Umumbigo


onde
Junho 30, 2014, 1:29 pm
Filed under: nostalgias

CCXIV

Onde cabem os livros que não lemos. Sendo o homem solitário da casa da colina não teria com quem debater isto que o inquietava tanto, afinal não falava com ninguém e ninguém lhe falava, ninguém me fala. Teria, no entanto, que responder algo a si mesmo. Porque isto me inquieta. Para que o sol nascesse e se pusesse sem esta exaustão de querer saber onde cabem os livros que não lemos. Tinha tantos livros nas estantes por ler. Onde cabem as rosas que não floriram. Onde, porra, onde.

Num dia sem sol Helga passava ali, não sabemos de onde vinha ou para onde iria. Onde cabem as mulheres que não são amadas.

Vejo-te por uma fresta da cortina escura, quem és tu. Onde cabe então quem nunca conhecemos.

Helga tinha ouvido muitas histórias sobre o homem da casa da colina. Lembrava-se que algumas tinham feitiços, galinhas e luas cheias, outras crianças desaparecidas escondidas num quarto, outras falavam só de um homem sozinho. Helga sabia que era só um homem só e num ímpeto que não saberá depois explicar, subiu vendo a porta aproximar-se e ela aproximar-se da porta, finalmente a madeira ao alcance da minha mão.

O homem já está do lá de lá da porta, já cá estou. Onde caibo eu, afinal.

Antes de bater com os nós dos dedos expectantes, Helga ouviu lá dentro uma voz grave perguntando com uma imensa aflição:

– Onde?

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