Umumbigo


soluço
Janeiro 2, 2014, 3:11 pm
Filed under: nostalgias

XXXIX

Para além da urgência em viver, tinha graves problemas de soluços. Gravíssimos.
Nos momentos que requeriam maior elegância ou descrição, soluços guturais rompiam o ar e as conversas, captando olhares e motivando sussurros. Helga não poderia contê-los mesmo que quisesse muito. Muito, iihh, iihh, muito, ihh.

Lembrava-se de todas as vezes em que os soluços tinham causado momentos embaraçosos. Na primeira comunhão, mesmo antes de receber a hóstia pela mão do padre Antão e já de boca aberta e língua expectante, um enorme soluço ecoou em toda a igreja ampla,  batendo nos arcos e fazendo ricochete nos anjinhos: IIHH. Todos os colegas se riram, ao ponto de Pedrito ter visto a mão da catequista em forma de estalada na sua bochecha rosada:

– Pára de te rir.

Houve depois o dia em que Helga caminhava com a primeira paixoneta da paragem até à escola. Quando ele lhe perguntou se tinha tido já algum namorado, irrompeu num ataque de soluços imparável. Jaime pensou que fugia à pergunta e o mundo não avançava nem crescia de mulheres pouco valentes, pelo que Helga logo perdeu ali o encanto.

No dia do exame final da classe, a turma levantou os olhos da folha e papel e gargalhou ao primeiro soluço. Também a professora se riu com o momento descontraído e, pareceu-lhe, muito terno. Alguns meninos eram autênticas panelas de pressão em nervos giratórios e a fragilidade do momento quebrou o ar frio de exigência. Mas, finda a primeira dúzia de soluços, os meninos não se concentravam e a professora não sabia o que fazer. Não poderia tirar Helga da sala ou o exame seria nulo. Então levou-lhe um copo de água – beba tudo de seguida – e, por um minuto de silêncio, a calma aparente pareceria voltar. De novo o soluço. Apertou o pulso à menina – dizem que assim passa os soluços para mim e poderei controlá-los – sem efeito. Carolina tentou pregar-lhe um susto da carteira atrás, mas ouviu apenas uma reprimenda. A professora tapou então o pequeno nariz de Helga e ordenou-lhe que mantivesse a boca fechada, até a menina bater com os pés no chão a pedir licença para respirar – respire lá, vá, e todos a olhar imediatamente para os exames e não ouçam que o tempo está a contar e vai já muito adiantado. Mas como não ouvir? Quando tocou para fora, Mariana Grande pregou-lhe uma rasteira cruel,  vendo-a logo caída no cimento de joelho rasgado.

– Se não passar de ano, a culpa é dos teus ihhs malditos.

Maldita foi a hora em que ela, aos 21 anos, foi pela mão de Marco Maravilha ao seu primeiro baile. Os violinos tocavam os primeiros acordes no salão imponente, quando correu em lágrimas fugindo da primeira dança ao soar o primeiro soluço que parecia vindo das profundezas daquilo que era.

O mesmo no primeiro amasso no carro de Barnabé – ihh – e logo parou de desapertar o botão da blusa.

Agora mesmo, quando lhe dizem que não poderá ter filhos, irrompe em soluços. Não vou chorar, perceba, mas já o médico pega na sua mão e explica que existem outras soluções e opções.

– Sim, claro que sim. E já operou alguma vez para extinguir soluços de uma vez e para sempre?

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