maior tempo possível. Não saberia bem qual o objetivo daquela encenação.  No último segundo, emergia em gritos à superfície para voltar a deitar-se, mergulhado. Repetiu a cena com entrega trágica. Riu-se então do ridículo da noite, despiu-se para um banho prolongado entre pensamentos escritos já absolutamente  desfeitos e a vida seguiu.

Na manhã seguinte, inundada de sol, viu o elástico no fundo da banheira e perguntou o que faria ali.



casa
Janeiro 13, 2013, 3:29 pm
Filed under: música


Milho
Janeiro 13, 2013, 3:25 pm
Filed under: nostalgias

XX

Na tarde em que Bianca viu-se sozinha sem combustível num sítio longínquo de onde partira e onde queria chegar, pensou o que a levava aí, em tempo e espaço. Estava, no fundo, em sítio nenhum: apenas milho amarelo e algum vento. Era aquele o primeiro dia a saber da morte da mãe. Ao peito tinha o rosário e todos pensariam que seria um gesto cínico. Mas não o era, já não o era. Acendeu um cigarro e pensou que se o carro parara exatamente ali e não dez metros antes ou depois, mas precisamente naquele ponto – onde à direita havia milho e à esquerda milho, em frente e para trás estrada, acima céu azul – então não poderia ignorar o que via e vivia. Não se tratava de uma escolha, naturalmente, mas de um caminho já traçado com mestria que a levava exatamente até àquele momento exato. A paisagem não se repetia, apesar de aparentemente igual era toda ela diferente se olhada com atenção e ternura, e saberia encontrar aquele ponto preciso quando aí voltasse, poucas semanas depois, comprado já o terreno para construir a casa branca. Teria atrás um jardim para cuidar e grades vermelhas a delimitar todo o campo envolvente. Outra certeza também já desenhada: alia seria feliz.



enquanto sobe as escadas
Janeiro 13, 2013, 2:27 pm
Filed under: nostalgias

XIX

Petrúcio caminha pela estrada poeirenta, cruzando pequenos descampados com olhos postos no céu, como o faz todas as madrugadas. Hoje nuvens prometem esconder o dia. Ao voltar ao caminho de terra batida murmura é o sol que nos faz.

Enquanto isto, Manuel caído no quintal. Como as nuvens que escurecem a luz, Mariana adia o dia e abraça ainda uma noite negra, bebendo um copo de vinho atrás de outro, enrolada numa manta azul celeste. Lucília está já desperta na cama, esperando que desponte o primeiro raio para correr lá fora a colher tangerinas que pintam a neblina. O primeiro raio não despontará nessa manhã. Violeta a subir as escadas em direção ao quarto, crudelíssima. 

Bianca dorme com Cassandra. Ana Enes passeia de carro guiada por Rómulo, vão ver o nascer do sol ao cabo Espichel. Zózimo, Gaspar e Muriel sonham com Ana Enes. E Manuel caído no quintal. Damião no ilhéu e Olinda em posição fetal do lado de sempre, mantendo intocável a outra metade, pensando já que tem ameixas maduras para o bolo da tarde. João Piedade não conseguiu ainda fechar os olhos. Clarinha dorme agarrada à mãe, está doente outra vez e os ossos parecem ainda mais bicudos na camisa de dormir. Na escuridão do quarto, Guida olha serenamente o teto sob a cruz pregada à parede. Firmino Banfula acorda então a casa com um ronco mais alto.

Helga dança de lábios exageradamente  pintados de roxo num bar quase vazio. E Violeta a subir as escadas, crudelíssima. O gato olha Manuel caído no quintal, de olhar fixo na terra, enquanto o pé da mulher pisa o último degrau.



amour
Janeiro 12, 2013, 2:31 pm
Filed under: música


lorelei
Janeiro 6, 2013, 6:44 pm
Filed under: música