Umumbigo


pombas
Maio 8, 2014, 3:58 pm
Filed under: nostalgias

CLXI

Tinha um medo horrível de pombas. Um medo horrível é algo que corta a respiração, acelera o coração e faz-nos fechar os olhos para ver para dentro. A linha ténue entre um medo horrível e o sufoco de paixão é ténue. O medo horrível é algo pior.
Petrúcio tinha, então, um medo horrível das penas, asas a bater. Só de pensar no cheiro e no bico perdia toda a virilidade que acreditava um homem ter que ter, para começar a correr rumo a não sabe onde, de olhos fechados, respiração a falhar, coração acelerado, sempre de olhos fechados e muito fechados. Não gritava apenas porque nunca tinha aprendido a gritar. Mesmo no dia em que viu Maria morta, não gritou. O mais provável é nunca ter aprendido a gritar, e agora velho dizia não saber aprender. Vai de olhos fechados, na praça, encolhendo-se porque viu pombas esvoaçar, quando Ondina saída não sabe de onde o abraça com força e diz:

– Está tudo bem!

Nunca Maria o tinha abraçado para dizer estar tudo bem. O toque apaziguador caiu nele como uma novidade tão rara, tão estranha, que pode jurar ter sentido aprender uma coisa nova. Abriu os olhos e viu ainda pombas esvoaçar. Teve medo, claro, mas perdeu o horrível no abraço. Teve só muito medo.

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