Umumbigo


café da tarde
Janeiro 2, 2013, 11:35 pm
Filed under: nostalgias

XVII

Joana estudava massas de ar convergentes e divergentes, páginas 82 e 83. Passou depois às orações coordenadas e subordinadas, advérbios. Dividiu o soneto em partes. Morfologia e sintaxe também são recursos, repetiu mentalmente.

Entretanto, começou a ler sobre Clístenes e as reformas de Sólon. Pensou que o concurso de escrita terminaria amanhã. Escreverá algo sobre chuva e felicidade. Procura depois no dicionário o significado de valdevinos, que lê algures num conto. Boémio, hum.

– Uma pasmaceira. Estes dias não querem passar, não querem, acreditas?

Violeta suspira de tédio contra o sorriso apaziguador de Olinda. Olha o céu lá fora, está quase branco de tão claro, puro, olha a casa bonita que tens, essas porcelanas valiosas, olha o teu homem que tem um bom coração, a pequena que gosta de estudar e é esperta, tudo te corre bem, anima-te, mulher, que ainda te arrependes de tanta melancolia, come uma fatia desta bolo, ainda está morno, fiz há pouco, vês?, que sorte tens de ter um homem e uma filha, gente para cuidar. Que sorte tens.

Violeta dá um trago no café da tarde, batem as cinco horas no relógio da sala.

Joana, no outro canto da mesa, parte na última badalada o bico do lápis. Sente-se desesperadamente irritada, com vontade de bater no próprio estômago e arranhar-se nos braços e pernas. Então respira fundo e grita uma imensa gargalhada.

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