Umumbigo


violino
Fevereiro 28, 2014, 3:15 pm
Filed under: impressões

O homem do violino vestia-se roto e tinha olhos mansos e tristes, trejeitos de rua. Na boina cor de café tilinta um sininho de latão, então olá a todos. As mãos ásperas das colheitas dos dias. E os olho melancolicamente resignados, muito cansados. A sacola do violino vai gasta, na mão direita, e o ombro segue ligeiramente descaído. Compra um bilhete de comboio para dormir num assento quente de vermelho e amarelo, imagina a paisagem que corre lá fora nos sonhos mais confortáveis de luz. Até o revisor chegar, tocar no ombro descaído para que se apresse a mostrar o bilhete imaculadamente novo, agora com o furo do visto: tudo na vida se degrada.

Porto São Bento. As pombas voam nos Aliados, o homem sobe a rua íngreme, olha os Clérigos, admira as montras de luxos que um dia terá, “um dia terei”, continua, a respiração já ofegante. Nos Leões, segue por Cedofeita, hoje irá tocar aqui onde um raio de sol aquece e alegra, agora já a queimar. A boina já lá está, quem quiser que doe generosidade. Rotineiramente, começa-se o tocar do que aprendeu de ouvir e ver o pai ensaiar, em círculos tortos de música que bate na calçada e diz bom-dia, de mansinho, a um novo acordar.

(2011)



quero
Fevereiro 27, 2014, 3:00 pm
Filed under: nostalgias

XCI

Quero fazer um bolo a sorrir e apertar um laço e dar um abraço e coser um ovo para encontrar um botão a ler um livro e viajar para moscovo e prender com um travessão – respirar – a empurrar um baloiço e tudo enquanto não te oiço – atirou Lucília de rajada a Lito.

– Ficas bonita furiosa.



mar
Fevereiro 26, 2014, 5:12 pm
Filed under: nostalgias

XC

Na primeira vez em que viu o mar achou-o pequeno. Se falavam dele como algo imenso, uma brutidão. Não lhe pareceu revolto, não lhe pareceu um manto que cobre e possui. Podias chamar-te antes rio, riu-se para dentro.

– Mar, olá.
– Olá, sou a Guida.

Alguém com o nome Mar deveria ser maior.

– Como vês, não tenho olhos azuis.
– Mas tens ar no nome. Esse ar ninguém te tira.

Alguém com o nome Mar deveria ser muito maior.

– Nunca tinha pensado nisso. E tu o ui.
– O ui?
– Tens ui no nome. Sinal de perigo ou espanto?
– É a primeira vez em que penso nisso.
– Ou contemplação. Sinal de contemplação.



arranhão
Fevereiro 25, 2014, 5:00 pm
Filed under: nostalgias

LXXXIX

Petrúcio viu um arranhão na mão ao ensaboar-se. Como fizera aquilo? Tinha na mão um traço reto de sangue coagulado. O que significa que rasgara a pele, sangrara, e não reparara. O que estaria a fazer para estar tão ocupado sem reparar que na pele morena do sol corria um rio vermelho à escala da mão? Sem Maria, não atentava a si. Preocupava-se neste preciso instante se atentava aos outros.

Corre assim que se seca e veste a ver Mariana e Lucília. Olha-as com exímia atenção – a testa de Mariana tem já uma ruga, a de Lucília lisa, os olhos de ambas limpos, os de Mariana menos abertos ou apenas cansados, os lábios de Lucília gretados, tens que parar de molhar os lábios com a língua para vê-los secar ao vento, os pescoços brancos, os pés seguros. O susto depressa avolumando-se em alívio.

– Tens um sapato roto, Lucília – sussura enquanto lhe passa a mão pelo cabelo.



esperar
Fevereiro 24, 2014, 4:14 pm
Filed under: nostalgias

LXXXVIII

Esperar por alguém com expectativa. Congelar um momento para vivê-lo daí a um tempo, a dois ou três ou vinte e três. Como esperar para jantar. Para nos sentarmos à mesa. Para olharmos em uníssono e exclamarmos algo no mesmo piscar de olhos durante a viagem da travessa ao centro da mesa.

A travessa está pronta a sair do forno e esperam por Guida para jantar. Vem do internato passar o fim-de-semana, desde logo agitado quando entra de cabelo muito curto nessa noite:

– Não vou voltar lá, falei com as freiras e está tudo tratado. Vou ser cabeleireira em vários países. Quero aprender como crescem e caem os cabelos do maior número de pessoas do mundo. Quero tocar com uma tesoura o maior número de pessoas do mundo na medida que o tempo dos dias me deixar. Espero que compreendam.

Esperar por entendimento do outro lado.



alto
Fevereiro 23, 2014, 1:08 am
Filed under: nostalgias

LXXXVII

– Sabes a sensação de estarmos muito alto e olharmos cá para baixo? As pernas a tremer e frio na barriga? Como um arrepio que põe o corpo em sentido. Em alerta, aliás. Imagina uma corrente de ar frio, algo assim.

– Sim, o que acontece depois?

– Acontece o que se passou: foi isso mesmo que senti quando o carro ficou sem gasolina naquele quilómetro de milho à direita, milho à esquerda, estrada em frente e para trás. O céu alto a cair aos trambolhões.



ideia
Fevereiro 22, 2014, 12:55 am
Filed under: nostalgias

LXXXVI

Ia Lucília a contar passinhos pela calçada, pisando pedras da mesma cor, evitando as que se desviavam do padrão. O sol alegre e! teve uma ideia. Logo distraiu-se com a cor da pedra – se era preta a que deveria pisar e aquela era branca – e logo um salto precipitado para acertar o passo e a ideia sumiu. Perdeu a ideia nas pedras da calçada. Provavelmente calcou-a até, deixando-a atrás de si, fragilizada. Pode ter ficado a flutuar no lago próximo, pode até ter explodido. Ou pode a ideia ter levantado voo, entre o ar quente, rumo ao sol alegre. Afinal, para onde vão as ideias que perdemos? Juntam-se todas em algum ponto para formar montanhas de invenções e evoluções? Ou isolam-se, achando-se cada uma melhor do que a outra? Lucília sabe que era uma boa ideia, eventualmente até uma grande ideia, e já que a perdeu quer agora que se junte a um grande bolo de ideias luminosas. Que brilhem muito, muito, e que descubram como fazer a mãe Mariana feliz.