Umumbigo


escuro
Fevereiro 4, 2014, 12:52 am
Filed under: nostalgias

LXX

– A única diferença entre o escuro e a luz é esta que te digo agora: quando está luz, o escuro está iluminado.
– O escuro  é escuro.
– É isso, o escuro é escuro e só as crianças têm medo dele.
– Posso bater nas coisas.
– E não só, de que mais tens medo?
– Só disso.
– Não tens medo de caminhar com sol porque podes cair e rasgar um joelho?
– Isso passa.
– Se bateres nas coisas, no escuro, é provável que te magoes ainda menos. Porque andas mais devagar, com mais atenção. Ouves até o silêncio.
– Odeio nódoas negras.
– E tens medo de quem possa estar à tua espera.
– Quem haveria de estar?
– Não sei, mas repara nisto que te digo agora: que quem te espera no escuro também te espera na luz.
– Não é bem assim.
– O escuro não é mais do que ausência de luz. As coisas estão lá, na mesma. As pessoas também.

Mariana fechou os olhos para não mais ver luz ou escuro. Quereria apenas ver o interior dos olhos. Que eram seus e de mais ninguém. Que eram seguros e que a protegeriam do que estava fora. Fora, onde João iniciava uma aproximação do rosto que fechava os olhos perante luz e escuridão. Vê isto que farei agora: já muito próximos. Quase a tocarem-se. Mariana abriu os olhos no último segundo e atirou a cabeça para o lado direito, contrário ao coração.

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