Umumbigo


renda
Maio 26, 2014, 9:09 pm
Filed under: nostalgias

CLXXX

Lucília envolve-se na renda líquida quase azulada, quase transparente, andando devagar debaixo da chuva bordada a água fina e pensando que bonita seria se fosse cor de violeta, cor da flor e da irmã. Andando muito devagar.

O dia distrai-nos, só a noite nos avisa, pensa de seguida. Pensar uma coisa e depois outra é um exercício recente e esforça-se por executá-lo com exatidão, contra os muitos pensamentos que ontem a atropelaram à velocidade de um comboio rápido e pesado, o dia distrai-nos, o quintal, o amor, a roupa lavada, a dor no peito, vai o comboio muito depressa, muito pesado, vai atropelar-me, só a noite nos avisa. Pensar uma coisa e depois outra de seguida. Uma de cada vez.

Quando o azar nos apanha, é difícil fugirmos dele. Como se se afeiçoasse a nós, aninhado no nosso peito, onde me dói, e ficando aí igual a um gato ronronando. Não vale a pena dizer xô, xô, está aí ronronando pequenino e logo cresce muito para logo nos absorver na totalidade do que somos. Ou do que gostaríamos de ser. Também nos afeiçoamos a ele, pensa agora Lucília bordada a água fina, alva como um lençol que estenderá na manhã seguinte, a manhã seguinte é um domingo a abrir os olhos. Abrindo muito devagar. Volta, sorte, olha Lucília o céu, um trapo enegrecido, e logo conclui: se sou uma pessoa e queria ser contente. Xô.

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