Umumbigo


esquecer
Março 19, 2014, 11:20 pm
Filed under: nostalgias

CX

Esquecer a cara de alguém pode ser muito angustiante. Assim se sentiu Ondina – angustiada – quanto, a meio do caminho até casa, se apercebeu que não se lembrava da cara de Damião. Não se lembrou primeiro quando corria um pensamento perdido a galope, e logo sentiu o coração acelerar e o calor subir-lhe ao peito e rosto, um fogo a queimar-lhe a pele, a queimar-lhe os olhos. Como é a tua cara, com que formas. Damião? Não se lembrou uma segunda vez ao raciocinar que realmente não conseguia ver a cara de Damião, se podia aquilo ser verdade. Fechou os olhos com força, como se lá de dentro viessem as feições.  Não se lembrou uma terceira vez quando apalpou o próprio peito – a escaldar em tremores e suores que batem muito depressa – à procura de um passado, que passado. Damião, Damião, Damião. A tua cara, Damião. Que boca, que orelhas, que cabelo em desalinho. Pálpebras, que boca, nariz. Lábios que me beijaram, Damião? Vai um pensamento a galope angustiado e o cavaleiro não tem rosto. Vai ali uma mancha disforme, e Ondina apoia-se numa parede a tentar recuperar o equilíbrio que voltará apenas quando aceitar lembrar-se todos os dias que se esqueceu.

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