Umumbigo


rotina
Fevereiro 6, 2014, 2:50 pm
Filed under: nostalgias

LXXII

Para combater a solidão, Ondina repetia uma rotina alegre. Começava por alisar os lençóis brancos várias vezes, de manhã, pintava os lábios com uma cor tímida – quase inexistente -, fechava a porta duas vezes antes de sair para o dia, comprava pão fresco, deixava na casa da vizinha velhinha os restos do jantar, para os cães que alimentava e abrigava, trabalhava com rigor na secretaria, bebia um copo de vinho tinto, ao jantar, bebia chá depois de lavar os dentes, à noite, levava uma botija quente para a cama, de inverno, e um abanico, de verão. Quando a ordem das coisas corria sem atropelos, não pensava muito em Damião. Alegrava-se com as pequenas coisas do dia e tinha sempre muita esperança no que aí viria. Quando a ordem das coisas corria em atropelos, via e sentia Damião ali, do dobro do seu tamanho, exasperante. Entrava numa espiral de pânico, como nessa manhã em que acorda tranquila para alisar os lençóis várias vezes, encontrando muitos cabelos – teria que avaliar a queda excessiva para perceber porque na sua cabeça viviam agora folhas caducas – pinta os lábios com a cor tímida – quase inexistente e quase no fim, terá que comprar novo batom e teme não encontrar a sua cor – fecha a porta duas vezes – com um pontapé pelo meio, que está perra e tem que mandar ver a fechadura – compra pão fresco e nota que é do dia anterior – não me volta a vender este pão, Dona Ana, aos anos que cá venho – vai a casa da vizinha e vê o aparato e os choros e sabe então que morreu nessa madrugada,  ainda deu de comer aos cães, é agora o velório e amanhã o funeral, avisa na secretaria que irá mais tarde, prestará luto à vizinha velhinha, e quando retoma o trabalho já se acumularam papéis na secretária e tudo está desorganizado, segue para a noite, de olhos vermelhos, mal dando por ela quando vai já no segundo copo de vinho – se me vissem – e depois vê com estupefação que deixou acabar o chá – como vou dormir -, olhando a botija quente que a espera, fiel. Como Damião nunca fora. Grita e enterra a cabeça dentro do lençol.

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