Umumbigo


cigarro
Janeiro 31, 2014, 7:05 pm
Filed under: nostalgias

LXVI

Naquele dia, o amor caiu mal. Trouxe uma discussão que não dava jeito. Havia trabalho importante no dia seguinte. Que mania essa a do amor poder desestabilizar quando não o deveria. O amor deveria ser conforto, mão na mão, paz e sossego. Aquele amor era guerra aberta.

Manuel falava de cigarro na boca ininterruptamente. Violeta começou por ser uma flor muito bonita, mas agora murchava.

– Que comparação parola, vê se te endireitas – atirou João Piedade. – E vejo isso tudo ao contrário. Repara, é como a luz violeta poder ser fria ou quente, depende da tua perspetiva – estás triste ou feliz? Estás agora triste, mas quando ficares feliz vais ver como pode ser intrigante e bonita. E nem numa balada o amor é pacífico. Devias fumar menos, tens uma nuvem de fumo a turvar-te tudo.
– Estás parvo? Para ficar feliz tenho que me por a léguas.
– Já não podes. Está tudo muito enraizado. Aprende a cuidar o que fizeste crescer.
– Quando era miúdo arrancava as plantas todas pela raiz. Não deixei de o saber fazer. Simplesmente estava a dormitar. Agora quero acordar. É mesmo isso que vou fazer. – levantou-se da cadeira e saiu do café, acendendo novo cigarro.

Anúncios


hás
Janeiro 30, 2014, 7:05 pm
Filed under: nostalgias

LXV

– Tu hás.
– Hei-de o quê?
– Não hás-de. Nem há-des. – sorriu – Tu hás.
– Para quê esses jogos de língua?
– Quais?
– Esses.
– Estes? Gostas de ás de coração?
– Sim, Helga.
– E como é que se diz?
– O quê?
– Tu hás ou tu há?
– Não me parece que nenhum exista.
– Então?
– Tu existes?
– Tu hás. Tu há. Tu hás. Tu hás. Tu existes.

Luís abraçou Helga e disse-lhe: menos palavras. Se fosse Lito, exploraria a continuidade do discurso. Provavelmente gritaria: eu há! eu hei! HEI! HEI! HEI!



perigo
Janeiro 29, 2014, 7:05 pm
Filed under: nostalgias

LXIV

Gostava de ver a proeminência da tragédia. O adivinhar da catástrofe. Como as marcas de um pneu que travam a fundo antes do muro que delimita a rua. Marcas de pneu a indicar que, no final, ainda se foi a tempo. E esse ainda é que era magnético. Entusiasmante. Perigo que desperta.

Por isso mesmo, Bianca travou a fundo antes do muro. Saiu do carro para avaliar as marcas no alcatrão. Nenhuma. Entrou novamente para acelerar ainda mais, no limite da vida, e travar logo de seguida, com toda a sua força.



romã
Janeiro 28, 2014, 7:05 pm
Filed under: nostalgias

LXIII

Já tinham aquecido o quarto, lá fora estava frio. Não saberia dizer se seria dia ou já noite. Ou até o momento de transição. Estava quase a adormecer,  quando Mariana entra rápida e barulhenta:

– Pai, a Lucília vai casar!
– A Lucília.
– Sim, sim!
– Que bom, muito bem. E não vem cá contar-me?
– Vem, vem! Finge que nada te disse. Sabes que não sei guardar segredos.
– Ainda no outro dia víamos as corridas das nuvens, e agora casa-se. Como andam as nuvens?
– Lá em cima – riu-se Mariana.
– A Lucília saberá contar-me como andam. Que o rapaz seja rápido como as nuvens, ou não a acompanha. E se a deixa fugir, ela vai com outra nuvem. Aposto numa em forma de romã.



beldroegas
Janeiro 27, 2014, 7:05 pm
Filed under: nostalgias

LXII

Havia dias em que nada de especial se passava. Naquele dia, o acontecimento foi a sopa: fez, pela primeira vez, uma de beldroegas.Ligou a Violeta:

– Olá, que tal vai tudo?
– Bem, e as coisas aí?
– Cozinhei uma sopa de beldroegas e estava muito boa, vou repetir!, tinha medo que caísse mal, ou até que tivesse que ir para o lixo. Correu bem, estava uma delícia.
– Olha que bem! Tenho aqui a Joana a chamar-me para ajudá-la a apertar o vestido, à noitinha ligo-te Ondina. Até logo!

Até logo, até logo. Que rica sopa de beldroegas. O Damião haveria de gostar. – disse para si. – Ou o homem que me tirou as galochas. Será daqui de perto?



repolho
Janeiro 26, 2014, 7:05 pm
Filed under: nostalgias

LXI

– As nuvens estão a andar a uma velocidade furiosa. Vê.

Ela olha pela janela. Sai depressa do quarto branco e frio para ver melhor a corrida. Volta para ouvir imediatamente Petrúcio perguntar:

– Quem vai na frente?
– Aquela ali em forma de repolho, vês?
– O repolho fechado ou aberto?
– O aberto! Olha que rápida vai!
– As nuvens merecem muito mais do que parecerem-se a um repolho.

Lucília e Petrúcio riem-se muito. Só param quando a enfermeira entra e ordena ao homem – divertida e simultaneamente ríspida – que coma a maça descascada.



ousadia
Janeiro 25, 2014, 5:03 pm
Filed under: nostalgias

LXI

– A lua estava espetada no ar com uma ousadia impressionante. Se todos nos afirmássemos assim, isto andava tudo para a frente.

– Não voltes a conduzir a olhar para a lua. – Luís olhando Helga com indiferença. Helga pensando como Lito teria respondido de maneira diferente.