Umumbigo


lábios
Março 20, 2014, 2:39 pm
Filed under: nostalgias

CXI

As mulheres bonitas desconcertavam-no. Ao olhá-las, Luís via apenas lábios a mexerem-se num vazio perturbador. Não ouvia nada do que eventualmente diriam, e se acenava com atenção, decorava apenas bocas a mexerem-se, uma respiração de mulher embalando o peito, embalando ele mesmo, rodando o ar com mestria, lábios a mexerem-se. Para Luís, todas as mulheres eram provocadoras. Todos insinuavam um depois do agora em que cruzam um olhar rápido, todas prometiam um até já.

Com Violeta foi diferente. Com Violeta foi diferente porque nos lábios dela vivia uma cicatriz que quebrou o desconcerto habitual para ver-se Luís perguntar primeiro a si – o que te rasgou os lábios? – depois a ela – o que te magoou? O olhar rápido depressa demorado. Vê-la, numa primeira fase, não foi mais do que um exame frio da cicatriz, logo aquecido pela curiosidade em descobrir o que não conhecia, em olhar o poço escuro até saber – o que te cortou os lábios de alto a cima? – logo quente ao pensar cair no poço, até ao fim do princípio da descoberta. Quero cair no poço até ao fundo.

– Caí de uma varanda quando era pequena. O lábio cresceu rachado em dois.

Luís com os olhos a brilhar.

– Hoje gosto da cicatriz. Lembra-me que não nos devemos debruçar demasiado num parapeito. Ou o peito não pára. Segue depressa até onde está o chão.

– Não é o chão um bom destino? – Luís tonto e inebriado, perguntando o que logo lhe pareceu absurdo.

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