Umumbigo


mente
Junho 8, 2014, 1:49 pm
Filed under: nostalgias

CXCII

Índigo aprendeu a ler a mente na televisão, numa rubrica de um programa da tarde chamada “Aprenda a ler a mente”. Índigo era dos poucos ali à volta a ter televisão e chamava-se de nascimento José até começar a dizer chamar-se Índigo depois de ser espetador assíduo de “Aprenda a ler a mente”, todas as tardes, de segunda a sexta-feira, porque sábado e domingo são dias de concursos de incultura geral e música popular no ecrã.

Numa manhã muito desperta de domingo, Índigo deambulava para ler a mente das pessoas. E as pessoas riam-se de José e se não o chamavam Zé, ou Zézão, chamavam-lhe índio e logo batiam com a mão em forma de concha na boca, enquanto faziam “ohhh”, enchendo todo o ar com o grito e rindo muito com muita superioridade, num esgar de desdém.

Índigo era muito branco, quase pálido, não usava plumas na cabeça, não pintava a cara, comia comida de lata, era alto e encorpado mas não sabia começar um fogo com dois paus e uma pedra. Índigo via televisão, vejo televisão, tenho eletricidade em casa, uso sapatos, penteio-me, invejosos, queriam também uma televisão, por que me chamam índio? Qualquer dia vingo-me.

Cumprindo a promessa, um dia vingou-se.

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