Umumbigo


limoeiro
Maio 15, 2014, 1:07 pm
Filed under: nostalgias

CLXVIII

– A minha história faz-se de muita luta. Como quando se bate no limoeiro para que dê fruto. Damos-lhe com um pau, vemos as ferias no tronco, a seiva começa finalmente a correr. A árvore chora e só depois vêm os limões.

– A árvores chora?

– Sim, como nós.

O café da tarde entre Preciosa, Ondina e Guida mexe devagarinho a história da mulher feia.

– Comecei por tirar os dentes no hospital militar. Vivi sempre sozinha mas gosto de viver sozinha. Não quero é que me levem para um lar, são só velhas que dizem sempre a mesma coisa e velha sou já eu. Velhas sozinhas têm necessidade de falar e num lar toda a velha é sozinha. Falam sempre as mesmas coisas, como se agora voltasse a dizer falam sempre as mesmas coisas, e outra vez falam sempre as mesmas coisas. A única pessoa que me poderia lá plantar como um limoeiro é a minha irmã. Esteve doente e foi lá para fora ficar boa. Ficou boa. Levou para lá o filho para fazer-lhe companhia nos montes. O miúdo não gosta daquilo, tem muita neve.

– É tudo branco como dizem?

– Sim, como uma nuvem grande e molhada. Quando a neve derreter, mando alguém buscar o miúdo para viver aqui. Todo o miúdo precisa de sol para crescer.

– E a tua irmã?

– Já cresceu tudo. Está agora em fase de mingar.

Anúncios

Deixe um Comentário so far
Deixe um comentário



Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s



%d bloggers like this: