Umumbigo


rima que rima
Março 6, 2014, 10:10 pm
Filed under: crónica

Para começar com “isto não é uma crónica sobre coisas”, esclareça-se: é uma crónica sobre nada.

O nada de alguém ler esta frase no preciso instante em que poderia estar a fazer outra coisa do mundo das coisas. Fazer uma bola de sabão, trincar um pão, imaginar um foguetão. Coisas que rimam para chegarmos à harmonia que por vezes se encontra se procurarmos bem o que está ao lado.

Estão agora segundos mais velhos e nunca mais poderão recuperar os que passaram. Estamos. Fizemos tudo bem até aqui? Podemos pelo menos fazer de futuro? Se isso engloba o ângulo torto e errado das coisas, que logo equilibra o muito certo, diremos que sim. E podemos continuar a rimar com ão e até festejar bebendo um licor que nos leve ao estado de ressaca ocular. Isto significa que nos cansamos de ver as mesmas coisas todos dias.  A precisar de um beliscão. Pode gerar enjoo e dor de cabeça. Diremos que a cura pode estar em procurarmos novas coisas para olharmos e vermos e rimarmos. E, como todos sabemos, sempre que procuramos algo com precisão, encontramos naturalmente o que está ao lado. Numa volta ao início deste texto, o ciclo completa-se aqui: vê os avanços e recuos que fazem de nós exploradores do novo que logo é velho e de novo novo, sem erro de palavra repetida, é seguramente novo novo. Ainda estás aí?

Serve isto para pulsar o muito que temos a palmilhar no círculo sem princípio nem fim das rimas dos dias. Que bom que assim é. E se isto é uma incoerência, diremos que Gonçalo M. Tavares chamou a coerência pelo nome certo: característica vegetal. Mesmo que nos atraia esta facilidade e leveza, não somos repolhos. Não nascemos para sermos plantados e amadurecidos no pino do sol. E para além disto há o saber a rima do er e se terem passados mais segundos desde que embarcaste na primeira letra, atracamos agora para que possas correr com urgência o que está já aí: a vida a desenhar-se no círculo sem princípio nem fim das rimas dos dias de que ninguém sabe muito. Ignorantes e, com sorte, com a consciência de o sermos. E ainda bem.

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