Umumbigo


estranhos
Junho 14, 2014, 6:30 pm
Filed under: nostalgias

CXCVIII

Só se viam em casamentos, funerais e batizados. No entretanto, a vida atropelava-se muito, física e emocionalmente, que só assim se completa. Falavam duas, três vezes por ano. Quatro ou cinco se era um daqueles anos marcado por eventos sem fim. As conversas nunca eram de circunstância.

– Devíamos poder despedirmo-nos das pessoas de quem gostamos.

– Sim, dizer então até já, faz boa viagem, se puderes manda notícias e vemo-nos sabe quem quando.

– Foi bom partilhar momentos desta vida contigo. Lembras-te daquele dia em que lançámos um papagaio?

– Estás a ficar velho e lamechas.

– É fedido morrer.

– Estás a ficar velho e ainda não dizes um palavrão como deve ser dito?

– Ainda não, talvez quando morto.

Disfarçavam lágrimas prestes a saltar dos olhos a rir muito. As mulheres olhavam-nos curiosas, como podem dois estranhos rir assim. Precisamente por serem estranhos era o que ainda não sabiam.

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