Umumbigo


estendal
Fevereiro 28, 2015, 10:55 pm
Filed under: poesia

Em que pensar, agora, senão em ti? Tu, que

tens sempre os lábios gretados de café

essa é a regra de todos os dias

e de todas as noites redondas

melhor pensar nisso e não em ti

nem quando subimos à rocha quente

para logo mergulhar

ou quando apontaste o dedo à lua

nasceu uma verruga

e eu ri muito alto

demasiado alto

talvez nervos meus de saber

teres defeitos  grandes e lábios gretados

– que apetecem sempre beijar –

melhor pensar no cardume de melros

olha lá, são imensos

e eu ri muito alto, demasiado alto

espantando o horror de

melhor pensar nos pés e não em ti

caminhar sem sapatos

estupidamente encharcados do temporal

e eu que nem reparei que choveu

apesar do estrondo de tudo

e de tu a gritares coisas de silêncio

nos meus ouvidos molhados

– como a trazer-me à tona –

só um sussurro azul

enfim vim à tona e como não lembrar

a onda que era fria

ou estalo de amor

e eu em perigo que corri logo, logo

pendurei-me no estendal

a secar – pareceu-me que sequei

de olhos sempre abertos como os teus

não cair nos teus olhos, não

melhor pensar

que toda a gente nasce

mas tu nasceste mais

e em que pensar, agora,

senão em ti?

Toda a gente nasce

mas tu nasceste mais

e contigo

eu

que ainda pingo dos sapatos.

fev 2015



falésia
Fevereiro 3, 2015, 11:41 pm
Filed under: poesia

Lá vai a bicicleta do poeta em direção

ao símbolo, por uma dia de verão

exemplar.

Desconfiando de quem seca roupa

dentro de casa,

lá vai.

Contente por acertar a tabuada

e todos os nomes de animais extintos

que viveram para se alimentar,

procriar,

fugir de predadores.

Não correram tudo, afinal

(eu posso correr tudo)

tropeçaram na hipotenusa e nos catetos,

rasgaram um joelho

(eu comi o sol e engordei)

não tiveram mães nem colos quentes,

pés em cima de pés e isto é fundamental

como desenhar faíscas e foguetões.

As mães não deviam morrer

e o que interessa isso se

lá vai a bicicleta

beijando a terra com dentes tortos.

Era um poeta só

querendo acelerar e de repente

(eu sou de repente)

escorregou no metal,

mandaram-no calar

mas quis cantar mais alto

em direção ao símbolo

falésia e perigo de derrocada.

Travou a tempo de domar o aço

o espanto,

e o suor

(suei)

no dia de verão exemplar

sem exemplo

porque se há nevoeiro

deves moderar a velocidade

da tua bicicleta,

largar a aventura e a poesia: inúteis, disseram-me

e nunca esquecer o capacete

(esqueço-me sempre).

fev 2015