Umumbigo


galochas
Janeiro 24, 2014, 4:43 pm
Filed under: nostalgias

LX

Comprou umas galochas. Umas galochas muito brilhantes. Umas galochas lindas e justas. Calçou-as com algum esforço, até cada pé estar exatamente onde devia estar. Correu todos os caminhos com elas, brilhantes. Não eram muito confortáveis, mas eram precisamente lindas e justas.

À noite, não conseguiu descalça-las. Tentou tantas vezes libertar os pés que não se lembra já quantas foram, e sentiu que estavam presos para sempre. Os pés. Ela e Damião também – presos na separação. Nessa noite, dormiu de galochas, e acordou já calçada e pronta para correr o dia. Correu-o com velocidade e alegria, e não se lembrou mais como iria descalçar-se daquele aperto, também daquela saudade.

Olinda dormiu três noites de galochas. Tomou banho com elas. Comeu à mesa e na soleira da porta com elas. Pensou com elas. Riu-se da situação – tocando-as – e chorou – olhando-as. Concluiu que Damião iria achar hilariante tudo aquilo e desejou lembrar-se ainda de contar-lhe quando voltasse.

Ao quarto dia, pediu ao primeiro homem robusto que viu na rua:

– Por favor, tire-me as galochas.

Não falava com nenhum homem desde que Damião partira.

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