Umumbigo


tesouro
Maio 31, 2014, 10:01 pm
Filed under: nostalgias

CLXXXV

– O importante num tesouro não é o ouro, não é a prata, não são as pedras preciosas grandes como luas brilhantes. O importante num tesouro é encontrá-lo para voltar a escondê-lo.

Lucília manteve os talhares pendurados no ar, num assombro perante poesia que corta o jantar.

– O que vais esconder?

Lito abriu a boca para engolir uma batata. Na outra ponta da mesa e ainda de talheres no ar, como se aí pertencessem, Lucília viu-a ser esmagada pelos dentes e língua, e viu depois um grande sorriso de Lito. Sorriu também.

 

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inúmeros
Maio 31, 2014, 4:02 pm
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“(…) Vivem em nós inúmeros, se penso ou sinto, ignoro quem é que pensa ou sente, sou somente o lugar onde se pensa e sente, e, não acabando aqui, é como se acabasse, uma vez que para além de pensar e sentir não há mais nada. Se somente isto sou, pensa Ricardo Reis depois de ler, quem estará pensando agora o que penso, ou penso que estou pensando no lugar que sou de pensar, quem estará sentindo o que sinto, ou sinto que estou sentindo no lugar que sou de sentir, quem se serve de mim para sentir e pensar, e, de quantos inúmeros que em mim vivem, eu sou qual, quem, Quain, que pensamentos e sensações serão os que não partilho por só me pertencerem, quem sou eu que outros não sejam ou tenham sido ou venham a ser.”

O Ano da Morte de Ricardo Reis, José Saramago



Blandina
Maio 30, 2014, 9:54 pm
Filed under: nostalgias

CLXXXIV

Sim, Blandina era blandiciosa. Demonstrava com todos grande ternura e afeto ao multiplicar-se em gestos de afago, em carícias de agrado e carinhos doces. Meiga e de jeitos tropicais, nascida e criada no Brasil, cultivava a blandícia como quem cultiva um pé de feijão. Poderia vestir-se de algodão doce para atrair pequeninos, adultos e velhinhos, trazendo também um diminutivo aos do meio e tratando-os em tom maternal. Essa era, em boa verdade, a sua especialidade. Os crescidos que não são mais do que pequeninos com medo de envelhecerem. Blandina sentia-se muito atraída pela confusão que atravessavam, já lá estivera. Hoje envelhecia tranquila e colorida naquele meio rural de Portugal, já cruzados os oitenta. O seu dia-a-dia consistia em acarinhar e apaziguar os adultinhos ansiosos: tudo vai correr bem, meu bem.



poço
Maio 29, 2014, 9:54 pm
Filed under: nostalgias

CLXXXIII

Firmino Banfula tinha um catarro muito grande. Interrompia a serenidade de qualquer espaço habitado ou não habitado com uma tosse vinda de profundezas muito escuras.

– Homem, isso ainda nos mata e logo de seguida te mata a ti.

Decidiu então curar aquilo. Primeiro, com bagaço. Não resultando, deixou de fumar. Não havendo mudança alguma, bebeu a infusão preparada pela mãe com folhas frescas de guaco, malva, mel e duas colheres de água do poço.

– Para quê a água do poço?

A mãe inventou uma história de santinhos e preces milagrosas para convencê-lo a beber a água mais próxima do que a da fonte e, portanto, mais cómoda. Firmino Banfula assentiu como um menino e chorou como um menino quando constatou, no dia seguinte, estar extinto o catarro. Logo brindou com muito álcool, logo dançou toda a noite e toda a manhã envolto em fumo de charutos baratos. Logo acordou de ressaca.

O poço passou a ser o seu lugar de culto pessoal e rotina higiénica e todos os dias descia um balde vazio para fazê-lo subir pesado e cheio de água benta para nela se banhar e nela saciar a sede. Prometeu a todos nas redondezas que curaria qualquer mal. A vizinhança entreolhava-se duvidosa e decidiu testar a teoria com um caso perdido: poderia aquela água dita santa alimentar Clarinha a definhar de magreza e fazê-la crescer em formas de mulher?

Firmino Banfula correu a levar Clarinha ao colo sob o olhar preocupado da tia e os seus pés apressados para segui-los. O poço andava de boca em boca e evoluía de um culto pessoal para um culto de gente com fome de milagres.

-Aquela água vai fazer-te roliça como um frade, já vais ver.

A tia corria a segui-los envolta em crença e misericórdia, murmurando rezinhas e cânticos desafinados. Clarinha ia de olhos fechados e ossos cada vez mais bicudos.



lezíria
Maio 28, 2014, 9:54 pm
Filed under: nostalgias

CLXXXII

Rumaram à lezíria num dia de muita chuva. Imaginaram pelo caminho o verde alagado e as poças de água nos pés. O ar respirava qualquer coisa como uma alegria soturna.

Um pardal corta a neblina parda para avisar que o céu é dele. Relembram agora que no dia em que rumaram à lezíria um pardal cortou o ar e disse: o céu é meu.

Mas a terra é minha, sorriu Lucília a Lito, ao lado. Lito está sempre ao lado. Mesmo quando deveria seguir à frente, Lito mantém-se ao lado. Para a frente Lucília encontraria o caminho, mesmo no meio de escuridão absoluta. Fora pela sua coragem que Lito se apaixonara. E pela luz, sim, pela luz também.

Foi Lucília quem decidiu a lezíria como destino no dia em que ouviram o pardal falar. Lito manteve o lado seguro porque não conhecia outra geometria.



polpa
Maio 28, 2014, 12:02 am
Filed under: de ler | Etiquetas:

“Aprendemos a viver não é para terminarmos. A luz não aceita seu futuro: ser poeira. Saboreamos o cristal do riso, a polpa sumaruda do amor, a doce sombra da amizade, trincamos a eternidade em breves dentadas não é para depois sermos nada, nenhum, ninguém.”

Mia Couto, Histórias Abensonhadas



amuo
Maio 27, 2014, 9:54 pm
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CLXXXI

Petrúcio virou a pessoa mais mal disposta do mundo. Num dia sorriu, no outro fechou a cara. Fechar a cara significa não abri-la ao mundo exterior, o que significa que não há reação, não há emoção. Não há expressão nenhuma. Na realidade, há apenas o sinal de uma chave invisível que rodou sobre a boca para encerrá-la a qualquer esboço de empatia. Porque Petrúcio virou a pessoa mais mal disposta quando se viu sem Maria e se viu com pouco de filhas, a viverem os seus presentes e congeminarem os seus futuros, porque Petrúcio não gostou de não ter com quem falar fechou-se de um dia para o outro no seu pesar. Era a maior birra do mundo.

Tocam à campainha, a sineta alegre, e o homem arrasta as pantafuas a abrir a porta com ar zangado. Vê de soslaio as filhas, leves e frescas do ar lá de fora. Não faz nenhum movimento facial e esforça-se realmente por parecer contrariado apenas usando o olhar. O olhar mais contrariado do mundo. Ouve Mariana sussurrar a Guida:

– Só amua quem gosta de nós.

Mantém-se a olhar o chão, sério, quando Violeta se aproxima para dizer-lhe isso mesmo, só amua quem gosta de nós, sempre ouviste melhor os sussurros que os gritos, obrigada por gostares de nós.