Umumbigo


morrer
Abril 1, 2014, 5:45 pm
Filed under: nostalgias

CXXIII

Passou toda a vida a juntar dinheiro para morrer. Como se a vida fosse uma sala de espera nervosa para a morte, finalmente. Era nisso mesmo em que acreditava. Fazia tempo, viva, lendo revistas, olhando-se de vez a vez ao espelho, criando filhos, beijando homens, amando alguns, vendo imagens e adivinhando conversas na televisão, odiando outros, indo à casa-de-banho, compondo a saia, trocando o cruzar de perna, olhando os outros na sala de espera nervosa. A morte estaria já aí, sou já a próxima. É só mais este senhor e depois aquela menina e entra logo a senhora, sim? Está quase. Finalmente.

Helga queria um funeral semelhante a um festival. Com barraquinhas várias, farturas, churros simples e até com chocolate, cachorrinhos quentes, cervejas sempre a sair, música altíssima, a tocar o obsceno. Pessoas vestidas de verão, cheias de cor e trapos leves. Cheias de calor e suor, cheias de expectativa perante tudo o que acontece. A comer fritos, doces, a fumar cigarros. A entornar cerveja gelada uns em cima dos outros, eufóricos, devorando mais comida com a embriaguez, devorando-se uns aos outros. Falando altíssimo, a tocar o obsceno. Saltando e dançando estranbolicamente e gritando a vivos pulmões: estamos vivos! E Helga morta, feliz, num cortejo liderado por baianas de fruta na cabeça, bonitas como a Carmen Miranda de lábios vermelhos e riso doce, humedecendo os olhos que nelas pousam – Ta-hi!, eu fiz tudo pra você gostar de mim, ó meu bem não faz assim comigo não, você tem, você tem – e Helga toda vestida de amarelo – que tem que me dar seu coração. Lideram a frente sensuais. E depois vêm outros de plumas e colares extravagantes, uma mulher de andas e um cuspidor de fogo. Neste cortejo não quer ninguém que a tenha conhecida viva, quer apenas uma maré de estranhos, quanto maior melhor, e que concordem festejar como nunca antes. Festejar até à exaustão. Que sejam novos e fortes, saudáveis, para que aguentem o maior número possível de dias e noites seguidas de exagero corporal. Ininterruptamente às gargalhadas.  Helga vai morta e nunca cairá em descompostura.

– Dona Helga – abre os olhos – vamos entrar?

É a última na sala de espera. Ia jurar que lhe cheira a carne grelhada na brasa. Levanta-se a cantarolar: Essa estória de gostar de alguém já é mania que as pessoas têm, se me ajudasse, Nosso Senhor, eu não pensaria mais no amor. Passando pelo balcão do dentista, pensa aborrecida no dinheiro que no final terá que lá deixar – daria certamente para muitas voltinhas de meninos traquinas e meninas de tranças no carrossel do seu funeral.

Anúncios

Deixe um Comentário so far
Deixe um comentário



Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s



%d bloggers like this: