Umumbigo


fugidia
Março 24, 2014, 2:39 pm
Filed under: nostalgias

CXV

De novo, Manuel e Violeta:

– Dizeres-te fugidia não te desculpa os erros.
– Que erros?
– Os diários. Na relação comigo, na relação com os outros, na relação com o mundo.
– O que entendes por fugidia?

– É isso que dizes ser para desvalorizares o que valorizo. Partes um copo e perguntas – para quê conservarmos copos se podemos não viver amanhã? – adormeces para faltar a um encontro importante e exclamas – para quê chegarmos a tempo se o próprio tempo não anda a tempo – esqueces-te de me amar e sorris – para que amar-te hoje se amanhã a probabilidade de não me amares é grande? – gritas com as tuas irmãs e concluis – para quê fazer as pazes hoje se daqui a um tempo ninguém se lembra e a vida é já outra? Mas a vida não é só essa areia a cair entre os dedos. Retiras o significado a tudo tratando as coisas e pessoas como bolas de sabão que logo rebentam. Sei que o fazes para te sentires bem. É a moldura que encontraste para te enquadrar, quando criticas a estruturação de todos os outros. Tu também te estruturaste: como fugidia.

– Amor, estás enganado em tudo. Olha o vento que está, a roupa vai secar num instante – desinteressa-se Violeta.
– Também o vento não é o responsável por falhares, por falharmos. O vento não é a saída para fugitivos fugidios. Deixa o vento estar, responde ao que te pergunto.
– Não ouvi nenhuma pergunta.
– Consegues ser mais presente? Ter obstáculos e esforçares-te para os ultrapassar? Somos a capacidade de darmos a volta às coisas. Somos uma superação em potencial. Somos uma entrega aos nossos dias. Temos que ser intensos. Temos que acreditar nas coisas. Temos que acreditar na longevidade das coisas. Por que não acreditas em nada?
– Acredito que gosto de esquivar-me, ser espantadiça, efémera. Não carrego essa responsabilidade e peso de que falas (e me assusta) porque vejo realmente tudo, tudo fugaz e o que é fugaz é leve, é muito leve. Vivo feliz assim.
– Sei que um dia vais voar de tão leve te tens vindo a tornar. Não vivo feliz assim.
– Gostava de poder fazer-te feliz. Hoje digo-te que quando esse dia chegar, despeço-me da forma menos fugidia que conseguir. Prometo.
– O dia em que me fazes feliz?
– Não acredito que alguém o consiga. Falo do dia em que voar.

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