Umumbigo


noite
Janeiro 11, 2014, 5:04 pm
Filed under: nostalgias

XLVII

– É Felipa ou Filipa?
– Felipa.
– Pode então grunhir?
A menina cora e o Doutor inquire a mãe: – Não me disse a Senhora que a menina grunhe de noite como um porquito satisfeito?
– É exatamente assim, Doutor.
– A menina Felipa nunca se apercebeu que grunhe de noite?
Virado para a menina, arqueia a sobrancelha esquerda e esboça um sorriso de boneco de cera.
– Às vezes acordo com esses sons esquisitos que faço. A mamã diz que são como grunhidos. Até há pouco tempo não sabia o que a palavra queria dizer, agora já sei. O que eu não queria era fazer sons feios.
Perante o beicinho, a mãe acarinha a face pequena com muita afetação.
– É tão bonita, o que podemos fazer?
– Bem, note que temos conhecimento de algumas patologias raras que fazem com que um ser humano perfeitamente normal à luz da lupa encarne, em terrores noturnos, os mais diversos animais. Imagine que a menina encarnava uma fera, ou mesmo uma arara, que todos sabemos ser um pássaro muito irritante. Aí o caso seria seriamente bicudo – ri-se o Doutor-boneco-de-cera-mamã-ele-está-a-assustar-me. O beicinho da menina fica ainda mais acentuado, pautado agora de uma respiração travada por notas de medo.
– Senhora mãe, em que situações ocorre este caso?
– Uma vez por semana, Doutor. Sempre às quintas-feiras.
– Sim? Curioso… – diz entre dentes, enquanto escreve letras muito bonitas no caderno preto. A menina olha-o com admiração. Se pensava que nada se poderia perceber saído da mão de alguém de bata branca, tinha agora quase a certeza de que conseguiria juntar todas aquelas letras para ler com dição perfeita. A professora iria aplaudir.
– Sim, é sempre quando o papá está fora.
– O pai vai para fora?
– Às quintas-feiras faz o turno da noite, chega de manhã. – antecipa a mãe. – Pode por favor explicar melhor a patalogia de que falou, Doutor? Só pode ser isso, é exatamente isso, mas claro!, qual é a receita?
– Curioso… – continua escrevendo, ignorando a pergunta preocupada. – E a Filipa sente a falta do papá?
– Felipa – corrige a mãe.
– Vejo-o todos os dias, de manhã já me vem acordar com um beijinho e não tenho muito tempo para ter saudades. Quando sai por mais tempo sim, mas o papá tem estado muito em casa. Quando sai mais tempo traz-me sempre chocolates, também gosto muito.
– Sabe, Doutor, realmente é muito estranho. Pensei também que seria a falta do pai.
– Como são esses grunhidos?
– Nunca me lembro, é a mamã que ouve.
– Pode a Senhora mãe tentar replicar o grunhido?
– Sim, Doutor. É algo que vem de muito fundo. Assim:
A mãe começa a arfar e vê admiração nos olhos do homem.
Escrevendo notas com velocidade atenta, olha a menina sorrindo muito:
– Então acorda com este som, é isso?
– Sim, e tenho sempre a impressão que vem do quarto da mamã. Então levanto-me, a porta está fechada, e a mamã diz que estou a grunhir. Diz para voltar a dormir e em silêncio. Às vezes fica chateada e eu fico triste.
– Voltas a dormir?
– Sim.
– E
– Esse é um apontamento muitíssimo importante, ainda bem que lembras Felipinha – atira a mãe rapidamente, por cima do “e” que iniciaria a próxima pergunta do Doutor. Metralhando, explica que a menina poderá também ter uma patologia no ouvido, sendo que quando acorda ouve o grunhido noutro compartimento da casa. – Veja lá a situação, fico muitíssimo preocupada. O que podemos fazer?
– A menina ouve o grunhido vindo da sala, do quarto da mãe, da cozinha, de qualquer divisão da casa que não o seu quarto? – especifica o Doutor.
– Não, ouço sempre vindo do quarto da mamã.
– E uma vez ouviste vindo da salinha, lembras-te? – completa rapidamente a mãe.
– Não me lembro, ouvi sempre do quarto dos papás.
– Interessante – fitando gravemente os olhos da mãe.
– E a mamã acorda-te aí para que pares de grunhir?
– Não, eu acordo sempre primeiro e bato à porta do quarto da mãe.
A mãe começa a impacientar-se na cadeira, inspirando e expirando com visível afetação.
– Não se preocupe, não estaremos seguramente perante um caso sério, o que a apoquenta assim?
– Veja que esta história preocupa também o pai. Todas as sextas, a Felipinha conta-lhe que voltou a grunhir. Ele fica naturalmente muito apreensivo. A Felipinha é a princesa do papá – e pode então esta menina doce ter laivos de animal? – As últimas palavras são já um sussurro.
– Entendo, sorri o Doutor.
– Preciso com urgência de uma receita para tranquilizá-lo – e a mim também – de que a menina irá melhorar. Vê solução para este caso? – Num gesto fugaz, abre o botão que protege o decote. – Bem vê a minha aflição.
Silêncio.
– Sim, sim, sim, sim – enquanto escreve no caderno. Felipa poderia jurar que agora rabisca apenas, não pode aquilo ser letras e muito menos palavras. Pouco depois de um ponto final, fecha o caderno e pede à menina que aguarde lá fora. – Na salinha podes ver a revista e  – pisca um olho – pede um rebuçado de mentol à senhora que está no balcão, sim? Diz-lhe que fui eu quem autorizou.

A menina sorri e sai da sala depois de dizer baixinho à mãe: não demores muito. A mãe acena um sim enternecedor.
Já lá fora, folheia a revista e atenta nas fotografias de famílias felizes, senhoras com jóias, férias na praia, pessoas demasiado morenas. Felipinha era muito branca. Findo o rebuçado de mentol e vendo as imagens e títulos já da última página, começa a inquietar-se. Dá estalidos com a língua (se a mãe ouvisse, ralhava-me já). Balanceia os pés no ar. Muda de posição na cadeira e olha a porta do consultório. Poderia jurar que ouve um grunhido. Poderia jurar que vem lá de dentro. “Preciso de ficar boa rapidamente”, diz baixinho no silêncio da sala. A rececionista levanta os olhos e sorri.

Alguns minutos depois, também sorridente, a mãe abre a porta – despedindo-se do Doutor com um aperto de mão – e aproxima-se de Felipa com a receita na mão.
– Um xarope que sabe a laranja e umas pastilhas – que parecem rebuçados! – durante cinco dias. Para a semana voltamos para o Doutor avaliar a evolução. Vais ficar boa num piscar de olhos. És uma menina com sorte.

Felipinha fica muito feliz.

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