Umumbigo


onde
Junho 30, 2014, 1:29 pm
Filed under: nostalgias

CCXIV

Onde cabem os livros que não lemos. Sendo o homem solitário da casa da colina não teria com quem debater isto que o inquietava tanto, afinal não falava com ninguém e ninguém lhe falava, ninguém me fala. Teria, no entanto, que responder algo a si mesmo. Porque isto me inquieta. Para que o sol nascesse e se pusesse sem esta exaustão de querer saber onde cabem os livros que não lemos. Tinha tantos livros nas estantes por ler. Onde cabem as rosas que não floriram. Onde, porra, onde.

Num dia sem sol Helga passava ali, não sabemos de onde vinha ou para onde iria. Onde cabem as mulheres que não são amadas.

Vejo-te por uma fresta da cortina escura, quem és tu. Onde cabe então quem nunca conhecemos.

Helga tinha ouvido muitas histórias sobre o homem da casa da colina. Lembrava-se que algumas tinham feitiços, galinhas e luas cheias, outras crianças desaparecidas escondidas num quarto, outras falavam só de um homem sozinho. Helga sabia que era só um homem só e num ímpeto que não saberá depois explicar, subiu vendo a porta aproximar-se e ela aproximar-se da porta, finalmente a madeira ao alcance da minha mão.

O homem já está do lá de lá da porta, já cá estou. Onde caibo eu, afinal.

Antes de bater com os nós dos dedos expectantes, Helga ouviu lá dentro uma voz grave perguntando com uma imensa aflição:

– Onde?

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there is a light that never goes out
Junho 29, 2014, 10:03 pm
Filed under: música



corolário
Junho 29, 2014, 1:29 pm
Filed under: nostalgias

CCXIII

Basta um minuto para alguém se perder, um minuto e isto foram apenas segundos, não é isto, é um pouco mais mas não tanto porque basta um minuto para alguém se resolver, não mais que isto.

Como corolário de um pequeno avanço ou recuo tudo o que ainda será. Então Mariana não se mexeu, ficou assim imóvel feita estátua, susteve até a respiração e não deixou que vento nenhum movesse um seu cabelo. Então Mariana trocou as voltas do que ainda seria, se pode o ser pendurar um ainda?



caruma
Junho 28, 2014, 1:29 pm
Filed under: nostalgias

CCXII

Salta na caruma e volta a saltar. Segura o regador como quem segura uma arma de felicidade. Rega as agulhas de pinheiro que tantos queimam como quem rega flores coloridas de todas as cores. Ri como quem ri à toa. Salta na caruma a rir à toa.

Neste episódio que estava por contar, vem Manuel abraçá-la e perguntar o que fazes, Violeta.

– Acredito na ressureição.

O regador não tem água.



nespereira
Junho 27, 2014, 3:25 pm
Filed under: nostalgias

CCXI

Discutiram debaixo de uma nespereira. Durante o muito tempo em que gritaram, Lucília pensou em segundos soltos como era bonita. No fim, pediu a Lito algum tempo de silêncio para ouvi-la com muita atenção. Não a ela, tudo estava dito se é possível acreditar que se encerra o dizer num ponto exato, mas aquela árvore bonita, era urgente ouvir o que ainda não pudera pronunciar. Beijaram-se no silêncio da nespereira.



amurada
Junho 26, 2014, 1:29 pm
Filed under: nostalgias

CCX

Vai apoiado à amurada. O vento é molhado e já se vêem os telhados de zinco. Adivinha as construções feias e esburacadas que à distância são só uma névoa de trapos rotos, podia ser uma névoa bonita não adivinhasse já as construções que aí estão. Erguidas há muitos anos, pintadas de fresco e imponentes, e hoje ruindo com estrondo e cor de nada. Se foste erguido, vais cair. Ou: se vais cair, já foste erguido.

Passa rápida pela cabeça de Damião a dúvida que sussurra podes tu erguer-te depois de ter caído e responde lento entre duas passas de cigarro onde colocou tudo o que ainda viria, sim se ainda tenho Ondina.



barulho
Junho 25, 2014, 1:29 pm
Filed under: nostalgias

CCIX

Na casa ouvia-se um barulho pequenino. Pequenino porque era só um apontamento, algo como um último confeti amarelo tímido voando no ar depois da festa adormecer. Pousando no chão e depois o silêncio. Ficando lá pequenino. O choro leve prolongou-se assim muito tempo, entre o ar o e cair no soalho, confeti amarelo tímido, se pode um choro ser leve.

Só parou quando ouviu o barulhinho, um barulho pequenino, esse barulho que era ela mesma. Guida nunca chorava quando se ouvia chorar.