Umumbigo


polpa
Agosto 1, 2014, 1:35 pm
Filed under: nostalgias

CCXV

Esmagou a polpa de metade da melancia com o punho. Nela ficou um buraco logo inundado por sumo. Olhou a segunda metade preparando-se para repetir o murro quando a mãe entrou na cozinha de mão no ar, esquivando-se Lito pela janela. No atropelo do salto rasgou a cortina e já do lado de lá ria-se tanto que caiu. Quando se ria semicerrava os olhos e quanto mais se ria mais os olhos se fechavam. Caiu assustado num canteiro de amores-perfeitos amarelos e lilases logo imperfeitos porque desfeitos e já vem a mãe de mão no ar para o castigo redobrado. Lito quer levantar-se mas há um pé que está torto. Apesar da dor intensa continua a rir-se, vai já conduzido com pressa por uma orelha e esforça-se por caminhar direito – estás a andar assim por quê? – porque me apetece.

Foi vendo-o mancar e rindo muito alto que Lucília, no quintal vizinho, aproximou-se do muro. A mãe estava ao lado cavando terra e disse-lhe:

– O miúdo não tem ementa.

Lucília corou muito.

Vendo o rubor, continuou Mariana: – O que nasce torto torto será. Nenhuma mulher pode emendar um homem, lembra-te disso. Chega-me a cesta.

Lucília levou-lhe as sementes de olhos muito abertos.

Anúncios

Deixe um Comentário so far
Deixe um comentário



Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s



%d bloggers like this: