Umumbigo


dualidade
Abril 30, 2014, 3:14 pm
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CLIII

– A Helga tem um problema de dualidade. – sorri de bata branca. – Vamos prender o cabelo em dois. De um lado, cortarei curto, do outro permanecerá comprido. Quando se angustiar com uma decisão, mude de vida. Terá a Helga das decisões certas e a Helga das decisões erradas. Tudo correrá bem para uma, tudo correrá mal para outra. – sorri enternecido. – Não há problema nenhum, é o destino de cada uma delas. Verá que viverá tranquila, o que quase ninguém consegue. Serão no fundo duas Helgas, não terá que debater-se para ser apenas uma inteira certa e errada num equilíbrio doente. Poderá acertar tudo de um lado, errar tudo do outro. Não é isto um bom remédio? E é mesmo só isto, um corte de cabelo. Não precisa de tomar nada mais. Está curada.

– Isso foi já testado com alguém?

A sorrir muito – Sim, comigo mesmo. Olhe: De costas, o braço de bata branca aponta o meio do pescoço – do lado direito, o cabelo é mais comprido do que o do lado esquerdo. A diferença é ténue, é preciso olhar com muita atenção. Já virado de frente, o rosto iluminado olhando o seu, Helga repara que as metades de cabelo são também diferentes. Não está despenteado, são dois dele.

– Quando já não tiver que pensar que são duas Helgas, quando for já natural, a diferença do corte vai diminuindo. Será tão ligeira como o que vê em mim. Na verdade, ninguém repara – pisca-lhe um olho.

– E é feliz?

– Sou feliz, garanto-lhe que será também – a sorrir cada vez mais. Helga sorri também.



varanda
Abril 29, 2014, 2:39 pm
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CLII

– A vida pode ser apanharmos flores na primavera, fazermos castelos de areia no verão, bonecos de neve no inverno.
– Mas em que mundo vives?
– No nosso mundo.

Violeta chora baixinho, e logo Luís chora também. Depressa choram alto e depois do homem gordo passar já se riem muito.



decisão
Abril 28, 2014, 7:07 pm
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CLI

Na viragem do ano encheu-se de coragem para liderar a arbitragem da vida. Deveria ser a decisora do seu destino. Com assertividade e alguma serenidade. Tanto quis isto que algo então se inundou, afogando o querer, e logo no dia dois perdeu redondamente a capacidade de decisão. Desde o que vestir ao nome do filho que teria no futuro. Tudo a angustiava. Helga a pensar e repensar na saia azul ou lilás ou joaquim, arnaldo, pedrito, logo a desabar num nó cego. O céu magoava de claro e ainda permanecia deitada na cama, muito acordada pelos suores frios, pensando: sair pelo lado esquerdo ou direito? Que impacto teria a decisão no resto do dia e, consequentemente, na vida? Em toda a vida.

O problema era grave e ao sexto dia deitada na cama a debater-se, falando hora após hora mais alto, veio o médico. Trazia na mão uma tesoura.



repetia
Abril 28, 2014, 7:07 pm
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CL

A mulher do café, enquanto lavava copos, repetia tudo o que os outros diziam como

– E então fui lá à praia para ver o tamanho das ondas
– o tamanho das ondas
– e imagina que eram mesmo enormes
– enormes, enormes
– enormes maiores que tudo o que viste
– tudo o que viste
– e tive até medo e vim embora
– embora

a água a correr, quente, resto de vinho a cair na banca lavada de sujo e

– E ao vir embora vi uma coisa incrível
– uma coisa incrível
– a Violeta e o Manuel a chorarem juntos na varanda
– a chorarem na varanda?
– sabes o que aconteceu?
– o que aconteceu?
– eu não sei, não sei
– não sei
– espero que esteja tudo bem.
– espero que esteja tudo bem.

O último copo lavado e logo sai a mulher do transe da repetição:

– Esses dois são tão diferentes. Só eles sabem como se dão.



opostos
Abril 28, 2014, 7:07 pm
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CXLIX

Vimos do sul para norte e vamos do norte para sul, ou este a oeste, qualquer coisa como andar sempre na direção oposta. Oeste a este, onde há o expoente máximo do melhor que conhecemos. É então muito melhor, é terrivelmente bom. Assusta a felicidade que promete. Mas vicia para prender e logo chama-nos muito alto até rumarmos de norte a sul, este a oeste, sul a norte, baixo para cima, claro, qualquer coisa como corrermos para a ponta oposta. Como trocar de cabeceira de mesa, agora sim vejo o que quero e o assento é confortável. Agora sim, claro.

Violeta explica aquilo que diz ser a essência humana. Procurar o contrário num retorno sem fim. Chega a ser angustiante, como vivemos nesta roda viva – conclui sem esperar resposta. Luís pergunta, como sempre pergunta: procuraste-me por ser o oposto de ti? Em sexo e ideias?

– Em ideias, sim.



febre
Abril 27, 2014, 7:07 pm
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CXLVIII

A atiçar o âmago, o corpo quente de febre o hálito quente de febre os olhos quentes de febre. Que idade adivinharia hoje ter no dia da maior febre desde o princípio dos dias e do mundo. Que experiência nas palmas das mãos, que rasgo de vida à frente, sempre para a frente e em frente. Metade da idade de hoje, talvez. O dobro da idade hoje, como a vida corre. Ela é hoje eu há vinte anos atrás, entendem? Eu sou hoje ela com vinte anos na cabeça e nos pés. As pernas esticaram, a anca alargou, os seios. Cresci, enfim.

Preciosa conta a Ondina e Mariana o dia da maior febre do princípio dos dias e do mundo. E como depois disso ficou feia.

– Falava-vos dos olhos quentes de febre e ansiosos de outra febre, a febre que temos aos vinte anos – continua.



silvo
Abril 26, 2014, 7:07 pm
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CXLVII

– Dói-me o pescoço de olhar as árvores altas.

Lucília olha a mãe e ouve o silvo do vento. Espera a resposta não olhes as árvores altas. Prepara um contra-ataque de pálpebras fechadas, em expectativa desafiante, quando ouve:

– Só crescerás se continuares a olhar as árvores altas. A dor passa.

Lucília abre os olhos. O silvo do vento intensifica-se. Mariana a sorrir.