Umumbigo


pânico
Março 21, 2014, 2:39 pm
Filed under: nostalgias

CXII

Em pânico, bocejava. Tinha a extraordinária reação física e emocional de aparentar a maior calma do mundo quando, por dentro, crescia um vulcão prestes a destruir a casa interior. Primeiro pulmões, seguidos de fígado e coração. Depois as janelas para o mundo – olhos logo cegos.

Mariana bocejava olhando o exterior de dentro de casa. Muito sol e gente despreocupada a passar na rua. E Lucília? Cruzou as portas de casa até o sol tocar a pele. Tudo igual: e Lucília? A vizinha acenou um olá muito feliz.

Lucília não vinha a casa há precisamente quatro dias. Quando saiu de casa, disse precisamente: Vou e não volto. Se voltar, é porque já cá não estás. Nesse dia, havia precisamente aquele sol. Desde esse dia que era sempre sol, como se não tivessem respeito pelo que Mariana vivia. Se pode uma pessoa ser miserável ao sol.

Mariana esperava Lucília, mesmo sabendo que só a encontraria se saísse dali. Mas o pânico alastrava a calma do vulcão, imobilizando-a ou na janela, ou na porta. Janela e porta trocadas inúmeras vezes ao dia. Aos dias. A vizinha a acenar olá felicíssimos, se temos tanto sol para alegrar a gente. Sol vários meses seguidos. Pode lá uma pessoa ser miserável ao sol? Mariana podia.

Anúncios

Deixe um Comentário so far
Deixe um comentário



Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s



%d bloggers like this: