Umumbigo


diferença
Março 31, 2014, 2:39 pm
Filed under: nostalgias

CXXII

– A diferença entre nós é que tu descascas uma laranja com a faca e eu descasco com as mãos. – Violeta levanta-se para deixar a varanda abanando a anca de forma proeminente. Luís segue o balancear, muito atento, até o cruzar da porta.



berlinde
Março 30, 2014, 9:50 pm
Filed under: nostalgias

CXXI

Engoliu um berlinde e logo de seguida engoliu o susto de ter engolido um berlinde. Sentiu-o primeiro frio na língua, onde exibia a Joana o perigo da manobra, e num movimento menos cuidadoso ela viu-o desaparecer num fundo negro e ele sentiu-o descer redondo pela garganta. Rolou abaixo, e logo imaginou-o em brincadeiras na barriga, fazendo ricochete em vários ângulos. Ao contrário do berlinde, engolir o susto foi quente, um alerta de perigo que pôs todo o corpo em sentido.

Seguindo o conselho de Joana, fez de seguida o pino para que o berlinde descesse. Não desceu. Tentou então beber o máximo de água que conseguiu para que o fizesse flutuar até à sua boca, logo cuspido com alívio. Não foi isso que aconteceu. Os colegas agarraram-no ainda pela barriga, fazendo força para tentar a expulsão do objeto estranho. O silêncio da expectativa e: nada aconteceu.

Na realidade, acontecia uma coisa excecional: aos olhos de Joana, o interesse de João crescia muito. Quem poderia dizer ter um berlinde alojado na barriga? Isso começava a despertar-lhe um princípio de fascinação. Um começo de atração. Quando João estava prestes a contar à professora o que acontecera, pedindo ajuda, Joana disse-lhe:

– Deixa-o estar aí. Será o nosso segredo.

Então assentiu sorrindo, escondendo a preocupação de não ter a certeza se acordaria vivo na manhã seguinte ou engasgado com uma bola de vidro pequenina da cor do mar.

Nessa noite, sonhou que no lugar do umbigo tinha o berlinde, muito azul, muito brilhante. Joana quis tocar-lhe e acordou.



vermelho
Março 29, 2014, 2:40 pm
Filed under: nostalgias

CXX

A noite estava estrelada como um ovo.

– Procuras estrelas na terra? – surgiu Lito na estrada.

Lucília sentada no jardim, olhando os pés, e Lito do outro lado da grade de casa. Tinha passado ali de propósito, adivinhando se teria a sorte de a ver. Sim, tivera essa sorte, e agora? O propósito era apenas vê-la ali, simples e clara, mas esquecera-se de como conduziria o que daí viesse. E vinha já.

– Essa frase parece saída da novela. Normalmente diz-se olá, algo assim – sorriu Lucília.
– Olá, por aqui? – Lito nervoso.
– As estrelas estão onde eu quiser. Até posso ver uma em ti.

Ele da cor de um tomate muito maduro a pensar em tomates muito maduros, e agora?

– Sabes que as estrelas vermelhas existem – disse Lucília com riso atrevido.



universal
Março 28, 2014, 2:40 pm
Filed under: nostalgias

CXIX

Porque não sabia ler, o mendigo pediu a Bianca que passava ligeira, a contemplar, para lhe dizer o que estava escrito nas costas da sua própria camisola, em letras azuis.

– Amar é dar aos outros.
– Diz isso assim mesmo?
– Sim, noutra língua. É isso como se diz noutra parte do mundo.
– Mas não falam o que falamos?
– Nem todos.
O mendigo riu-se muito, e já sério perguntou – Como podemos perceber os outros alguma vez. Como podem eles perceber os de cá?
– Eu acho que nem tudo são palavras. Acredito que até podíamos viver sem elas, expressando só gestos corporais. São universais. E, claro, temos a música – sorriu Bianca. – Vou trazer-te uma viola amanhã. Vais gostar.
– Não sei nada de música.
– Vou ensinar-te.



feminina
Março 27, 2014, 2:40 pm
Filed under: nostalgias

CXVIII

Foi à aula de “auto-hetero-ajuda-feminina” promovida na cidade. Já atrasada, entrou pé ante pé para mergulhar no discurso da mulher de lábios entre um azul e roxo que vibrava na sala

pensem na sensação de estarem nuas e atirarem o pescoço para trás, sentem o cabelo comprido na pele, é um toque que arrepia, não é?, mulheres de cabelo curto, imaginem o toque leve dos vossos dedos no antebraço, fazendo cócegas e pele de galinha, essa é a sensação

Lucília a sentar-se no círculo com o mínimo ruído possível, desconfortável vendo todas de olhos fechados, de mãos nas mãos

há decotes que fazem com que olhem duas vezes para vocês, sais curtas vertiginosas. É isso necessário para que tenham prazer? Pode ser, pode ser, não digo que não

Uma mulher muito magra e outra anã dão espaço a Lucília para se sentar, e uma delas pisca um olho rápido e logo coloca a mão sobre a sua, sussurrando bem-vinda

mas saibam sempre que o vosso poder vai para além do corpo. Podem dar corpo a outro corpo, já pensaram no poder que é ser mãe?

Ser mãe, ser mãe, repete interiormente Lucília

ou no poder de serem as melhores no que fazem. As melhores.

Atenta, Lucília a ouvir e sentir o toque da palvra “melhor”, ainda desconfortável com os olhos fechados e as mãos de estranhas nas suas

o poder de serem admiradas, o poder de serem um exemplo, o poder de mudarem o vosso mundo e o dos outros

Lucília interrompe então a sessão perante o abrir de olhos contrariados daquelas que que saem de uma viagem muito funda, zangadas por terem sido despertas

– O que é ter poder?



intriga
Março 26, 2014, 2:40 pm
Filed under: nostalgias

CXVII

– Sou intriguista e isso não é mau. Encadeio essas intrigas exibindo uma teia de fição amável, simples. Entrelaço histórias intrigantes para intrigar quem me ouve, quem me lê. Para seduzir quem me lê.

– O que é que já escreveste?

– Rigoramente nada. Mas na minha cabeça sou um romancista intriguista. Falta apenas passar tudo para o papel.

Ela ri alto de Lito, que se levanta depressa a recolher os cafés bebidos de outras mesas, logo voltando de novo à de Lucília para encher a sala com gargalhadas nervosas. Rir era a sua melhor defesa e isso não é mau.



horto
Março 25, 2014, 2:40 pm
Filed under: nostalgias

CXVI

Sempre gostou de horto-grafia. Escrevia madalenas e acentuava ervas aromáticas com a destreza de quem sempre o fez e viu fazer. Petrúcio escrevia todas as manhãs, sem exceção. A exceção tinha existido uma única vez, na manhã do luto de Maria, e durante a tarde sentiu a gritante urgência de voltar à horta. E foi o que fez. Escrever plantas ou arrancar verbos daninhos enquanto rimava amores-perfeitos fazia-lhe sempre suar e transpirar os medos e alegrias da vida. Era um exercício de higiene pessoal, na verdade, como lavar as mãos e a cara. Se não o fizesse, tudo o que é sujo vinha ao de cima.